Leia íntegra da entrevista de Obama a Al Arabiya
da Folha de S. Paulo
Leia a seguir a transcrição da íntegra da entrevista feita por Hisham Melhem com o presidente dos EUA, Barack Obama, e exibida pela TV Al Arabiya. O original em inglês está disponível no site da emissora.
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PERGUNTA - Sr. presidente, obrigado por esta oportunidade, que realmente apreciamos.
BARACK OBAMA- Muito obrigado.
PERGUNTA - O sr. acaba de reunir-se com seu enviado pessoal ao Oriente Médio, o senador Mitchell. Obviamente, sua primeira tarefa será consolidar o cessar-fogo. Mas, além disso, o sr. vem dizendo que quer levar adiante de maneira ativa e agressiva o processo de paz entre palestinos e israelenses. Conte a nós um pouco sobre como o sr. vê seu papel pessoal, porque, como o sr. sabe, se o presidente dos Estados Unidos não se envolve, nada acontece, como mostra a história do processo de paz. O sr. vai propor ideias, vai oferecer propostas e parâmetros, como fez um de seus antecessores? Ou vai apenas exortar as partes a propor suas próprias resoluções, como fez seu antecessor imediato?
OBAMA- Acho que o mais importante é que os Estados Unidos se engajem de imediato. E George Mitchell é alguém de estatura enorme. Ele é uma das poucas pessoas que têm experiência internacional em mediação de acordos de paz.
Então o que eu recomendei a ele é que comece ouvindo, porque com demasiada frequência os EUA começam por ditar --foi o que aconteceu no passado em relação a algumas dessas questões--, e nem sempre conhecemos todos os fatores envolvidos. Portanto, vamos ouvir. Mitchell vai conversar com todas as principais partes envolvidas. E então vai se reportar a mim. Dali em diante, vamos formular uma resposta específica.
Em última análise, não podemos dizer aos israelenses ou aos palestinos o que é melhor para eles. Eles terão que tomar algumas decisões próprias. Mas acredito que o momento atual é propício para as duas partes entenderem que o rumo que estão seguindo não é um que vá resultar em prosperidade e segurança para suas populações. E que, em lugar disso, é hora de voltar à mesa de negociações.
Isso vai ser difícil, vai levar tempo. Não quero pré-julgar muitas dessas questões, e quero assegurar que não seja criada a expectativa de que isso seja resolvido em poucos meses. Mas, se começarmos a fazer progresso constante sobre essas questões, estou absolutamente confiante em que os EUA --trabalhando em conjunto com a União Europeia, com a Rússia, com todos os Estados árabes da região-- estou absolutamente certo de que poderemos fazer progressos significativos.
Veja trechos da entrevista no vídeo a seguir.
PERGUNTA - O sr. vem dizendo essencialmente que não devemos analisar essas questões --como o rumo palestino-israelense e a separação da região de fronteira --o sr. vem falando de uma espécie de abordagem holística à região. Podemos esperar um paradigma diferente, no sentido em que no passado uma das críticas feitas --pelo menos pelo lado árabe, o lado muçulmano-- é que os americanos sempre testaram tudo com os israelenses para ver se funcionava. Hoje há um plano de paz árabe, há um aspecto regional da questão. E o sr. indicou isso. Haverá alguma mudança de paradigma?
OBAMA - Eis o que eu acho importante. Veja a proposta apresentada pelo rei Abdullah da Arábia Saudita...
PERGUNTA Certo.
OBAMA- Posso não concordar com todos os aspectos dessa proposta, mas foi necessária grande coragem...
PERGUNTA - Concordo.
OBAMA- para propor algo tão significativo quanto isso. Acho que há ideias em toda a região sobre como poderíamos buscar a paz.
Acho que é impossível pensarmos apenas em termos do conflito palestino-israelense e não levar em conta o que está acontecendo na Síria, no Irã, no Líbano, no Afeganistão e no Paquistão.
Essas coisas estão interligadas. E o que eu tenho dito, e acho que Hillary Clinton expressou o mesmo em sua audiência de confirmação no cargo, é que, se estamos olhando a região como um todo e comunicando uma mensagem ao mundo árabe e ao mundo muçulmano, então estamos prontos para iniciar uma nova parceria baseada no respeito mútuo e no interesse mútuo, então acho que podemos fazer progressos significativos.
Agora, Israel é um aliado forte dos Estados Unidos. Ele não deixará de ser aliado forte dos Estados Unidos. E vou continuar a enxergar a segurança de Israel como sendo de importância primordial. Mas também acredito que há israelenses que reconhecem que é importante alcançar a paz. Eles estarão dispostos a fazer sacrifícios se o momento for apropriado e se houver uma parceria séria da outra parte.
Então o que queremos fazer é ouvir, deixar de lado algumas das ideias preconcebidas que existem e que foram crescendo nos últimos anos. Acho que, se fizermos isso, existe pelo menos uma possibilidade de conseguir alguns avanços.
PERGUNTA - Quero lhe perguntar sobre o mundo muçulmano maior, mas me permita --uma última coisa sobre o teatro palestino-israelense. Há muitos palestinos e israelenses hoje que estão extremamente frustrados com as condições atuais e que estão perdendo suas esperanças, estão desiludidos e acham que o tempo para a solução de dois Estados está se esgotando --principalmente em função das atividades de assentamento nos territórios palestinos ocupados. Ainda será possível vermos um Estado palestino --e o sr. conhece os contornos dele-- na primeira administração Obama?
OBAMA- Acho que será possível vermos um Estado palestino --não vou definir um prazo para isso-- que seja contíguo, que permita a liberdade de movimento de sua população, que permita o comércio com outros países, que permita a criação de empresas e de comércio, para que as pessoas tenham uma via melhor.
E olhe, acho que qualquer pessoa que já tenha estudado a região reconhece que a situação dos palestinos comuns em muitos casos não melhorou. Em todas essas conversações e negociações, o ponto fundamental é: uma criança que vive nos territórios palestinos vai viver melhor? Ela terá um futuro? E a criança em Israel vai se sentir confiante em relação a sua segurança? Se pudemos manter o foco sobre melhorar as vidas das pessoas e fazê-las avançar, e não apenas pensar em todos os conflitos e as tragédias do passado, então acho que teremos uma oportunidade de fazer avanços reais.
Mas não vai ser fácil, e é por isso que enviamos George Mitchell para lá. Ele é alguém dotado de paciência extraordinária e habilidade extraordinária, e é isso que vai ser necessário.
PERGUNTA - Concordo inteiramente. Permita que eu lance um olhar mais amplo sobre a região toda. O sr. pretende discursar para o mundo muçulmano desde uma capital muçulmana ainda em seus primeiros cem dias de governo. E todo o mundo está especulando sobre qual será essa capital (risos). Se tiver algo mais a dizer sobre isso, seria ótimo. Até que ponto o sr. está preocupado --porque, permita que lhe diga, honestamente, certas coisas em relação aos EUA, em algumas partes, não quero exagerar-- ocorre uma demonização dos EUA.
OBAMA- De fato.
PERGUNTA- Isso se tornou algo como uma nova religião, e, como uma nova religião, tem novos convertidos --como uma nova religião tem seus próprios altos sacerdotes.*
OBAMA- Certo.
PERGUNTA - É apenas um texto religioso.
OBAMA- Certo.
PERGUNTA - E nos últimos anos --desde o 11 de Setembro, e devido ao Iraque, esse distanciamento cresceu entre os americanos e, em gerações passadas, os EUA eram tidos em alta estima. Era a única potência ocidental sem legado colonial.
OBAMA- Certo.
PERGUNTA - Até que ponto o sr. está preocupado --porque as pessoas sentem que o sr. tem um discurso político diferente. E acho que, a julgar por (inaudível) e Zawahiri e Osama bin Laden e todos esses, sabe --um coro...
OBAMA- Sim, eu notei isso. Eles parecem estar nervosos.
PERGUNTA - Eles parecem estar muito nervosos, exatamente. Agora, me diga por que eles deveriam estar mais nervosos?
OBAMA- Bem, acho que quando você olha a retórica que eles vêm empregando contra mim antes mesmo de eu assumir o cargo...
PERGUNTA - Eu sei, eu sei.
OBAMA- o que isso me diz é que as ideias deles estão falidas. Não há nenhuma ação que eles tenham empreendido que diga que uma criança no mundo muçulmano está recebendo educação melhor em função deles, ou que tenha atendimento médico melhor graças a eles.
Em meu discurso de posse, falei sobre a ideia de que você será julgado pelo que construiu, não pelo que destruiu. E o que eles vêm fazendo é destruir coisas. Acho que, com o passar do tempo, o mundo muçulmano reconheceu que esse caminho não está levando a lugar algum, exceto a mais morte e destruição.
Meu trabalho é comunicar o fato de que os EUA têm um interesse no bem-estar do mundo muçulmano e que a linguagem que usamos precisa ser uma linguagem de respeito. Tenho membros muçulmanos em minha família. Já vivi em países muçulmanos.
PERGUNTA - O maior.
OBAMA- O maior, a Indonésia. Então o que quero transmitir é o fato de que, em todas minhas viagens pelo mundo muçulmano, acabei por compreender que, independentemente da religião que tenham --e os EUA são um país de muçulmanos, judeus, cristãos e não crentes--, independentemente de sua fé, as pessoas todas têm certas esperanças e certos sonhos comuns.
E meu trabalho é comunicar à população americana que o mundo muçulmano é repleto de pessoas extraordinárias que simplesmente querem viver suas vidas e ver seus filhos terem vidas melhores. Meu trabalho junto ao mundo muçulmano é comunicar que os americanos não são seu inimigo. Às vezes cometemos enganos. Não temos sido perfeitos. Mas, se você olhar o histórico do país, como você disse, a América não nasceu como potência colonial, e o mesmo respeito e a mesma parceria que a América teve com o mundo muçulmano ainda 20 ou 30 anos atrás, não há razão pela qual não possamos restaurá-los. Acho que isso vai ser a tarefa importante.
Em última análise, porém, as pessoas vão me julgar não por minhas palavras, mas por minhas ações e pelas ações de minha administração. E acho que o que você vai ver nos próximos anos não é que eu vou concordar com tudo o que algum líder muçulmano possa dizer, ou com o que é mostrado numa estação de televisão no mundo árabe --acho que o que você vai ver é alguém que está ouvindo, que é respeitoso e que está tentando promover os interesses não apenas dos EUA, mas também de pessoas comuns que neste momento estão sofrendo em função da pobreza e da falta de oportunidades. Quero assegurar que eu esteja falando com elas, também.
PERGUNTA - Me diga --o tempo está se esgotando--, já foi tomada alguma decisão sobre onde o sr. vai em sua visita ao mundo muçulmano?
OBAMA- Não vou dar essa notícia aqui e agora.
PERGUNTA- Afeganistão?
OBAMA- Mas talvez na próxima vez. Mas isso é algo que vai ser importante. Quero que as pessoas reconheçam, porém, que vamos tomar uma série de iniciativas. Enviar George Mitchell ao Oriente Médio é o cumprimento de minha promessa de campanha de que não vamos esperar até o fim de minha administração para tratar da paz palestina e israelense --vamos começar agora. Pode levar muito tempo, mas vamos fazer agora.
Vamos cumprir o compromisso assumido para que eu fale com o mundo muçulmano a partir de uma capital muçulmana. Vamos cumprir muitos dos compromissos que assumi de fazer um trabalho mais eficaz de ouvir, de fazer contato e de falar com o mundo muçulmano.
E vocês me verão cumprindo o prometido com relação à redução das tropas americanas no Iraque, para que os iraquianos possam começar a assumir mais responsabilidade. E, finalmente, acho que vocês já viram o cumprimento de uma promessa, em relação ao fechamento de Guantánamo, e que estamos deixando claro que, ao mesmo tempo em que estamos decididos a perseguir organizações terroristas que buscam matar civis inocentes, vamos fazer isso em nossos termos, e vamos fazê-lo respeitando as leis e o Estado de direito, que acho que é o que faz os EUA serem grandes.
PERGUNTA - O presidente Bush enquadrou a guerra ao terror conceitualmente de uma maneira muito ampla, "guerra ao terror", e às vezes empregava certa terminologia que muitas pessoas --islâmico, fascista. O sr. sempre apresentou a coisa de maneira diferente, especificamente contra um grupo chamado Al Qaeda e seus colaboradores. E isso é uma maneira de...
OBAMA- Acho que você está chamando a atenção para algo muito importante: que a linguagem que empregamos tem importância. E o que precisamos entender é que há organizações extremistas --quer sejam muçulmanas ou de qualquer outra fé, no passado-- que usam a fé para justificar a violência. Não podemos generalizar, retratando uma religião em consequência da violência que é cometida em seu nome.
Então acho que você verá que nossa administração pode ser muito clara ao distinguir entre organizações como a Al Qaeda --que aderem à violência, aderem ao terror, e agem com base nisso-- e as pessoas que podem discordar de minha administração e de certas ações, ou que podem ter opiniões particulares sobre como seus países devem se desenvolver. Podemos ter divergências legítimas, mas ainda sermos respeitosos. Não posso respeitar organizações terroristas que se propõem a matar civis inocentes, e nós as vamos perseguir e combater.
Mas, para o mundo muçulmano maior, o que vamos oferecer é a mão da amizade.
PERGUNTA - Posso terminar rapidamente com uma pergunta sobre o Irã e o Iraque?
OBAMA- Isso cabe à equipe...
GIBBS- Você tem 30 segundos (risos).
PERGUNTA - Os Estados Unidos algum dia vão conviver com um Irã nuclear? E, se não, até onde o sr. irá para impedir que isso aconteça?
OBAMA- Sabe, eu disse durante a campanha que é muito importante assegurarmos que estamos empregando todas as ferramentas do poderio dos EUA, incluindo a diplomacia, em nosso relacionamento com o Irã.
O povo iraniano é um grande povo, e a civilização persa é uma grande civilização. O Irã vem agindo de maneiras que não são conducentes à paz e prosperidade na região: suas ameaças contra Israel; sua busca por uma arma nuclear que pode potencialmente desencadear uma corrida armamentista na região, o que diminuiria a segurança para todos; seu apoio a organizações terroristas no passado --nenhuma dessas coisas tem ajudado.
Mas acho que é importante que nos disponhamos a dialogar com o Irã, a expressar muito claramente quais são nossas divergências, mas onde existem caminhos possíveis para progressos. Nos próximos meses vamos apresentar nossa abordagem geral. Como eu disse em meu discurso de posse, se países como o Irã se dispuserem a descerrar seu punho, encontrarão de nossa parte uma mão estendida.
PERGUNTA - Deixamos o Iraque para a próxima entrevista, ou apenas...
GIBBS- Sim. Já passamos da hora, e preciso levá-lo de volta para jantar com sua mulher.
PERGUNTA - Muito obrigado.
OBAMA- Obrigado.
TRADUÇÃO DE CLARA ALLAIN


Deve ter começado mais ou menos assim:
"Pô Obama, você não disse que eu era "o cara"? Então, eu acreditei, achei que era pra valer..."
A cumparenhada finalmente começa a acordar para a realidade, para o que eles são na verdade, ou seja nada, um zerão redondão á esquerda (que por coincidência, é o lado favorito deles...).
Lula agora, o ator enganador, se tornou o personagem principal daquele filme:
"O Rato que Ruge..."
Responder para Obama? Ele?
Só se for...
Sim senhor!
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