"Guerra do Iraque foi um projeto para mostrar poder", diz Hobsbawn; leia trecho
da Folha Online
A Guerra do Iraque é um exemplo da frivolidade do processo de tomada de decisões dos Estados Unidos. Foi basicamente um projeto para mostrar poder perante o mundo. A política de reformulação do Oriente Médio não faz sentido.
As afirmações são do historiador inglês Eric Hobsbawm, retiradas de seu livro, "Globalização, Democracia e Terrorismo" (Companhia das Letras, 2007). Autor do clássico "Era dos Extremos", o inglês é louvado mundialmente como um dos maiores intelectuais vivos.
Leia abaixo trecho do livro no qual Hobsbawn examina a Guerra do Iraque e o poder do império americano. Conheça também outros livros sobre os Estados Unidos.
Atenção: o texto reproduzido abaixo mantém a ortografia original do livro e não está atualizado de acordo com as regras do Novo Acordo Ortográfico. Conheça o livro "Escrevendo pela Nova Ortografia".
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O colapso da União Soviética deixou os Estados Unidos na condição efetiva de única superpotência, que nenhum outro poder podia, ou sequer queria, desafiar. Não é fácil compreender por que os americanos começaram de repente a alardear seu poder de maneira tão extraordinária, cruel e antagonística, ainda mais quando isso não corresponde nem às políticas imperiais comprovadamente eficazes que foram desenvolvidas durante a Guerra Fria nem aos interesses da própria economia dos Estados Unidos.
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As políticas que têm prevalecido ultimamente em Washington parecem tão loucas para quem as olha de fora que é difícil entender quais seriam suas verdadeiras intenções. Mas é evidente que a afirmação pública da supremacia global por meio da força militar é o que está na mente das pessoas que atualmente têm o domínio, ou pelo menos um semidomínio, das decisões políticas em Washington.
Seus propósitos permanecem obscuros. É possível que tenham êxito? O mundo é demasiado complexo para que um único país possa dominá-lo. E, com exceção da sua superioridade militar em armamentos de alta tecnologia, os Estados Unidos contam com trunfos decrescentes, ou potencialmente decrescentes. Sua economia, embora grande, representa uma proporção decrescente da economia global e é vulnerável tanto no curto quanto no longo prazo. Imagine se amanhã a Organização dos Países Exportadores de Petróleo resolver trabalhar suas contas em euros e não em dólares.
Ainda que os Estados Unidos conservem algumas vantagens políticas, a maioria delas foi jogada pela janela nos últimos dezoito meses. O país dispõe dos trunfos menores resultantes da dominação da cultura mundial pela cultura americana e pela língua inglesa. Mas o trunfo principal para os projetos imperiais, no momento, é o militar.O império americano não tem competidores no setor militar e isso deve prosseguir no futuro previsível. Tal situação não significa que essa vantagem será absolutamente decisiva, só porque ela é decisiva em guerras localizadas. Mas na prática ninguém, nem mesmo os chineses, tem condições de competir com o nível tecnológico dos americanos. Impõem-se aqui considerações cuidadosas sobre os limites da superioridade tecnológica.
É claro que os americanos, teoricamente, não querem ocupar o mundo inteiro. O que eles querem é ir à guerra, colocar governos amigos no poder e voltar para casa. Mas isso não vai funcionar. Em termos puramente militares, a Guerra do Iraque foi um grande êxito. Mas,como esse êxito foi puramente militar, negligenciaram-se os aspectos relativos ao que se deve fazer quando se ocupa um país: governá-lo, supri-lo e conservá-lo, como os britânicos fizeram no modelo colonial clássico da Índia. O modelo de "democracia" que os americanos querem oferecer ao mundo através do Iraque é um não-modelo e não tem relação com o fim proposto. A crença de que os Estados Unidos não precisam de aliados autênticos entre os demais países nem de apoio popular autêntico nos países que seus soldados conquistam (mas não conseguem governar) é uma fantasia.
A Guerra do Iraque é um exemplo da frivolidade do processo de tomada de decisões dos Estados Unidos. O Iraque é um país que foi derrotado pelos americanos e se recusou a prostrar-se. Um país tão enfraquecido que podia ser derrotado com facilidade. Ele possui algo de valor - o petróleo -, mas a guerra foi basicamente um projeto para mostrar poder perante o mundo. A política de que estão falando os malucos de Washington, uma reformulação completa de todo o Oriente Médio, não faz sentido. Se eles planejam derrubar o reino saudita, o que é que vão pôr no lugar? Se realmente querem mudar o Oriente Médio, sabemos que o que mais precisam fazer é pressionar Israel. O pai de Bush estava disposto a fazê-lo, mas o atual ocupante da Casa Branca não está. Em vez disso, seu governo destruiu um dos dois Estados garantidamente seculares do Oriente Médio e se prepara para agir contra o outro, a Síria.
A vacuidade dessa política fica clara pela maneira como os objetivos foram descritos em termos de relações públicas. Expressões como "eixo do mal" ou "mapa do caminho" não constituem linhas políticas, e sim simples sons que encerram seu próprio potencial político. A linguagem artificial onipresente que tem inundado o mundo nos últimos dezoito meses é uma indicação da ausência de uma política efetiva. Bush não faz política, e sim uma apresentação de palco. Dirigentes como Richard Perle e Paul Wolfowitz falam como Rambo, tanto em público quanto em privado. A única coisa que importa é o poder avassalador dos Estados Unidos.
Em termos reais, eles querem dizer que os Estados Unidos podem invadir qualquer país suficientemente pequeno para conquistar vitórias rápidas. Isso não é uma política. Nem vai funcionar. As conseqüências dessa situação para os Estados Unidos serão muito perigosas. Internamente, o perigo real que corre um país que se lança ao controle do mundo por meios essencialmente militares é sua própria militarização. Esse perigo tem sido seriamente subestimado.
Do ponto de vista internacional, o perigo é a desestabilização do mundo. O Oriente Médio é apenas um exemplo disso: muito mais instável agora do que dez ou mesmo cinco anos atrás. A ação dos Estados Unidos enfraquece todos os arranjos alternativos, formais e informais, para a manutenção da ordem. Na Europa, ela afundou a Organização do Tratado do Atlântico Norte, o que não chega a ser uma grande perda. Mas tratar de transformar a OTAN no agente policial global em prol dos Estados Unidos é uma desfaçatez.
A ação americana sabotou deliberadamente a União Européia e visa sistematicamente arruinar outra das grandes conquistas mundiais dos últimos sessenta anos - os sistemas de bem-estar social, prósperos e democráticos. A crise amplamente noticiada em torno da credibilidade das Nações Unidas é muito menos dramática do que parece, uma vez que a ONU nunca foi capaz de operar de maneira mais do que marginal, devido à sua total dependência do Conselho de Segurança e do poder de veto dos Estados Unidos.
Como pode o mundo confrontar - ou conter - os Estados Unidos? Alguns, acreditando não ter poder para confrontá-los, preferiram aderir. Mais perigosos ainda são os que detestam a ideologia do Pentágono, mas apóiam o projeto americano acreditando que seu avanço eliminará injustiças locais e regionais. Isso pode ser chamado de imperialismo dos direitos humanos e foi alimentado pelo fracasso da Europa nos Bálcãs, na década de 1990.
A divisão da opinião pública quanto à Guerra do Iraque mostrou que existe uma minoria de intelectuais influentes, que inclui Michael Ignatieff nos Estados Unidos e Bernard Kouchner na França, que estava disposta a apoiar a intervenção americana porque acreditava ser necessário o uso da força para remediar os males do mundo. É perfeitamente possível afirmar que existem governos tão ruins que seu desaparecimento será um benefício para o mundo. Mas isso nunca poderá justificar o perigo global trazido pela criação de um poder mundial que basicamente não tem interesses específicos em um mundo que não chega a compreender, mas tem a capacidade de intervir militarmente de maneira decisiva onde quer que alguém faça algo que Washington não aprecie.
Contra esse pano de fundo, pode-se ver a pressão crescente sobre a imprensa, porque, em um mundo em que a opinião pública conta tanto, ela também sofre enormes manipulações. Durante a Guerra do Golfo, em 1990-91, fizeram-se tentativas de evitar a situação criada na Guerra do Vietnã, impedindo a presença da imprensa nas proximidades da ação bélica. Mas elas não tiveram êxito porque a imprensa, como a CNN, por exemplo, já estava em Bagdá, relatando histórias que não se enquadravam nos cenários que Washington queria divulgar.
Desta vez, na Guerra do Iraque,o controle novamente não funcionou, razão pela qual a tendência será buscar maneiras mais efetivas de agir. Elas podem tomar a forma de um controle direto, e até o último recurso do controle tecnológico, mas a ação conjugada dos governos e dos donos monopolistas dos meios de difusão será empregada para produzir efeitos ainda maiores do que os obtidos com a Fox News, ou por Silvio Berlusconi na Itália.
É impossível prever a duração da atual superioridade americana. A única coisa da qual temos certeza absoluta é que se trata de um fenômeno historicamente temporário, como ocorreu com todos os impérios. No período de nossa vida vimos o fim de todos os impérios coloniais, o fim do chamado império dos mil anos dos alemães - que durou apenas doze - e o fim do sonho da União Soviética de liderar uma revolução mundial.
Existem razões internas pelas quais o império americano pode não ser duradouro, e a mais imediata delas é que a maioria dos americanos não está interessada no imperialismo e na dominação mundial no sentido de governar o mundo. O que interessa a eles é o que lhes acontece dentro dos Estados Unidos. A fragilidade da economia americana é tal que em algum momento tanto o governo quanto os eleitores americanos chegarão à conclusão de que é muito mais importante concentrar os esforços na economia do que continuar a fazer aventuras militares no exterior. Ainda
mais porque essas intervenções militares terão de ser pagas sobretudo pelos contribuintes americanos,o que não ocorreu na Guerra do Golfo nem, em grande medida, na Guerra Fria.
Desde 1997-98 estamos vivendo uma crise da economia capitalista mundial. Ela não entrará em colapso, mas, apesar disso, não é provável que os Estados Unidos consigam prosseguir com seus ambiciosos projetos internacionais e lidar, ao mesmo tempo, com sérios problemas internos. Inclusive para os padrões dos pequenos negócios locais, Bush não tem uma política econômica adequada para os Estados Unidos. E a atual política internacional do seu governo não é particularmente racional nem para os interesses imperiais americanos, nem para os interesses globais, nem, com certeza, para os interesses do capitalismo americano.
Daí vêm as divergências de opinião no seio do governo dos Estados Unidos. A questão-chave do momento é: o que vão fazer os americanos agora e como os outros países vão reagir? Alguns deles - como a Grã-Bretanha, o único membro autêntico da coalizão dominante - continuarão a apoiar tudo o que os Estados Unidos planejarem? Essencialmente, seus governos devem indicar que há limites para o que os americanos podem fazer com seu poderio. A contribuição mais positiva até agora foi feita pelos turcos, que simplesmente disseram que há coisas que eles não estão dispostos a fazer, mesmo sabendo que valeria a pena.
Mas, neste momento, a preocupação maior é, se não a de conter, pelo menos a de educar, ou reeducar, os Estados Unidos. Houve um tempo em que o império americano reconhecia a existência de limitações, ou pelo menos a conveniência de comportar-se como se tivesse limitações. Isso se devia basicamente ao fato de que tinha medo de alguém mais - a União Soviética.
Na ausência desse tipo de medo, é preciso que o interesse próprio esclarecido e a cultura tomem seu lugar.
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"Globalização, Democracia e Terrorismo"
Autor: Eric Hobsbawn
Editora: Companhia das Letras
Páginas: 184
Quanto: R$ 36,00
Como comprar: pelo telefone 0800-140090 ou na Livraria da Folha
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