Mundo
20/01/2009 - 18h09

Governo Bush pode ter encoberto crimes de mercenários da Blackwater no Iraque; leia trecho

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da Folha Online

No dia 16 de setembro de 2007, 17 iraquianos foram assassinados na praça Nisour, em Bagdá, por funcionários da companhia de segurança privada Blackwater, a serviço do Departamento de Estado dos EUA. O incidente colocou o nome da Blackwater nas primeiras páginas dos jornais de todo o mundo e levou o governo iraquiano a pedir a expulsão da empresa do país.

"A raiva do governo de Bagdá seria compreensível mesmo se o único incidente envolvendo a Blackwater fosse a praça Nisour. Mas este padrão já durava quatro anos, e sua letalidade se intensificara no ano anterior a esse assassinato", afirma o jornalista Jeremy Scahill, autor do livro "Blackwater - A Ascensão do Exército Mais Poderoso do Mundo" (Companhia das Letras, 2008). Leia entrevista do autor para a Folha (exclusivo para assinantes do jornal ou do UOL).

A partir de rigoroso trabalho de investigação e entrevistas com iraquianos, membros do exército dos EUA e da própria Blackwater, Scahill analisa a ascensão da poderosa companhia a partir do 11 de Setembro, revela o lado obscuro da empresa e sugere que o governo Bush tenha dado licença para matar e encoberto os crimes dos soldados mercenários da empresa.

Leia abaixo um trecho do livro --vencedor do prêmio jornalístico George Polk-- e conheça também outros livros sobre os Estados Unidos.

Atenção: o texto reproduzido abaixo mantém a ortografia original do livro e não está atualizado de acordo com as regras do Novo Acordo Ortográfico. Conheça o livro "Escrevendo pela Nova Ortografia".

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UM PADRÃO MORTÍFERO

Divulgação
Livro mostra a formação e atuação dos mercenários da Blackwater no Iraque
Livro denundia a atuação da Blackwater sob o governo Bush

Apesar de dezenas de milhares de mercenários estarem operando no Iraque, as forças privadas de segurança não enfrentavam as conseqüências legais de suas ações mortíferas durante os primeiros cinco anos da ocupação do Iraque. Até a primavera de 2008, nenhum deles foi processado por crimes cometidos contra iraquianos. Na verdade, eles quase não enfrentaram queixas públicas a partir das autoridades do Iraque. Dentro da administração Bush eles eram elogiados ou não eram sequer mencionados. No Congresso, a guerra privatizada não é nem tema de discussão, apesar dos esforços de alguns legisladores prescientes que perceberam a ameaça. Os políticos beligerantes que haviam de início prestado atenção o faziam principalmente para ganhar ainda mais dinheiro para os prestadores de serviços de guerra. A cobertura da mídia sobre as atividades mercenárias no Iraque era esporádica e orientada apenas para incidentes. Quase ninguém estava reparando no quadro mais amplo. Mas depois da praça Nisour, a Blackwater e as outras firmas de mercenários perderam subitamente o seu status secreto tão fortemente guardado.

Embora o tiroteio na praça Nisour tenha colocado a questão das forças privadas no Iraque --e especificamente o nome da Blackwater-- nas primeiras páginas dos jornais de todo o mundo, aquele estava longe de ser o primeiro incidente mortífero envolvendo estas forças. A novidade foi a poderosa resposta do governo iraquiano, até então notadamente pró-Estados Unidos. Em menos de 24 horas após o tiroteio, o ministro do Interior do Iraque anunciou que estava expulsando a Blackwater do país; o primeiro-ministro Nuri al-Maliki chamou a conduta da empresa de "criminosa". Para o governo do Iraque, aquela foi a gota d'água.

A raiva do governo de Bagdá seria compreensível mesmo se o único incidente envolvendo a Blackwater fosse a praça Nisour. Mas este padrão já durava quatro anos, e sua letalidade se intensificara no ano anterior a esse assassinato de dezessete iraquianos em Bagdá. E o que irritava em especial aos iraquianos era o fato de a companhia não sofrer qualquer conseqüência pelas suas ações. Os prestadores de serviços no Iraque tinham o suposto lema: "O que acontecer aqui hoje, permanece aqui e hoje". Conforme informou ao Washington Post um prestador armado de serviços: "Sempre nos disseram, desde o início, que, se por acaso algo acontecesse e os iraquianos quisessem nos processar, seríamos colocados num carro e tirados sorrateiramente do país no meio da noite".

Foi aparentemente isto que aconteceu após outro incidente fatal envolvendo a Blackwater. Na véspera de natal de 2006, dentro da Zona Verde de Bagdá, fortemente protegida, Andrew Moonen, agente da Blackwater em licença, acabara de deixar uma festa de Natal. Testemunhas dizem que ele estava bêbado enquanto caminhava pela parte da zona chamada de "Pequena Veneza", quando encontrou Raheem Khalif, um iraquiano guarda-costas do vice-presidente Adil Abdul-Mahdi. "Entre 10h30 e 11h30 da noite, o servidor da Blackwater, portando uma pistola Glock 9mm, passou por um portão próximo ao complexo do primeiro-ministro do Iraque e foi abordado por um guarda iraquiano, que estava de serviço", de acordo com a investigação do Congresso dos Estados Unidos. "O servidor da Blackwater disparou diversas vezes, atingindo o guarda com três balas, e então deixou a cena."

Oficiais da Blackwater confirmaram que em poucos dias contrabandearam o servidor em segurança para fora do país, coisa que eles dizem ter sido feita sob ordem de Washington. Autoridades iraquianas classificaram a morte como "assassinato". A Blackwater diz que demitiu o servidor, mas até o início de 2008 ele não havia sido acusado de crime algum. Um ano após o incidente, Erik Prince diria que a Blackwater havia revogado a autorização de segurança de Moonen, o que Prince afirmou significar que Moonen "jamais trabalharia numa ocupação de segurança para o governo americano outra vez", ou que isto seria "muito improvável". Mas semanas após o tiroteio mortífero, Moonen foi novamente contratado por um prestador de serviços ao Departamento da Defesa e estava outra vez trabalhando num contrato do governo americano no Oriente Médio.

O representante Dennis Kucinich, membro do Comitê de Supervisão e Reforma Governamental, sugeriu que, ao facilitar a partida secreta de Moonen do Iraque, "surge uma questão que poderia fazer dos oficiais corporativos [da Blackwater] auxiliares em ajudar a criar uma fuga da justiça para alguém que cometeu assassinato". De acordo com um memorando da embaixada americana para a secretária de Estado Condoleeza Rice, após o tiroteio, o vice-presidente do Iraque Abdul-Mahdi tentou manter a história oculta porque acreditava que "os iraquianos não entenderiam como um estrangeiro poderia matar um cidadão do Iraque e voltar livre para o seu país de origem".

Seis semanas mais tarde, em 7 de fevereiro, um franco-atirador da Blackwater baleou e matou um guarda com um tiro na cabeça na Rede de Mídia Iraquiana estatal e então procedeu a disparar contra outros dois guardas que responderam aos disparos iniciais. O governo do Iraque investigou o incidente, assim como o fez a emissora, que concluiu: "A 7 de fevereiro, membros da Blackwater abriram fogo a partir do prédio do Ministério da Justiça, intencionalmente e sem provocação, baleando três membros da nossa equipe de segurança, o que levou à morte deles enquanto estavam trabalhando dentro do complexo da emissora". Mas o governo americano, confiando nas informações dadas pela Blackwater, concluiu que a ação dos franco-atiradores "enquadrava-se nas regras aprovadas sobre o uso da força". A Blackwater afirma que suas forças foram atacadas, uma alegação contestada pelas testemunhas e pelo governo do Iraque. A embaixada americana e a Blackwater não entrevistaram nenhuma das testemunhas iraquianas.

Em maio de 2007, forças da Blackwater envolveram-se em seguidas e mortíferas ações no bairro de Bagdá próximo ao Ministério do Interior iraquiano, de acordo com uma reportagem de Steve Fainaru e Saad al-Izzi do Washington Post. Num dos incidentes, forças da Blackwater dispararam contra um veículo iraquiano que segundo eles aproximou-se demais do seu comboio, matando o motorista civil. Assim como no tiroteio de 16 de setembro, testemunhas dizem que não houve provocação. No caos que se seguiu, os agentes da Blackwater supostamente recusaram-se a dar seus nomes ou detalhes do incidente às autoridades iraquianas, o que gerou um tenso impasse entre forças da Blackwater e do Iraque, ambos armados com rifles de assalto. A cena poderia ter sido ainda mais sangrenta se não fosse pela chegada de um comboio militar americano, que interveio. No dia anterior ao incidente, num bairro próximo, agentes da Blackwater viram-se envolvidos numa troca de tiros de quase uma hora que atraiu forças americanas e iraquianas, na qual supostamente morreram ao menos quatro iraquianos. Fontes americanas afirmam que as forças da Blackwater "fizeram o seu trabalho", mantendo as autoridades com vida.

Pouco depois da praça Nisour, o embaixador Ryan Crocker disse: "Sou o embaixador aqui e, portanto, o responsável [...] Sim, eu certamente desejaria ter a capacidade de antever a possibilidade de corrigir algumas das coisas que acontecem lá fora". Àquela altura, no entanto, já se tornara impossível ignorar as provas de um grave problema.

De acordo com o Washington Post, no início de junho de 2007, três meses antes da praça Nisour, "preocupações quanto a Blackwater chegaram ao Comitê Nacional de Inteligência do Iraque, que incluía oficiais de inteligência de alta patente, iraquianos e americanos, entre eles o major-general David B. Lacquement, o vice-chefe da equipe de inteligência do Exército americano. O major-general Hussein Kamal, que chefia o diretório de inteligência do Ministério do Interior, pediu às autoridades americanas que investigassem as companhias de segurança privada. Oficiais do Exército americano disseram a Kamal que a Blackwater estava sob autoridade do Departamento de Estado e fora do controle deles, de acordo com anotações feitas durante a reunião.O assunto foi abandonado".

Autoridades iraquianas alegaram a existência de pelo menos seis incidentes mortíferos envolvendo a Blackwater no ano anterior à praça Nisour. Ao todo foram dez tiroteios conhecidos envolvendo a Blackwater desde junho de 2005 até setembro de 2007. Entre eles, o caso de 4 de fevereiro de 2007, um tiroteio que supostamente resultou na morte de Hana al-Ameedi, jornalista do Iraque, próximo ao Ministério do Exterior; e um tiroteio em 9 de setembro de 2007, no qual cinco iraquianos foram mortos próximo a um prédio do governo em Bagdá. Houve também um tiroteio em 12 de setembro de 2007, que feriu cinco pessoas na zona leste de Bagdá.

"Tentamos diversas vezes contatar o governo americano através de canais diplomáticos e administrativos para reclamar do contínuo envolvimento de guardas da Blackwater em diversos incidentes que provocaram a morte de muitos iraquianos", disse Kamal. Entretanto, o porta-voz da embaixada americana, Mirembe Nantongo, disse: "Não possuímos documentação oficial quanto ao pedido de nossos parceiros iraquianos pelo esclarecimento de nenhum incidente". Mas esta declaração foi contradita por outra autoridade americana, Matthew Degn, que serviu de ligação junto ao ministério do interior do Iraque até agosto de 2007. Degn disse ao Washington Post que autoridades iraquianas haviam enviado diversos memorandos à Blackwater e às autoridades americanas muito antes do incidente de 16 de setembro e tiveram seus pedidos de providências rejeitados. "Tivemos numerosas discussões a respeito das frustrações [do governo do Iraque] quanto à Blackwater, mas sempre que [as autoridades iraquianas] contatavam o governo [americano], não levava a nada", disse Degn.

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"Blackwater - A Ascensão do Exército Mais Poderoso do Mundo"
Autor: Jeremy Scahill
Editora: Companhia das Letras
Páginas: 552
Quanto: R$ 52,00
Como comprar: pelo telefone 0800-140090 ou na Livraria da Folha

 

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