ONU diz que campanha antidrogas alimentou os cartéis
da Folha Online
A ONU (Organização das Nações Unidas) afirmou nesta quarta-feira que sua campanha antidrogas teve um resultado contrário ao esperado, fazendo os cartéis ficarem tão ricos a ponto de poderem usar suborno para alcançarem os mercados da África Ocidental e da América Central.
A campanha de dez anos diminuiu a produção de narcóticos e o número de usuários, afirmou o chefe do programa, Antonio Maria Costa, mas as quadrilhas estavam usando seus enormes lucros para minar a segurança e o desenvolvimento em nações já contaminadas pela pobreza, o desemprego e a Aids.
"Quando gangues podem comprar eleições, candidatos, e partidos políticos, em apenas uma palavra, poder, as consequências só podem ser altamente desestabilizadoras", afirmou Costa, diretor do Escritório da ONU para as Drogas e o Crime (UNODC).
"Podemos reagir de forma emocional ou racional. A reação emocional é simplesmente dizer "Vamos legalizar as drogas e destruiremos o mercado". Isto é uma simplificação", disse.
A ONU diz que o mercado das drogas ilícitas mata 200 mil pessoas e movimenta US$ 320 bilhões ao ano, número equivalente ao da economia da Suécia. "As drogas são ilegais porque são prejudiciais. Não são prejudiciais por serem ilegais", reiterou.
O problema, segundo Costa, foi formado pelo fracasso de vários países em levar a sério as convenções da ONU contra o crime e a corrupção. "Como resultado, várias nações agora enfrentam uma situação criminosa em grande parte causada por sua própria escolha. Isso é muito ruim. Pior é o fato de que, frequentemente, vizinhos vulneráveis pagam um preço ainda maior", acrescentou.
Costa falou sobre o tema na abertura de um encontro da Comissão de Drogas Narcóticas da ONU para avaliar os resultados de uma década de trabalhos desde que uma sessão especial na Assembleia Geral das Nações Unidas estabeleceu metas para combater os produtores de drogas, os traficantes e restringir os usuários.
Futuro
Esboçando, em meio a discordâncias internas, maneiras de tornar a política antidrogas mais eficiente, as 53 nações da comissão devem assinar uma declaração na quinta-feira, na qual se comprometem a programar a luta contra o narcotráfico para os próximos dez anos.
"Se olharmos para as dimensões físicas do problema -- toneladas de produção [de narcóticos] e números de viciados -- podemos falar que a humanidade fez progressos mensuráveis [desde 1998]", disse Costa.
O número de viciados pelo mundo ficou estável por vários anos, com a demanda caindo para algumas drogas e aumentando para outras. Mas ele admitiu que os mercados mundiais ainda são abastecidos com cerca de mil toneladas de heroína, mil toneladas de cocaína e um volume incalculável de maconha e drogas sintéticas.
Críticos da política antidrogras dos Estados Unidos querem maior esforço para a implementação de políticas de "redução de danos", como trocas de agulhas para prevenir a disseminação do HIV, ou até mesmo a legalização, para remover o elemento da máfia, responsável por sangrentas guerras e a falência de Estados.
Costa concorda com as medidas de "redução de danos", mas classificou as propostas de legalização como "extremas" e desorientadas.
"Devemos investir na linha sólida entre a criminalização e a legalização --moldando nossos esforços coletivos contra as drogas menos como uma guerra, e mais como um esforço para curar uma doença social", completou.
Com Efe e Reuters
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