Exército de Israel ordenou ataque contra equipes de resgate em Gaza, diz "Haaretz"
da Folha Online
Um palestino encontrou uma instrução, escrita a mão e em hebraico, que indicava aos soldados israelenses a atacar equipes de resgate durante a recente ofensiva militar na faixa de Gaza, entre dezembro e janeiro, que deixou mais de 1.300 palestinos mortos, dos quais ao menos 900 civis, e causou duras críticas de organizações de direitos humanos contra Israel por crimes de guerra.
O conteúdo do comunicado é a terceira de uma série de reportagens publicadas pelo jornal israelense "Haaretz" nas quais os soldados israelenses relatam vandalismo e assassinato de civis inocentes durante a ofensiva e denunciam que rabinos incitaram uma "guerra religiosa" contra os palestinos em Gaza.
| Eyad Baba/AP | ||
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| Palestina caminha por escombros de campo de refugiados em Rafah após um ataque israelense |
"Regra de engajamento: Abrir fogo também contra pessoal de socorro" era o texto que estava escrito em uma folha de papel encontrada em uma das milhares de casas palestinas tomadas pelas Forças de Defesa israelenses em Gaza.
"Nem em crianças, nem em mulheres. Além do "tantcher" --incriminação", diz ainda instrução. "Tantcher" é como as Forças de Defesa de Israel chama a rota que passa por toda a extensão da faixa de Gaza. Como o bilhete foi encontrado a leste desta rota, afirma o jornal, é possível concluir que a instrução era para que atirassem em quem atravessasse a rota na direção da área controlada por Israel.
| Hatem Moussa-15mar.09/AP | ||
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| Menino palestino é visto nos escombros de uma das milhares de casas destruídas pela ofensiva militar israelense |
Segundo o jornal, um reservista que não participou da operação militar disse que a instrução faz parte das ordens de um comandante de companhia aos seus soldados e deve ter sido entregue como um "resumo" das ordens que recebeu de seus superiores.
Números
A revelação veio apenas dois dias antes do novo relatório da ONG Médicos pelos Direitos Humanos, que aponta que os soldados israelenses não garantiram a proteção especial às equipes médicas durante a ofensiva. O texto indica ainda que, segundo dados da Organização Mundial da Saúde, 16 membros de equipes médicas foram mortos durante os 22 dias da ofensiva e outros 25 ficaram feridos durante o trabalho.
O relatório aponta ainda que Israel atacou 34 centros médicos em Gaza, incluindo oito hospitais, uma grave violação das leis internacionais de guerra. A ONG levanta ainda dúvidas sobre o respeito dos soldados israelenses ao código ético e aos valores humanitários básicos ao impedir ainda a retirada de civis feridos, cerca de 5.000 durante a operação.
"Os incidentes revelam não apenas que os militares não retiraram os feridos e suas famílias, mas também proibiram que as equipes [médicas] palestinas chegassem aos feridos", diz o relatório, citado em outra reportagem do jornal "Haaretz".
O jornal israelense lembra que membros de equipes de resgate da Cruz Vermelha Palestina foram atacados várias vezes durante a ofensiva. A falta de segurança para os trabalhadores humanitários tornou, em alguns casos, impossível a retirada dos feridos e mortos.
"Um número desconhecido de palestinos morreu por ter sangrado durante dias, sem tratamento médico, à espera de socorro, enquanto as pessoas não ousavam sair de suas casas. O documento encontrado na casa palestina fornece uma prova escrita de que os comandantes do Exército israelense ordenaram a seus soldados tropas que atirassem nas equipes de resgate", critica a reportagem.
Prova
Segundo o jornal, o papel com a instrução foi encontrado por um pesquisador do Centro Palestino dos Direitos Humanos, na casa da família de Sami Dardone, em Jabal al Rayes, a leste de Jabalya. A numerosa família de Dardone morava em cerca de 40 casas deste bairro. Algumas delas foram tomadas pelas tropas do Exército para servirem de abrigo, local de posicionamento de atiradores de elite ou para tiroteios em geral.
Uma fonte militar disse ao Haaretz que "o comunicado não é um documento oficial assinado por um comandante e o Exército não pode comentar fragmentos de sentenças que foram escritas em um pedaço de papel". A fonte pede ainda que o texto não seja interpretada como diretivas ordenadas por comandantes.
A data no papel indica o dia 16 de janeiro de 2008, o que o jornal diz ser "claramente um erro porque deveria indicar um ano depois". "[O papel] discute eventos políticos e militares que ocorrem em meados de janeiro de 2009. é possível concluir que o autor está discutindo a possibilidade de um cessar-fogo, que estava sendo discutido por oficiais israelenses na época", diz o "Haaretz".
"As próximas 24 horas são importantes, há uma chance de que eles [Hamas] não aceitarão o acordo", diz o texto. Segundo o jornal, o comunicado menciona ainda o ministro de Interior --uma referência provável ao ministro de Interior do Hamas, Said al Sayam, morto em 15 de janeiro deste ano em um ataque a sua casa.
Massacre
O comunicado é a terceira parte de uma série de reportagens chocantes sobre relatos de soldados israelenses sobre o conflito em Gaza.
Na semana passada, o jornal publicou relato de um comandante das Forças de Defesa que denunciou que rabinos do Exército disseram às tropas que lutavam na ofensiva militar que o confronto era uma "guerra religiosa" contra os pagãos.
"A mensagem deles era bem clara: nós somos judeus, nós viemos para esta terra por um milagre, Deus nos trouxe de volta a esta terra, e agora nós precisamos lutar para expulsar os pagãos que estão interferindo na conquista da terra santa", disse o comandante, citado pelo jornal.
O relato de Ram, um pseudônimo para proteger a identidade do militar, vazou de um encontro no dia 13 de fevereiro entre membros das Forças Armadas, estudantes do curso preparatório de soldados de Yitzhak Rabin, que compartilharam suas experiências em Gaza.
Alguns veteranos, formados na academia militar, falaram sobre o assassinato de civis inocentes e de suas impressões de desprezo profundo aos palestinos dentro das forças israelenses. "A atmosfera em geral, não sei como descrever. As vidas de palestinos, digamos que são menos importantes que as de nossos soldados", diz um dos trechos da declaração de um chefe de pelotão que atuou em Gaza, ao justificar a morte de uma palestina e seus dois filhos, mortos por um atirador de elite israelense.
O diretor da instituição, Danny Zamir, confirmou ao jornal israelense que os relatos são autênticos.
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