Cristina Kirchner escala força total para eleições na Argentina
THIAGO GUIMARÃES
da Folha de S.Paulo, em Buenos Aires
A campanha rumo às eleições legislativas argentinas entra nesta semana em fase decisiva, aberta anteontem com o registro das candidaturas e a confirmação de que o governo apostará seu futuro político nas urnas, com o ex-presidente Néstor Kirchner (2003-2007) como principal candidato.
Independentemente do resultado, que pode selar o fim da maioria governista no Congresso, serão eleições marcadas pela estratégia do governo, que adiantou o pleito em quatro meses e introduziu uma nova atitude política, lançando integrantes do Executivo a cargos legislativos que não assumirão --ou seja, apenas para puxar votos e "defender o modelo" kirchnerista.
Para uma eleição que renova metade da Câmara de Deputados (127 de 257) e um terço do Senado (24 de 72), o governo põe todas suas fichas na Província de Buenos Aires, maior distrito eleitoral, com 37% dos votantes. Reedita ali a fórmula presidencial de 2003, com lista de candidatos à Câmara encabeçada por Kirchner e pelo governador da Província e ex-vice-presidente, Daniel Scioli.
O voto para a Câmara argentina é dado aos partidos, que fazem listas fechadas com uma ordem predeterminada --por exemplo, se uma legenda obtiver votos suficientes para eleger dez deputados, serão eleitos os dez primeiros da lista. Daí a importância dos cabeças de chapa para atrair votos.
Com popularidade em queda desde a posse --hoje sua aprovação é de 30%--, a presidente Cristina Kirchner justificou a antecipação do pleito como forma de evitar instabilidade política em meio à crise mundial. Néstor afirma que as candidaturas de integrantes do Executivo são uma forma de "pôr a cara" em frente ao projeto.
Os kirchneristas apostam tudo na Província de Buenos Aires, para compensar prováveis derrotas nos outros quatro maiores distritos (capital, Santa Fé, Córdoba e Mendoza), que somam 31% do eleitorado nacional, e manter a maioria na Câmara dos Deputados.
Os prefeitos terão papel fundamental na estratégia provincial do governo --45 (de 134) deles estarão à frente de listas para vereador em suas cidades. Assim o kirchnerismo puxa votos de "baixo para cima" --cada partido tem sua própria cédula, com candidatos para todos os postos-- e evita traições. "Os prefeitos potencializam as listas governistas em 2 a 5 pontos na maioria dos distritos", disse à Folha Doris Capurro, da consultora Ibarómetro.
| Reuters | ||
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| O ex-presidente argentino Néstor Kirchner (2003-2007), candidato a uma vaga na Câmara, nas eleições de junho |
Pesquisas
O tom de plebiscito da campanha já foi dado por Kirchner, que desde o verão percorre semanalmente a Província em comícios partidários, tática que agora cedeu lugar a caminhadas. Reivindica os seis anos de gestão kirchnerista em contraposição ao "modelo neoliberal" dos anos 90 e identifica a oposição com a crise de 2001-02.
Pesquisas obtidas pela Folha antecipam uma eleição disputada na Província. Dois levantamentos mostram resultados diferentes, com acirramento entre as opções governista e a do peronismo dissidente.
Enquanto para o Ibarómetro a lista encabeçada por Néstor Kirchner e Daniel Scioli lidera com 40% das intenções de voto, seguida pela Unión PRO de Francisco de Narváez e Felipe Solá, com 28,8%, a Management & Fit registrou vantagem de cinco pontos para a frente opositora: 26,8% a 21,5%.
Em ambas as pesquisas o terceiro lugar fica com a lista de Margarita Stolbizer e Ricardo Alfonsín, da aliança entre radicais, Coalizão Cívica e Consenso Federal (partido do vice-presidente, Julio Cobos) --16,9% pelo Ibarómetro e 19,5% na medição da Management & Fit. A eleição de 28 de junho renova metade da Câmara eleita em 2005, quando o governo obteve vitória contundente na Província de Buenos Aires, com 43% dos votos. Na ocasião, ironicamente, a puxadora de votos era a hoje presidente, que concorreu ao Senado.
Das 35 cadeiras em disputa na Província, 20 são governistas. Hoje o governo tem 115 das 257 cadeiras na Câmara e alcança a maioria com 15 aliados.
| Arte/Folha | ||
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