EUA apoiam governo paquistanês, acossado por radicais
da Folha de S. Paulo
Os Estados Unidos têm "o mais alto interesse estratégico" em "apoiar sem ambiguidades" o governo paquistanês, afirmou o enviado especial americano à região, Richard Holbrooke, em apelo ao Congresso na véspera da visita do presidente paquistanês, Asif Ali Zardari.
Zardari chega a Washington fragilizado pelo avanço do Taleban e pela crescente oposição interna. O cessar-fogo no vale do Swat, próximo a Islamabad, naufragou, e os combates forçaram milhares a fugirem da região nos últimos dias. Alvo de críticas ocidentais, o pacto previa o fim das hostilidades e a adoção da sharia (lei islâmica).
A crescente insurgência é foco do encontro trilateral entre o presidente dos EUA, Barack Obama, Zardari, e o afegão Hamid Karzai. A nova estratégia da Casa Branca para a Guerra do Afeganistão enfatiza o elo entre o extremismo islâmico nos dois lados da fronteira.
Com a crise do Paquistão, a segurança das estimadas cem bombas atômicas do país preocupa os EUA. Islamabad abriu a aliados ocidentais dados sobre ogivas de seu programa nuclear, outrora ultrassecreto. Mas as garantias não tranquilizaram o Pentágono, que teme a ascensão dos radicais.
"O Paquistão precisa demonstrar seu compromisso em eliminar a Al Qaeda e extremistas violentos de sua fronteira", cobrou nesta terça-feira Holbrooke.
"A evolução do quadro paquistanês é potencialmente a situação internacional mais perigosa desde a crise dos mísseis em 1962", compara Robert Blackwill, embaixador na Índia sob o governo de George W. Bush. Na época, a instalação de mísseis soviéticos em Cuba, em retaliação a ato similar dos EUA na Turquia, quase levou o mundo a uma guerra nuclear.
Antes restrito às zonas tribais fronteiriças, o Taleban ganha força no Paquistão, assolado por atentados desde o segundo semestre de 2007. A rejeição popular à aliança com os EUA e o fluxo de radicais, expulsos pela ofensiva do Afeganistão, contribuem para desestabilizar o governo, que enfrenta ainda grave crise econômica.
Vale conflagrado
A conquista do distrito de Buner, vizinho ao Swat e englobado pelo cessar-fogo, consolidou no mês passado o avanço do Taleban, que tomou áreas a apenas 100 km da capital. Criticado pela demora em reagir, o Exército lançou no dia 26 ofensiva contra o grupo extremista.
A "pausa operacional" visava apenas permitir negociações locais, segundo os militares. Os combates foram retomados após fracasso do acordo para a retirada do Taleban, anunciado por líderes tribais, que tentavam salvar o pacto pró-sharia.
Temendo uma escalada da ofensiva, que já matou 180 insurgentes segundo o Exército, a população tem deixado maciçamente a região do Swat. A zona conflagrada é importante para o abastecimento das tropas ocidentais no Afeganistão, que recebem até 70% dos suprimentos por terra, via cinturão tribal paquistanês.
Contrariado pela ofensiva, o clérigo radical Sufi Muhammad, artífice do cessar-fogo no Swat, suspendeu a mediação.
Com o "Financial Times" e agências internacionais
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