Mundo
15/03/2009 - 01h05

Comparado a Chávez, candidato à Presidência de El Salvador busca identificação com Lula

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FLÁVIA MARREIRO
Da Folha de S.Paulo

El Salvador terá neste domingo a mais disputada eleição presidencial em 17 anos e pela primeira vez um candidato da ex-guerrilha marxista FMLN (Frente Farabundo Martí de Libertação Nacional) tem chances de ganhar.

O jornalista Mauricio Funes, 49, é o candidato da frente; Seu oponente é o engenheiro e ex-chefe da polícia salvadorenha Rodrigo Ávila, 44, da governista Arena (Aliança Republicana Nacionalista, direita). Funes lidera as pesquisas com pequena vantagem (segundo a maior parte dos levantamentos, dentro da margem de erro).

Procurada pela Folha, a campanha de Ávila informou que ele não teria tempo disponível para a entrevista. A campanha indicou à reportagem a entrevista concedida por ele a meios estrangeiros e posta em seu site (www.rodrigopresidente.com)

Funes conversou com a Folha por telefone na sexta-feira à noite sobre sua estratégia de moderação que seguiu a de Luiz Inácio Lula da Silva em 2002. Não por acaso o marqueteiro da campanha da FMLN é João Santana, que trabalhou em várias campanhas petistas. O candidato é casado com uma brasileira petista.

FOLHA - Uma das principais armas da campanha governista foi vinculá-lo a Hugo Chávez. Chávez é um amigo incômodo?

FUNES - Chávez não é um amigo incômodo. Chávez tem sido utilizado pela direita para articular uma campanha de temor. À medida em que a direita insista, que pelas relações históricas que meu partido tem com Chávez e com seu governo, ao ganhar as eleições eu vou entregar o país à Venezuela ou vá construir uma sociedade como a venezuelana. Isso alimentou temores, em particular entre os indecisos. A verdade é que a presença do presidente Chávez nessa eleição é mínima, quase nula. Por exemplo, como candidato me reuni três vezes com o presidente Lula, mas nenhuma vez com Chávez. Também me reuni com a presidente Bachelet (Chile), com a presidente Cristina, com Zapatero (presidente do governo Espanhol). Agora, a direita insiste que há uma relação histórica que terei de pagar permitindo que Chávez intervenha no governo. Eu dei garantias que, se ganhar, terei com o presidente Chávez uma relação respeitosa, de cooperação, como com qualquer outro país.

FOLHA - O sr. não se sente próximo, por exemplo, do conceito de "socialismo do século 21" defendido por Chávez?

FUNES - O conceito de "socialismo de século 21" não é para El Salvador. Não me proponho a fazer da sociedade salvadorenha uma sociedade socialista nem meu governo tem como meta imediata criar as condições para transitar ao socialismo. Proponho-me a fazer que a democracia funcione em El Salvador. A Constituição da República, de 1983, que foi reformada, diz que El Salvador é um Estado social democrático de direito e que o sistema econômico está baseado na existência da propriedade privada. Meu objetivo é fazer com que a economia social de mercado funcione, que se respeite a sociedade privada, que se respeite a livre concorrência. Nenhum investidor nacional ou estrangeiro tem de temer porque não estamos defendendo nenhum programa de estatização ou intervenção do Estado na economia. O que tenho tentado em reuniões com empresários locais e estrangeiros é passar uma mensagem de confiança, contra incerteza.

FOLHA - O sr. tentou fazer algo como a "Carta ao Povo Brasileiro", de Lula, em 2002?

FUNES - Três dias antes de encerrar a campanha eleitoral eu apresentei uma carta à nação. Delineei o estilo de governo que implementarei, desfiz dúvidas e fui enfático em dizer que meu governo respeitará o sistema jurídico, político e econômico prevista na Constituição. Repeti que meu objetivo não é construir o socialismo, mas fazer a sociedade salvadorenha funcionar de modo a garantir o gozo das plenas liberdades e de melhor qualidade de vida.

FOLHA - Então, é preciso dizer que o sr. segue a cartilha de moderação do presidente Lula?

FUNES - Eu estou próximo do presidente Lula não só por conta dos laços de amizade que nos unem há muitos anos, mas também porque acompanho com atenção seu governo, seu estilo de governo, e os êxitos ao converter o Brasil em uma das economias mais dinâmicas do continente ao mesmo tempo que conseguiu reduzir índices de pobreza. Programas que ele fez também foram observados, e se as condições nos permitirem, pretendo implementá-los aqui. Tenho o presidente de Lula como um das minhas referências mais próximas e pretendo ter com ele uma relação que me permita dizer que ele é um sócio do desenvolvimento da América Central.

FOLHA - A campanha do sr. também é muito parecida com as feitas por Lula principalmente porque quem a dirige é o marqueteiro dele, João Santana. Como foi decidida a contratação?

FUNES - Conheço João Santana há muitos anos por causa de minha mulher, que é brasileira, nascida em São Paulo, Cultivei uma relação de amizade com ele. Quando fui escolhido candidato e tive de tomar a decisão de escolher a um estrategista não vacilei. E ele veio para El Salvador para cuidar de toda a produção e programas de rádio e TV. Ele foi o mais importante assessor do meu comando de campanha. Não cabe dúvida que a presença dele é determinante.

FOLHA - Qual foi a participação do PT, com quem o Sr. também tem relações próximas por
causa de sua mulher, que é petista?

FUNES - Fizemos um contrato entre FMNL com João Santana, e quem facilitou o contato que fui eu, que conhecia seu trabalho. Convenci o partido a contratá-lo de tal maneira que o partido é quem paga. Aqui não teve nada a ver com o Partido dos Trabalhadores. A única relação é que ele trabalhou para o presidente Lula e minha mulher militou no PT por muitos anos e era representante do PT na América Central. O contrato e a relação é profissional.

FOLHA - Qual a avaliação que o sr. tem da atitude dos EUA diante desta campanha?

FUNES - Desde o momento em que fui nomeado candidato a presidente, em novembro de 2007, os EUA tem sido respeitosos e não fizeram nenhuma declaração pública que pudesse favorecer o partido do governo. À diferença do que aconteceu em 2004, tanto Roger Noriega como Otto Reich [à época no Departamento de Estado], fizeram declarações cínicas de modo a inclinar a balança ao candidato do governo. O senador republicano Tom Tancredo chegou a dizer que se a FMLN ganhasse, ele promoveria uma iniciativa de lei para atrapalhar o envio de remessas a El Salvador. Agora, um grupo de congressistas republicanos tentou fazer o mesmo. Se isso acontecesse, seria um problema seríssimo para El Salvador, que recebe por ano US$ 3,5 bilhões em remessas, 17% 18% do nosso PIB. Agora, felizmente, o porta-voz do Departamento de Estado acabou de repetir seu compromisso de ser neutro nas eleições e colaborar com qualquer governo.

FOLHA - O sr. propõe a revisão do Cafta, o acordo de livre comércio entre os EUA e a América Central?

FUNES - Não. O que eu proponho é que o governo de Obama tem de fazer esforços maiores ao desequilíbrio causado pelo Cafta pode ter provocado nos setores produtivos nacionais. Quando se assinou o Cafta, a FMLN não apoiou, porque não havia garantias algumas medidas para evitar os desequilíbrios. Mas isso é possível corrigir. Com as compensações e com mais apoio do Estado salvadorenho ao setor produtivo nacional.

FOLHA - Como o sr. pretende lidar com a crise, que atinge fortemente uma economia aberta como a salvadorenha e como lidar com a violência no país que tem a maior taxa de homicídios por habitante?

FUNES - No caso da delinquência, faltou vontade política para resolver. Teremos de redesenhar essa política. Vou me concentrar em três pontos: treinamento policial e mais contratações, para melhorar as condições de trabalho da polícia e reforçar a investigação do delito. Também é um componente importante a prevenção de um delito e programas de educação, para que os jovens não caiam tão facilmente nas mãos das gangues. Outro tema que não foi trabalhado pelo governo atual é a política de reabilitação. Quanto à crise, somos muito vulneráveis pela questão das remessas que eu já falei e também a concentração das nossas exportações: 70% vão para os EUA. Acho que devemos seguir o que todos os países estão fazendo: aumentar o gasto do Estado em investimento produtivo. Temos de ter um programa de endividamento responsável. O presidente Saca buscou um empréstimo do FMI de US$ 850 milhões, de precaução, para ser sacado se tivermos uma crise de liquidez. Nós os apoiamos.

FOLHA - Há análises que dizem que seu discurso moderado não é aceito por toda FMLN e que, num eventual governo, o sr. teria de lidar com essas fissuras...

FUNES - O setor radical da frente é uma minoria. O partido evoluiu da guerrilha mais exitosa do continente nos anos 80 para um dos partidos de oposição mais fortes. Acabamos de ganhar a maioria nas eleições legislativas de janeiro. Isso é mais uma construção da direita. Não é verdade que minhas propostas programáticas entram em contradição com as da FMLN. O erro que se comete é se julgar a FMLN pelo seu passado guerrilheiro e pela presença de alguns elementos do antigo partido comunista. Mas se trata de pessoas que são minoria dentro do partido, que hoje tem uma liderança progressista, que soube ir se ajustando às exigências do tempo e das circunstâncias.

FOLHA - O que significará uma eventual vitória sua e da FMLN hoje?

MAURICIO FUNES - Uma vitória minha e da FMLN significará que se fecha um ciclo histórico no país, fecha um ciclo de governos autoritários. É a possibilidade de começar a construir a democracia em El Salvador, de construir um governo de unidade nacional, que crie as condições para as transformações econômicas e sociais que o país necessita. Para criar mais empregos e também resolver o problema da delinquência. Essa democracia poderia ter sido construída a partir da assinatura dos acordos de paz, em 1992, quando se abriu uma oportunidade histórica. Criaram-se novas instituições, como uma polícia independente das Forças Armadas, um Judiciário mais profissional e moderno, independente do poder do presidente da República. Uma série de transformações que poderiam ter levado o país pelo caminho da democracia. Mas o que aconteceu nestes 17 anos é que a direita não aproveitou essa oportunidade, fizeram o contrário. Desarticularam essa institucionalidade.

FOLHA - A campanha se tornou muito dura, com acusações violentas e, por parte dos que lhe apoiam, uma movimentação para alertar brechas para fraude. Qual sua perspectiva neste tema? O sr. aceitará os resultados seja quais forem?

FUNES - Eu e meu partido estamos denunciando uma série de irregularidades que, apesar de haverem sido anotadas por observadores internacionais nas eleições de janeiro [legislativas e municipais], não foram superadas. Não estou falando que vai haver fraudes. Mas se não fazemos um esforço para superar essas irregularidades... Então, há uma possibilidade de que as pessoas no poder tentem fraudar. Por que insisto neste ponto? Porque até o Tribunal Eleitoral tem permitido que se cometam abusos e não conseguiram criar um mecanismo que impeçam que estrangeiros, especialmente guatemaltecos e hondurenhos e nicaraguenses, entrem ao país e votem de forma fraudulenta, conseguindo um documento falso de identidade. Também temos sérias dúvidas sobre a qualidade do registro eleitoral. Há nomes de pessoas que já morreram, salvadorenhos que vivem nos EUA. Temos informação de que esses nomes serão usados por esses estrangeiros. Estamos trabalhando, fizemos as denúncias cabíveis. Em todo caso, estamos confiantes e o desejo que a vontade da população ainda vai superar a quantidade de eleitores que eles queiram mobilizar de forma fraudulenta de modo a ter uma diferença suficientemente significativa para garantir a vitória. Aqui não há segundo turno. Um candidato pode ganhar por um voto. Então, o melhor cenário é que isso não aconteça. Não se trata de uma estratégia para desacreditar os resultados para o caso de sermos derrotados. Fazemos porque temos direito de observar e velar para que os resultados sejam aceitos pela direita.

 

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