Plano egípcio de trégua entre israelenses e palestinos tem lacunas
da Folha de S.Paulo
Embora a proposta de trégua em Gaza apresentada anteontem pelo Egito tenha encontrado receptividade nos meios diplomáticos e apontado uma saída para a crise, sua viabilidade já enfrenta contestações. Sobretudo devido a lacunas que os pontos do plano trazidos a público deixam entrever.
Em primeiro lugar, a proposta refere-se a grupos palestinos de maneira genérica como interlocutores de Israel no conflito, sem dirigir-se especificamente ao Hamas, alvo declarado da ofensiva desde o seu começo. O grupo, vencedor das eleições legislativas palestinas de 2006, controla o território há um ano e meio, quando expulsou a Autoridade Nacional Palestina (ANP), hoje presidida pelo rival secular Fatah.
Em segundo, não se detém sobre aquela que é a principal reivindicação israelense para um cessar-fogo: o envio de monitores para a fronteira entre Gaza e o Egito. Ali, túneis subterrâneos são usados pelo Hamas para obter armamento, inclusive os foguetes lançados contra Israel.
Ainda que o envio de uma força internacional esteja previsto no plano, não há detalhes sobre de que país o seu contingente viria --especula-se que da Turquia-- e quais seriam suas atribuições, se apenas de monitores ou se de manutenção da paz, o que implicaria no seu armamento. A segunda opção já foi descartada pelo Hamas.
Elaborada com ajuda do presidente francês, Nicolas Sarkozy, que realizou gestões diplomáticas em seu giro pelo Oriente Médio, a proposta obteve de o apoio dos EUA, embora o país tenha se dito "aberto" a outras propostas.
Ontem, Sarkozy saudou o que disse ser a "aceitação por Israel e pela ANP" do plano, que prevê ainda a abertura das passagens a Gaza e o fim do bloqueio econômico israelense. Mas o otimismo não foi corroborado por Israel, que considerou a proposta "bem-vinda", mas condicionou-a ao fim dos disparos de foguetes.
Hamas
Outro obstáculo para um acordo é a impossibilidade de ter no Hamas uma liderança clara. Ainda que não tenha sido especificado como interlocutor, o grupo, convidado pelo Cairo para negociar, se disse "pronto para tomar parte em uma solução do tipo para o conflito", segundo Khaled Meshaal, líder do Hamas na Síria.
Mas, segundo o israelense "Haaretz", Israel acredita que milicianos de baixa hierarquia resistirão a um acordo e continuarão a disparar foguetes contra o país. Para o governo, a própria ofensiva contra a infraestrutura do Hamas contribuiu para inviabilizar a comunicação da sua liderança --já fragmentada-- com os seus braços armados dispersos por Gaza.
Com "Financial Times" e agências internacionais
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