Mundo
23/03/2003 - 13h49

Rumsfeld pede que TVs não mostrem imagens de prisioneiros dos EUA

da Folha Online

O secretário de Defesa dos EUA, Donald Rumsfeld, pediu hoje que os meios de comunicação do mundo todo não transmitam as imagens dos prisioneiros de guerra americanos nas mãos do Iraque.

Reuters - 7.fev.2003
Donald Rumsfeld, secretário de Defesa dos EUA
"Peço às TVs para não difundir essas imagens", declarou Rumsfeld, referindo-se às imagens divulgadas hoje pela TV do Iraque de supostos soldados americanos mortos e outros feitos prisioneiros.

Rumsfeld acusou os iraquianos de violar a Convenção de Genebra sobre prisioneiros de guerra.

"A Convenção de Genebra afirma que não é permitido fotografar, envergonhar ou humilhar prisioneiros de guerra", disse Rumsfeld. "Os Estados Unidos, logicamente, evitam mostrar os prisioneiros de guerra", declarou. "As redes de tevê que divulgam essas imagens estão fazendo algo prejudicial."

Segundo Rumsfeld, as imagens mostradas pela rede de TV Al Jazeera, do Qatar, de supostos soldados americanos mortos e outros feitos prisioneiros eram "propaganda" iraquiana.

"Parece-me que mostrar imagens numa tela, sem saber quem são [os prisioneiros] e difundidas pela Al Jazeera, que não é um instrumento de comunicação perfeito, é evidentemente parte da propaganda iraquiana."

A televisão iraquiana mostrou hoje imagens de pelo menos quatro corpos que seriam de soldados norte-americanos e de cinco supostos prisioneiros dos EUA.

Dois dos prisioneiros, incluindo uma mulher, estavam aparentemente feridos. Um deles estava deitado no chão sobre um tapete.

Eles foram os primeiros prisioneiros americanos supostamente capturados pelo Iraque. A TV interrogou os prisioneiros, que deram seus nomes, números de identificação militar e nomes de suas cidades.

Os corpos e os prisioneiros foram mostrados pela TV iraquiana, cujas imagens foram retransmitidas pela TV Al Jazeera, do Qatar, que afirmou que os mortos e feridos teriam vindo de um campo perto de Nassiriah, no sul do Iraque, onde fuzileiros navais estão em combate com soldados iraquianos pelo controle da cidade.

O primeiro prisioneiro mostrado pela TV afirmou vir de Kansas e que seu nome seria Miller.

Questionado por que ele teria vindo ao Iraque, ele disse: "Porque eu fui mandado a vir para cá. Eu estava apenas seguindo ordens. Eu fui mandado a atirar, somente se atirassem em mim. Eu não quero matar ninguém".

Anteriormente, o vice-presidente iraquiano, Taha Yassin Ramadan, tinha declarado que soldados inimigos capturados no na cidade de Souq al-Shuyukh (sul do Iraque), perto de Nassiriah, seriam mostrados pela TV estatal iraquiana.



O general Richard Myers, chefe do Estado-Maior das Forças Armadas dos EUA, afirmou hoje que autoridades norte-americanas estão procurando por até dez soldados dos EUA que podem estar desaparecidos no sul do Iraque.

Ontem, o ditador iraquiano Saddam Hussein divulgou uma declaração prometendo respeitar os direitos de prisioneiros de guerra.

"O Iraque, por respeito a si mesmo e à humanidade [...], respeitará os prisioneiros de guerra do inimigo que capturarmos", diz a declaração, lida na TV iraquiana.

"Respeitaremos seus direitos de acordo com a [terceira] Convenção de Genebra [1949]", diz a declaração.

Direitos humanos

A terceira Convenção de Genebra, assinada em 12 de agosto de 1949, é uma das quatro convenções sobre a proteção das vítimas de guerra.

A convenção determina os direitos e deveres das potências em relação aos prisioneiros. Estabelece uma série de normas, baseadas em um princípio segundo o qual o prisioneiro de guerra não é um criminoso, mas apenas um adversário que pode ser impedido de participar de novo do combate. Portanto, deve ser tratado com humanidade e libertado quando as hostilidades terminarem.

O artigo 13 sobre "o tratamento humano dos prisioneiros" prevê que eles devem ser "protegidos em todos os momentos, sobretudo contra qualquer ato de violência ou de intimidação, contra insultos e a curiosidade pública".

Proíbe a "mutilação física" e qualquer "experiência médica ou científica que não esteja justificada pelo tratamento médico do prisioneiro interessado e que não seja de seu interesse".

Por outro lado, o artigo 17 afirma que "nenhuma tortura física ou moral, nem coação alguma podem ser exercidas sobre os prisioneiros de guerra para a obtenção de quaisquer tipos de informações".

A terceira Convenção de Genebra também impede a utilização dos prisioneiros de guerra como escudos humanos. O artigo 23 estipula que 'nenhum prisioneiro de guerra poderá, em nenhum momento, ser enviado ou retido em uma região onde estaria exposto ao fogo da área de combate'.

Esse mesmo artigo prevê que os prisioneiros de guerra devem ser protegidos dos bombardeios da mesma forma que a população civil local. Os campos de prisioneiros de guerra devem ser marcados com as letras "PG" ou "PW" visíveis desde o céu.

Os prisioneiros de guerra não devem ser filmados ou fotografados.

O Comitê Internacional da Cruz Vermelha (CICR) está encarregado de velar pelo respeito das Convenções de Genebra e por isso pode visitar regularmente os campos de prisioneiros.

Com agências internacionais

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