"Guerra no Afeganistão realçou a aura de onipotência americana", diz Fareed Zakaria em livro
da Folha Online
Os Estados Unidos são a maior potência mundial (militar e politicamente) e provavelmente serão durante um bom tempo. Entretanto, muitos países estão apresentando, aos poucos, um crescimento econômico maior que o norte-americano.
Isto é o que mostra o editor da revista Newsweek International, Fareed Zakaria, no livro "O Mundo Pós-Americano" (Companhia das Letras, 2008). Nesta obra, o autor defende que não há um declínio do dos Estados Unidos, mas sim uma ascensão do resto do mundo, inclusive do Brasil. Para Zakaria, uma nova ordem mundial está nascendo, na qual haverá uma redistribuição dos poderes. A esse fenômeno, ele dá o nome de "Mundo Pós-Americano".
No trecho do livro que pode ser lido abaixo, Zakaria mostra como o poder americano se tornou mais aparente durante o governo de Bill Clinton e como George W. Bush provocou hostilidade da comunidade internacional com as guerras.
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| Livro discute a ascensão de vários países do mundo |
Alguns analistas reconheceram que, com a União Soviética em frangalhos, os Estados Unidos eram o único "pólo" de pé.Mas supunham que a unipolaridade era uma fase passageira, um "momento", nas palavras de um colunista. Referências à fraqueza americana dominaram a eleição presidencial de 1992. "A Guerra Fria terminou: Japão e Alemanha ganharam", disse Paul Tsongas em sua campanha para obter a indicação do Partido Democrata. Henry Kissinger, em seu livro de 1994, Diplomacia, previu o surgimento de um novo mundo multipolar, opinião com a qual concordava a maioria dos analistas da política internacional. Os europeus acreditavam que estavam a caminho da unidade e do poder mundial, e os asiáticos falavam confiantemente da ascensão do"Século do Pacífico".
Apesar dessas alegações, parecia que os problemas estrangeiros, por mais distantes que fossem, sempre acabavam nas costas de Washington. Quando começou a crise nos Bálcãs, em 1991, o presidente do Conselho Europeu, Jacques Poos, de Luxemburgo, declarou: "Esta é a hora da Europa. Se há um problema que pode ser resolvido pelos europeus, é o problema iugoslavo. Trata-se de um país europeu e não é da competência dos americanos". Não era uma opinião incomum ou antiamericana: a maioria dos líderes europeus, inclusive Thatcher e Helmut Kohl, compartilhava dela. Mas, vários anos sangrentos depois, coube aos Estados Unidos acabar com a luta. Uma década mais tarde, quando houve a erupção no Kosovo, a Europa deixou imediatamente os Estados Unidos assumirem o comando. O mesmo padrão se repetiu na crise econômica asiática, na luta de Timor Leste pela independência, nos sucessivos conflitos no Oriente Médio e nos calotes da dívida latino-americana.Muitas vezes, outros países faziam parte da solução, mas, se os americanos não interviessem, a crise persistia. E, ao mesmo tempo, a economia americana vivia seu boom mais longo desde a Segunda Guerra Mundial, aumentando sua fatia da produção mundial, enquanto Europa e Japão estagnavam.
Em 1993, quando assumiu o governo, Bill Clinton prometeu parar de se preocupar com a política externa e se concentrar, "como um raio laser", na economia.Mas a atração da unipolaridade era forte. Em seu segundo mandato, ele já se tornara um presidente da política externa, gastando a maior parte de seu tempo, sua energia e sua atenção em questões como a paz no Oriente Médio e a crise nos Bálcãs. George W. Bush reagiu ao que considerava um envolvimento excessivo em assuntos internacionais - de socorros econômicos à construção de nações - e prometeu em sua campanha que diminuiria os compromissos americanos no exterior. Então ele assumiu a presidência e veio o Onze de Setembro.
Ao longo do governo Clinton, o poder americano tornou-se mais aparente.Washington ficou mais assertiva e os governos estrangeiros ficaram mais resistentes. Alguns dos assessores econômicos de Clinton, como Mickey Cantor e Lawrence Summers, foram acusados de arrogância no tratamento de outros países. Diplomatas como Madeleine Albright e Richard Holbroke foram depreciados na Europa por dizer que os Estados Unidos, na expressão de Albright, eram a "nação indispensável". O ministro do Exterior francês Hubert Vedrine criou o termo "hiperpotência" - que não era exatamente uma expressão de apreço - durante a década de 1990.
Mas todas essas queixas não eram nada perto da hostilidade provocada por George W. Bush. Durante vários anos, o governo Bush praticamente jactou-se de seu desprezo por tratados, organizações multilaterais, opinião pública internacional e qualquer coisa que sugerisse uma abordagem conciliadora da política mundial. No seu segundo mandato, quando o fracasso de sua postura de confronto estava claro, o governo começou a mudar o curso em muitas frentes, do Iraque ao processo de paz israelense-palestino e à Coréia do Norte. Mas as novas políticas foram adotadas tardiamente, com consideráveis murmúrios e resmungos e com membros do governo totalmente contrários à nova estratégia.
Para compreender a política externa do governo Bush, não é suficiente examinar os impulsos "jacksonianos" de Dick Cheney e Donald Rumsfeld, ou o passado texano de Bush, ou a nefanda conspiração neoconservadora. O fator crucial que a possibilitou foi o Onze de Setembro. Durante a década anterior aos ataques, os Estados Unidos não sofreram contestação no cenário mundial. Mas vários constrangimentos internos - dinheiro, Congresso, opinião pública - dificultaram a implementação de uma política externa unilateral e combativa. As intervenções militares e a ajuda externa eram ambas impopulares e o público queria que o país se retirasse do mundo depois dos rigores da Guerra Fria. As intervenções nos Bálcãs, a expansão da OTAN, a ajuda à Rússia, tudo isso exigiu um esforço considerável do governo Clinton, que remou muitas vezes contra a corrente, embora fossem aventuras relativamente pequenas que custaram pouco em recursos. Mas o Onze de Setembro mudou tudo isso. Ele acabou com as restrições internas à política externa americana. Após aquele ataque terrível, Bush ficou com um país unido e um mundo amplamente simpático. A guerra no Afeganistão realçou a aura de onipotência americana e incentivou os elementos mais linha-dura do governo, que usaram aquele sucesso como argumento para fazer guerra ao Iraque rapidamente e fazê-lo de uma forma particularmente unilateral. Os Estados Unidos não precisavam do resto do mundo ou dos velhos mecanismos de legitimidade e cooperação. O novo império global criaria uma realidade nova - era o que se dizia. A fórmula para explicar a política externa de Bush é simples:
Unipolaridade + 11/9 + Afeganistão = unilateralismo + Iraque.*
Não foi apenas a substância da política americana que mudou na era unipolar. O estilo também, que se tornou imperial e imperioso. Há muita comunicação com líderes estrangeiros, mas é uma via de mão única. Com freqüência, os outros governos são simplesmente informados sobre as medidas americanas. As altas autoridades do país vivem em suas bolhas e raramente têm uma interação genuína com seus equivalentes de outros países, para não falar de outros estrangeiros. "Quando nos encontramos com altos funcionários americanos, eles falam e nós escutamos. Raramente discordamos ou falamos com franqueza porque eles simplesmente não conseguem compreender. Apenas repetem a posição americana, como o turista que acha que basta falar alto e devagar para que todos entendam", contou-me um experiente ex-assessor de política externa de um importante país europeu.
* Não é um tema para este livro, mas eu fui a favor do esforço para derrubar Saddam Hussein, embora eu tenha, desde o início, defendido a utilização de uma força muito maior e uma intervenção e ocupação sancionadas pela comunidade internacional.Meu raciocínio estava relacionado principalmente ao fato de que a política ocidental para o Iraque havia fracassado - as sanções estavam vazando, incontáveis civis estavam morrendo devido ao embargo. A Al Qaeda estava furiosa com nossa base na Arábia Saudita, de onde comandávamos a zona livre de vôos, e eu achava que um Iraque mais moderno e moderado no meio do mundo árabe ajudaria a romper a dinâmica política disfuncional da região. Desde as primeiras semanas, me opus às políticas de ocupação de Washington. Em retrospecto, subestimei não somente a arrogância e incompetência do governo, mas também a dificuldade inerente à tarefa. Continuo a crer que um Iraque moderno e moderado faria uma diferença importante na política do Oriente Médio. Espero que ele venha a se tornar, no longo prazo, um país assim, mas os custos têm sido ruinosamente altos - para os americanos, para a reputação americana, mas sobretudo para os iraquianos. E política externa é uma questão de custos e benefícios, não de teologia.
"O Mundo Pós-Americano"
Autor: Fareed Zakaria
Editora: Companhia das Letras
Páginas: 312
Quanto: R$ 49,00
Onde comprar: Pelo telefone 0800-140090 ou na Livraria da Folha


