Obama defende criação de horário político gratuito na TV dos EUA; leia trecho de livro
da Folha Online
Para nós brasileiros, a proposta pode parecer absurda. Mas nem por isso deixa de ser verdadeira. Barack Obama, que assume hoje a presidência dos Estados Unidos, defende a criação de um horário político gratuito na TV e no rádio de seu país. E defende também o financiamento público das campanhas eleitorais dos EUA.
As propostas de Obama estão descritas --por ele mesmo-- no livro "Audácia da Esperança - Reflexões Sobre a Reconquista do Sonho Americano" (Larousse, 2007).
No trecho do livro que pode ser lido abaixo, além de defender a criação do horário gratuito, Obama também admite ter votado "a favor" de molestadores sexuais quando serviu na legislatura de seu estado. Mas Obama logo explica o que aconteceu: foi sem querer; ele apertou o botão errado.
Leia abaixo o texto de Obama retirado do livro e veja também outros livros sobre os Estados Unidos
*
Talvez minha maior sorte ao fazer a campanha para o Senado tenha sido o fato de que nenhum candidato veiculou comerciais negativos a meu respeito. Isso se deveu às circunstâncias peculiares de minha candidatura e não à falta de material disponível. Afinal, servira na legislatura de meu estado por sete anos, estivera no partido da maioria durante seis deles e votara em milhares de leis, algumas controversas.
| Divulgação |
|
Como é prática corrente hoje em dia, o National Republican Senatorial Committee [numa tradução literal, Comitê Nacional de Senadores Republicanos. (N. T.)] preparara uma pesquisa alentada e negativa a meu respeito antes mesmo de eu haver sido indicado à disputa, e minha própria equipe de pesquisa passou várias horas revistando meu histórico, na esperança de antecipar qualquer propaganda política negativa que os republicanos pudessem ter na manga.
Não encontraram muita coisa, mas o suficiente para armar a cilada - mais ou menos uma dúzia de votos meus que, se encarados fora de contexto, talvez parecessem bastante preocupantes. Quando meu consultor de mídia, David Axelrod, testou esses dados em uma pesquisa, meu índice de aprovação imediatamente caiu dez pontos.
Entre esses votos, estava aquele contra a lei criminal que, embora propusesse acabar com o tráfico de drogas nas escolas, estava tão mal redigido que concluí que seria tanto ineficiente quanto inconstitucional. A pesquisa definiu a coisa nos seguintes termos: "Obama votou a favor da redução de penalidades incidentes sobre os traficantes que atuam nas escolas".
Houve também uma lei, de iniciativa de ativistas antiaborto, que na aparência era razoável - determinava medidas capazes de salvar a vida de bebês prematuros (o projeto não mencionava que tais medidas já estavam determinadas por lei) -, mas que na verdade estendia o caráter de "pessoa" a fetos prematuros, o que, portanto, ia de encontro a Roe vs. Wade; na pesquisa, afirmaram que eu havia "votado contra tratamentos capazes de manter vivos bebês prematuros".
Ao correr a lista, dei de cara com uma afirmação pregando que, quando eu estava no legislativo estadual, votara contra uma lei que "protegeria nossas crianças de molestadores sexuais".
- Espere aí - disse, tomando a folha das mãos de David. - Nessa lei eu apertei o botão errado sem querer. Queria votar a favor e corrigi o fato imediatamente no registro oficial.
David sorriu.
-Algo me diz que essa parte do registro oficial não será levada em conta em uma propaganda republicana. Ele tomou a pesquisa de minhas mãos com delicadeza.
- Bem, de qualquer maneira, anime-se - acrescentou, dando-me um tapinha nas costas.
- Tenho certeza de que isso garantirá a você o voto dos molestadores sexuais.
Às vezes me pergunto como as coisas poderiam ter sido caso essas propagandas tivessem sido veiculadas. Não sei se teria perdido ou ganhado - quando as prévias chegaram ao fim, minha vantagem em relação a meu oponente republicano era de vinte pontos -, mas sim qual seria a imagem que os eleitores fariam de mim, e como, ao entrar no Senado, teria sido recebido com muito menos boa vontade.
Pois é assim que a maioria de meus colegas, tanto democratas quanto republicanos, adentra o Senado: seus erros são atirados aos quatro ventos, suas palavras são distorcidas e seus motivos, questionados. São batizados nesse fogo; o medo os assombra a cada votação, a cada vez que emitem um press release ou fazem uma declaração - o medo não de perderem uma disputa política, mas de perderem pontos aos olhos de quem os enviou a Washington, aos olhos de todas as pessoas que lhes disseram, em algum momento: "Depositamos grandes esperanças em você. Por favor, não nos desaponte".
Claro, existem algumas mudanças técnicas que poderiam aliviar parte dessa pressão sobre os políticos, mudanças estruturais que poderiam fortalecer os elos entre os eleitores e seus representantes. O fim dos distritos partidários, o registro de eleitores no dia das eleições e as eleições em finais de semana aumentariam a competitividade das disputas e garantiriam maior participação do eleitorado - e, quanto mais os eleitores estão atentos, mais a integridade é beneficiada.
O financiamento público das campanhas ou a criação de horário político gratuito na televisão e no rádio reduziriam drasticamente a busca constante de dinheiro e a influência dos grupos de interesse. Algumas alterações nas regras da Câmara e do Senado poderiam conferir maior poder aos legisladores do partido minoritário, aumentar a transparência do processo e encorajar uma apuração jornalística mais cuidadosa.
Porém, nenhuma dessas mudanças pode acontecer por si só. Todas exigiriam uma mudança de atitude daqueles que estão no poder; exigiriam que cada político desafiasse a ordem preexistente, diminuísse o apego pelo seu cargo, lutasse contra amigos e inimigos em favor de idéias abstratas pelas quais o público parece ter pouco interesse. Todas exigiriam que os políticos se dispusessem a arriscar o que eles já têm.
No final, a coisa ainda se remete à qualidade que John Kennedy buscou definir no início de sua carreira, quando convalescia de uma cirurgia, consciente de seu heroísmo na guerra mas talvez ponderando os desafios bem mais ambiciosos à sua frente - ou seja, ponderando sobre a coragem. De certa maneira, quanto mais tempo se está na política, mais fácil deveria ser reunir essa coragem, pois existe um certo alívio em compreender que, não importa o que se faça, alguém sempre estará irritado com você, que os ataques políticos sempre virão, não importa com quanto cuidado você vote, que a ponderação pode ser interpretada como covardia e que a própria coragem pode ser vista como calculista.
Sinto conforto em ver que, quanto mais tempo estou na política, menos reconfortante me parece a popularidade; que a luta pelo poder, pela posição e pela fama parece indicar na verdade uma pobreza de ambição; e que minhas próprias reações se medem principalmente pelo olhar rigoroso de minha própria consciência.
"Audácia da Esperança - Reflexões Sobre a Reconquista do Sonho Americano"
Autor: Barack Obama
Editora: Larousse
Páginas: 400
Quanto: R$ 55,90
Onde comprar: Pelo telefone 0800-140090 ou na Livraria da Folha
Leia mais
- OBAMA FOI CONFUNDIDO COM MANOBRISTA e seguido por seguranças; leia depoimento
- OBAMA conta o que seu pai fez com homem que o chamou de "MACACO"; leia trecho
Conheça livros relacionados
- Conheça os locais que MARCARAM A VIDA DE OBAMA e a luta pela igualdade racial nos EUA
- Verissimo discute OBAMA sob o ponto de vista da luta contra o racismo; leia artigo
Livraria


