Mundo
28/01/2009 - 07h03

Opção por rival da Al Jazeera pode prejudicar mensagem de Obama, diz escritor

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IAGO BOLÍVAR
colaboração para a Folha Online

A Casa Branca promoveu a entrevista de Barack Obama nesta terça-feira à rede de TV Al Arabiya como um gesto de aproximação com os países islâmicos, mas o meio escolhido pelo novo presidente americano para falar aos árabes pode ser tão importante quanto a mensagem que ele quis passar.

Mantida por investidores da Arábia Saudita e com sede em Dubai, a rede tem audiência menor que a da qatariana Al Jazeera, mas é considerada menos "radical" que a concorrente. As duas redes são captadas por antenas parabólicas em países do Oriente Médio e também estão disponíveis em operadoras de TV a cabo. A rede Al Jazeera tem uma versão em inglês, que é oferecida em alguns países ocidentais e pode se assistida na internet.

A rede do Qatar é líder de audiência nos países árabes e se tornou conhecida no Ocidente pela transmissão de vídeos com mensagens do líder da rede terrorista Al Qaeda, Osama bin Laden, após o 11 de Setembro, e recebeu críticas dos Estados Unidos pela exibição de prisioneiros de guerra americanos durante a invasão do Iraque.

"Conceder uma entrevista para a rede árabe de notícias mais popular, agora, seria visto por Washington como um presente a um canal que, na visão deles, é apoiador do Hamas, do Hizbollah e de outros grupos que eles chamam de terroristas", disse o jornalista Hugh Miles, autor do livro "Al Jazeera: How Arab TV News Challenged the World" ("Al Jazeera: Como a TV Árabe de Notícias Desafiou o Mundo", em tradução livre).

A TV Al Jazeera, lançada em 1996, quebrou o virtual monopólio das redes estatais em vários países do Oriente Médio e recebe críticas de parcialidade na cobertura. Durante o recente conflito em Gaza, transmitiu para todo o mundo imagens das vítimas palestinas, sem a preocupação de evitar cenas chocantes da ofensiva que durou 22 dias e matou cerca de 1.300 pessoas --pelo qual foi muito apreciada pelos palestinos.

Nascido em Jidda, na Arábia Saudita, quando seu pai servia no país como diplomata a serviço do Reino Unido, Miles afirma que também os governantes árabes que se sentem incomodados pela rede do Qatar buscam comunicar-se com o público da região por meio da concorrente.

Entre os americanos, a preferência pela Al Arabiya não é novidade. George W. Bush também concedeu uma entrevista exclusiva à rede, em 2004, assim como os principais nomes do comando militar e das relações exteriores do seu governo, como o ex-secretário de Defesa Donald Rumsfeld e os dois secretários de Estado do último governo, Colin Powell e Condoleezza Rice, consecutivamente.

"A escolha é bem clara. Al Arabiya é considerada, na região, nos EUA e em todo lugar, como uma voz mais moderada que a TV Al Jazeera, isto é, mais neutra, mesmo que seja menos popular", diz Helga Tawil-Souri, professora de comunicação da Universidade de Nova York. "E ela é financiada pela Arábia Saudita, sob o guarda-chuva da MBC [grupo saudita de mídia], então essa entrevista lá, no lugar de outra emissora, também simboliza a continuada relação entre os Estados Unidos e a Arábia Saudita."

Miles também enxerga uma influência da relação americana com os sauditas na escolha. "Obama deu essa entrevista para para Al Arabiya porque ele estava tentando recompensar a Arábia Saudita e punir o Qatar", afirma ele, referindo-se a uma conferência em Doha, durante os ataques a Gaza, para a qual foram chamados membros do Hamas, da Síria e do Irã. Durante o conflito, o Qatar anunciou que estava congelando as relações diplomáticas com Israel.

Apesar da apregoada independência, a TV Al Jazeera, financiada em parte por um xeque do Qatar, é vista como permeável à influência do governo qatariano.

Recepção

Para além da interpretação sobre a escolha pela emissora, o fato de ter concedido a um canal árabe a primeira entrevista formal depois de assumir o cargo pode ter consequências positivas para o governo americano na região, afirma Tawil-Souri.

"Eu penso que, especialmente à luz da recente 'guerra' em Gaza na qual ele levou vários dias para falar publicamente, dizendo que não era presidente ainda, causou muito desapontamento na região, esse movimento de ir a um canal árabe melhora um pouco a sua imagem", disse a professora, autora de estudos sobre a mídia no Oriente Médio.

Ela lembra, no entanto, que o alcance do gesto pode não abarcar todos os muçulmanos, já que o conjunto de países a leste do Iraque que seguem o islã fala línguas próprias, como o farsi, no Irã, o urdu, no Paquistão, e o indonésio.

"Muitos muçulmanos não assistem à TV Al Arabiya ou a qualquer outro canal árabe porque eles não falam árabe", diz Tawil-Souri, para quem a verdadeira mudança na imagem dos EUA na região depende do cumprimento de vários compromissos feitos por Obama ao longo da campanha. Ela identifica como principais passos nessa direção o fim das guerras no Iraque e no Afeganistão e uma "tentativa justa" de começar a resolver o conflito israelo-palestino.

Na tentativa de alcançar a população do Oriente Médio, e não apenas os governos, o novo presidente teria também, segundo a professora, de rever a relação privilegiada que mantém com governos antidemocráticos, como a Arábia Saudita e o Egito.

"Se os EUA forem continuar pregando a democracia, terão que lançar um olhar honesto sobre os seus aliados mais próximos na região, que não estão nem perto de ser democracias", disse ela.

Um sinal de possível mudança nesse campo, avalia Tawil-Souri, foi dado na entrevista à TV Al Arabiya, quando o presidente disse que o enviado para o Oriente Médio, George Mitchell, deve primeiro ouvir todos os lados importantes, para que o país evite repetir a prática de "ditar" o que os países da região devem fazer. "Talvez, o que Obama quis dizer é precisamente para deixá-lo fora do discurso dos governos anteriores."

Já Miles considera que a recepção das palavras de Obama vai ser influenciada negativamente pelo canal em que elas foram ditas, por ter deixado de lado a rede que, segundo ele, é vista pelos árabes como a mais representativa dos pontos de vista da região. Mesmo para a emissora, a entrevista pode não trazer os benefícios esperados, diz ele.

"A ironia é que Obama acha que está apoiando a Al Arabiya quando, na verdade, o apoio americano para qualquer coisa no Oriente Médio nesses dias é o 'beijo da morte" na visão do árabe médio", afirma o jornalista.

Comentários dos leitores
O Pacificador (220) 27/11/2009 23h53
O Pacificador (220) 27/11/2009 23h53
E lula responde á Carta do Obama...
Deve ter começado mais ou menos assim:
"Pô Obama, você não disse que eu era "o cara"? Então, eu acreditei, achei que era pra valer..."
A cumparenhada finalmente começa a acordar para a realidade, para o que eles são na verdade, ou seja nada, um zerão redondão á esquerda (que por coincidência, é o lado favorito deles...).
Lula agora, o ator enganador, se tornou o personagem principal daquele filme:
"O Rato que Ruge..."
Responder para Obama? Ele?
Só se for...
Sim senhor!
sem opinião
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Carlos Gonçalves (406) 27/11/2009 17h47
Carlos Gonçalves (406) 27/11/2009 17h47
Até quando os americanos podem matar e não serem responsáveis pelos crimes que cometem contra civilizações iraquiana, afegãs, entre outras.? 3 opiniões
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Natália Barcelo (1) 26/11/2009 11h12
Natália Barcelo (1) 26/11/2009 11h12
Os EUA influencia, ainda que sutilmente, decisões internacionais. Lula, no meu ponto de vista, fez certo em receber Ahmadinejad a fim de estabelecer, além de esclarecer sua posição em relação ao enriquecimento de urânio do Irã. Afirmando que apoia desde que seja para fins pacíficos, em outras palavras; desde que voces nao façam uma bomba atómica. O que prova ser contraditório, pois uma região como o Irã com tantos conflitos e uma notável instabilidade, pode intencionalmente criar armas nucleares a fim de se "precaverem". Lula reafirmou sua posiçao de nem lá nem cá. Concorda com o Irã, mas sem entrar em divergencia com os EUA. sem opinião
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