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06/04/2003 - 10h55

EUA tiveram de "inventar" inimigo para atacar Iraque, diz filósofo

JOÃO BATISTA NATALI
da Folha de S.Paulo

Paul Virilio, 70, urbanista e filósofo francês, afirma que, para o novo conflito no Iraque, os Estados Unidos precisaram "inventar" o inimigo. A invenção ocorre pela propaganda e sobretudo pelo aparato de comunicação que permitiu essa guerra on-line.

Em entrevista à Folha, diz que "o campo de percepção de uma guerra é mais importante que o campo de batalha propriamente dito". Ou seja, a atual guerra privilegia a conquista do espaço virtual, tanto quanto a conquista do espaço territorial iraquiano.

Virilio é um pensador de extrema originalidade e nem sempre de fácil compreensão. Caminha contra a corrente e atropela sólidos consensos globalizados.

Não acredita, por exemplo, que a tecnologia de ponta na área da informação tenha algo a ver com o progresso. Ele argumenta que em verdade constroem-se obstáculos perigosos às liberdades.

A coalizão anglo-americana, diz Virilo, ameaça a democracia, porque o combate on-line acaba desembocando numa "sincronização das emoções", que conduz à perda coletiva do espírito crítico e, no momento seguinte, ao risco da idolatria.

É mais grave que a padronização das opiniões a que se chegou no século 20. Sem a opinião diversificada, o processo democrático já está comprometido.

Entre outros diagnósticos, ele diz que a ciência deixou de ser um agente de civilização para se tornar um instrumento militar.

Além de obras sobre arquitetura e urbanismo, Paul Virilio publicou 16 ensaios filosóficos, quatro deles traduzidos no Brasil pela Estação Liberdade e Editora 34 ("Estratégia da Decepção", "Velocidade e Política", "A Bomba Informática" e "O Espaço Crítico").

Leia a seguir entrevista concedida à Folha:

Folha - A respeito do conflito no Kosovo, o sr. escreveu ter sido instituída uma "estratégia da desinformação". Os Estados Unidos mobilizariam agora algo semelhante?

Paul Virilio -
Utilizei a expressão em meu livro "Estratégia da Decepção". A palavra decepção foi usada em seus dois sentidos: o "desinformar", mais próximo do significado em inglês, e o "decepcionar", mais próximo do significado em francês [e em português".

Estamos todos desinformados e desapontados. Essa guerra vem mostrando ser uma catástrofe. É uma guerra acidental, preventiva, que escapou de sua natureza substantiva, clausewitziana [do pensador prussiano Carl Phillip Gottfried von Clausewitz (1780-1831)", que seria a guerra como o prosseguimento da política por outros meios.


Folha - Por que os EUA não conseguiram convencer o mundo de que precisavam derrubar Saddam?

Virilio -
Em verdade, os EUA "inventaram" o inimigo. Numa guerra tradicional, o inimigo se declara enquanto tal e, em resposta, declaramos a guerra contra ele. O extraordinário golpe que foi o atentado de 11 de setembro não possuía um inimigo "declarado".

É claro que a guerra no Afeganistão foi uma resposta mais ou menos lógica ao grupo de Osama bin Laden. Mas era ainda preciso dar um rosto ao inimigo. O presidente George W. Bush foi então levado a "inventar". Saddam não foi um inimigo "declarado". Ocorreu uma negação da verdade política própria aos conflitos armados.


Folha - Até que ponto a atual guerra não seria legível sem a mídia, já que a mídia é fundamental ao processo de invenção?

Virilio -
Em meu livro "Guerra e Cinema" escrevi que o campo de percepção de uma guerra é mais importante que o campo de batalha propriamente dito. Estamos agora em plena teletecnologia on-line. A conquista da telinha e a conquista do campo de percepção na esfera mundial se tornaram o objetivo da guerra em seu atual modelo, seja ela terrorista, como no WTC, seja ela internacional, com a do Iraque. Não estamos mais hoje em condições de separar o campo de batalha real e o campo de batalha on-line, virtual.


Folha - Esse campo virtual é também utilizado pelo lado iraquiano?

Virilio -
Com certeza. Há agora uma diferença importante com relação à Guerra do Golfo, de 1991, que eu abordei em ensaio chamado "L"Écran du Désert" ["A Tela do Deserto"]. Havia naquele momento uma fonte única de informação, que era o pool entre a CNN e o Pentágono. Isso gerou controvérsias por parte de agências, como a France Presse, que se sentiram excluídas do campo de batalha. Essas fontes estão hoje multiplicadas (Fox News, BBC, Al-Jazeera), o que torna a guerra mediática mais confusa.


Folha - Foi para acentuar a virtualidade que se incorpora às tropas o jornalista "encaixado" [dotado de câmara e equipamento de transmissão de textos e imagens"?

Virilio -
Trata-se em verdade de um "gadget" [bugiganga". A partir do momento em que o governante designou seu inimigo -a relação de Bush com Saddam-, os jornalistas não estão mais livres de seus próprios atos. Se a guerra é ilegal do ponto de vista da ONU, se o inimigo foi inventado pelos norte-americanos, os jornalistas "encaixados" estão embarcados na ilegalidade dessa mesma guerra. O jornalista não tem liberdade em suas relações informativas com o inimigo. Em outras guerras essa liberdade existia. Como ela deixou de existir, como é que a informação pode ser livre? Não o é.


Folha - A informação se tornou um componente tático.

Virilio -
A informação que deveria ser "democrática" não o é mais. Caímos então nos mecanismos clássicos da propaganda.

Folha - O sr. disse, há três anos, que a informação on-line era bem mais do que a propaganda.

Virilio -
Obviamente. A informação é aquilo que chamei de "bomba informática". Digamos, para simplificar, que segundo a física há na matéria três dimensões: a massa, a energia e a informação. A guerra seguiu essas três etapas. Ela se definiu enquanto guerra como guerra de massa, com massas de soldados, com o século 19 e as guerras napoleônicas ou com as grandes guerras do século 20.

O militar estava na ofensiva, enquanto a defensiva era feita por meio de fortificações, que são minha especialidade inicial, como urbanista. As cidades eram fortificadas por imensas muralhas.

Havia a Muralha da China, o Muro do Atlântico. A segunda dimensão mobilizada pela guerra foi a energia. A energia necessária para propulsionar a bola do canhão -que tornou obsoletas as muralhas- e até a bomba atômica, que esteve na origem do equilíbrio entre duas superpotências até o final do século 20.

Folha - E a informação?

Virilio -
A informação já existia em formas anteriores de guerras, com a espionagem ou a propaganda, com o reforço da fé religiosa nas Cruzadas. Mas hoje a dimensão informativa se torna primordial nos conflitos.

Folha - A informação não é mais instrumento de libertação?

Virilio -
Infelizmente, não. Albert Einstein dizia existirem três tipos de bombas: a bomba atômica, a bomba da informação e, para ele num futuro, a bomba demográfica.

Estamos hoje atravessando o momento da explosão da bomba da informação, da bomba da informática. Esta última é bem mais perigosa que a bomba da informação da qual falava Einstein, porque na época os computadores não estavam tão desenvolvidos. Agora, com a interatividade, com a comunicação on-line, assistimos à fusão de opiniões.


Folha - Haveriam outras "bombas" ainda a caminho?

Virilio -
Com certeza há algo que eu suponho que possa se tornar uma bomba genética, capaz de modificar o genoma e operar mudanças na raça humana.


Folha - O que sobrará então do cidadão, tal qual o concebemos desde o final do século 18?

Virilio -
A partir do século 19 assistimos à emergência de um fenômeno importante, que foi a padronização. Ocorreu a padronização dos objetos com a Revolução Industrial. Ocorreu uma padronização de opiniões, que falseia a democracia na medida em que a informação é apresentada de uma só maneira. Entramos agora no século 21 com algo bem mais agudo, bem mais grave, que é a "sincronização das emoções".


Folha - O sr. poderia explicar isso um pouco melhor?

Virilio -
A transmissão ao vivo, a ocorrência e a percepção dessa ocorrência em tempo real favorecem não só a padronização das opiniões, mas também a possibilidade de as emoções serem simultâneas. Não foi preciso esperar por uma guerra para que tal fenômeno surgisse.

Ele nasceu em experiências religiosas, com os telepastores. É algo que supera a dimensão da propaganda e se torna algo de perigosa importância cultural no plano globalizado. Podem existir ramificações positivas na sincronização das emoções, como o fato de, a 15 de fevereiro, 10 milhões de pacifistas terem saído às ruas em centenas de grandes cidades. Mas essa sincronização poderá mobilizar milhões de pessoas motivadas pelo ódio.


Folha - Pode-se falar em democracia quando a emoção está tão fortemente envolvida?

Virilio -
Estamos diante de uma ameaça, que é a democracia pela emoção, cujo primeiro exemplo foi fornecido pelos nazistas e pelo uso que eles fizeram das emissoras de rádio que orientavam manifestações simultâneas na Alemanha. Conhecemos relativamente bem os fenômenos de alucinação e loucura coletiva que implicavam essas cerimônias.


Virilio - Eu chamaria a atenção para o fato de não se tratar de algo conjuntural. É algo estrutural. Se a padronização da opinião já é uma ameaça para a democracia representativa, a padronização das emoções é uma ameaça definitiva contra qualquer projeto de democracia. Caminharíamos para aquela dimensão religiosa e irracional que existiu no paganismo.


Folha - A religiosidade tem sido um componente forte nos discursos de Bush e de Saddam.

Virilio -
É terrificante. Acredito que a "guerra preventiva" é uma forma de crime contra a humanidade. Ela não será a primeira batalha de uma 3ª Guerra Mundial, mas o primeiro passo para uma espécie de guerra civil globalizada.

Até aqui as guerras civis -e as mais mortíferas foram sempre as guerras de religião- estavam localizadas: a Comuna de Paris, a Guerra Civil Espanhola, a Bósnia. Mas agora ela se globaliza, por meio de apelos à guerra santa islâmica e os apelos paralelos à cruzada de Bush. É uma ameaça verdadeira contra a humanidade.

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