Mundo
08/01/2009 - 02h00

"Ofensiva israelense só eleva apoio ao Hamas", diz médico palestino

Publicidade

VANESSA CORREA
colaboração para a Folha Online

O médico palestino Khamis Elessi, 65, que trabalha no Hospital Al Shifa, o maior da cidade de Gaza, capital da faixa de Gaza, disse nesta quarta-feira, em entrevista à Folha Online, em inglês, que a ação militar de Israel naquela região --que já dura 13 dias e matou mais de 650 palestinos-- irá fortalecer, entre os palestinos, o apoio ao grupo radical islâmico Hamas.

"Com a continuação das agressões e a forte resistência dos 'combatentes pela liberdade' e do Hamas, o apoio ao Hamas vai ficar muito, muito mais forte."

Leia relato de brasileiro em Israel

Elessi diz que o Hamas não tem responsabilidade no confronto com Israel e ressalta que o cessar-fogo que houve entre ambas as partes no segundo semestre do ano passado --que deixou de ser renovado dias antes do início da ofensiva, por iniciativa do Hamas-- não dava "direitos humanos mínimos" para as pessoas de Gaza, pois o bloqueio imposto pelo governo israelense ao território palestino foi mantido --violando, inclusive, um dos termos do acordo.

Para o médico palestino, logo que o bloqueio foi retomado, "mais de 300 pessoas morreram por não poderem sair e buscar atendimento médico". "Eles fizeram 170 violações da trégua", diz Elessi. "Começaram a cortar o suprimento de eletricidade, água, comida". Elessi acredita que Israel estava se "preparando" para os ataques.

O palestino disse ainda avaliar que o regime de Hamas em Gaza é "legítimo e democrático". "As pessoas têm liberdade para se expressar contra o governo, se quiserem. Pessoas falam noite e dia contra o Hamas na televisão, e nunca ninguém foi punido ou ameaçado por isso".

Vítimas

Elessi não teve parentes ou amigos mortos no conflitos, mas disse que familiares sofreram ferimentos causados por estilhaços de vidro durante bombardeios.

De acordo com Elessi, entre os mortos, ao menos 50% são mulheres e crianças e ao menos 85% são civis. Ele cita como exemplo de massacre de civis a morte de 190 policiais, na terça (6). Segundo o médico, a maioria dos mortos apenas "coordenada o trânsito". Desde o início da ofensiva por terra --iniciada em 3 de janeiro passado--, os militares israelenses realizaram "mais de dez massacres", inclusive de família inteiras, ainda conforme o médico.

Para Elessi, as Forças de Defesa de Israel tentam "eliminar completamente as famílias, especialmente as que estão próximas à fronteira". "O Exército mata indiscriminadamente". "Como eles não conseguiam se vingar dos militantes 'combatentes pela liberdade' após as baixas de soldados israelenses, eles se vingaram em um alvo fácil, os civis dentro de casa", acusa o médico palestino.

Suprimentos

Segundo Elessi, os túneis de Gaza para o Egito construídos pelo Hamas para furar o bloqueio feito por Israel, cuja destruição é uma das prioridades da atual ofensiva, são importantes para a população. "Sem os túneis, grande parte da população de Gaza teria morrido nos últimos seis meses, porque importamos alimentos através deles."

Nesta quarta-feira (7), Israel realizou uma trégua de três horas para viabilizar a entrada de caminhões com ajuda humanitária em Gaza. No total, 15 caminhões conseguiram alcançar o território. "Para viver normalmente, precisaríamos de centenas de caminhões, quanto mais agora".

"O povo palestino merece ter os mesmos direitos que todas as pessoas do mundo, gozar de liberdade para ir e vir". "Acreditamos que a paz deva prevalecer e todos nós amamos a paz, mas queremos uma paz que nos dê os nossos direitos básicos", finalizou Khamis Elessi.

 

FolhaShop

Digite produto
ou marca