Mundo
07/05/2009 - 08h19

Argentina levará mais 15 anos julgando repressores, diz ONG

Publicidade

THIAGO GUIMARÃES
da Folha de S. Paulo, em Buenos Aires

Embora os julgamentos de crimes da última ditadura argentina (1976-1983) tenham avançado em 2008, com 30 condenações, se o atual ritmo for mantido, os processos em curso terminarão só em 2024.

O alerta é da ONG Cels (Centro de Estudos Legais e Sociais), que divulgou nesta terça-feira seu informe anual sobre a situação dos direitos humanos na Argentina. A idade avançada da maioria dos 1.235 processados pelos crimes --e também dos familiares das vítimas-- ameaça a eficácia das causas, retomadas no governo Néstor Kirchner (2003-2007).

"Apesar da reabertura dos julgamentos, vivemos um legado de impunidade", afirmou Gastón Chiller, diretor-executivo do Cels. Desde a retomada dos processos, 187 ex-integrantes do regime militar (15% do total de processados) morreram impunes, segundo a ONG.

O informe registra 182 processos em curso no país por crimes da ditadura, tais como privação ilegal de liberdade, homicídio e tortura. Do total de 182 causas, houve sentença em apenas 12 -6% do total-, e 80% estão em fase inicial de instrução. O governo já confirmou 12 mil mortos ou desaparecidos durante a ditadura, de 30 mil casos relatados.

O estudo aponta uma "generalizada sensação de impunidade no país", produzida por fatores como lentidão da Justiça, manobras protelatórias de acusados, falta de segurança a testemunhas, debilidade no controle de presos e existência de foragidos.

De 1.235 acusados, 454 (37%) estão presos, e 46 (4%), foragidos. As forças com mais acusados são Exército (34%), polícias estaduais (24%) e Marinha (13%). O número de civis acusados (8,5%) supera o de corporações como polícia de fronteira e serviço penitenciário.

O ano de 2008, aponta o Cels, foi o de maior número de sentenças: de 40 condenações desde a reabertura das causas, 30 (77%) foram no ano passado. Houve ainda 194 novos processados -para a ONG, sinal de que a identificação de mais responsáveis ainda está ativa.

O subsecretário de Direitos Humanos da Argentina, Luis Alem, disse que o governo Cristina Kirchner está "firmemente comprometido" com os julgamentos. Afirmou que o Executivo vem denunciando "juízes que conspiram contra o avanço" dos processos.

A Justiça argentina aponta falta de recursos e formou neste ano uma comissão para tentar apressar as causas.

 

FolhaShop

Digite produto
ou marca