Cristina Kirchner questiona Chávez sobre privilégio a empresas brasileiras
colaboração para a Folha Online
Atualizado às 19h17.
A presidente argentina, Cristina Kirchner, pediu nesta quarta-feira a seu colega venezuelano, Hugo Chávez, que esclareça se as empresas brasileiras ficarão de fora do processo de nacionalizações na Venezuela, enquanto empresas da Argentina estão sendo afetadas, informou nesta quarta-feira a agência oficial Télam.
"Uma afirmação desse teor --se existiu-- envolveria um grau de discriminação e discricionariedade que excede a esfera da soberania própria de cada Estado independente", afirmou a presidente, segundo um documento divulgado pela agência do Estado argentino.
Chávez havia dito em tom jocoso ao presidente brasileiro, Luiz Inácio Lula da Silva, que a Venezuela passava por uma fase de "nacionalizações, menos das empresas brasileiras", segundo indicaram jornalistas, que cobriam o encontro entre os dois presidentes na terça-feira em Salvador.
A frase de Chávez provocou uma gargalhada geral na reunião e foi ouvido pela imprensa devido a um erro da organização do evento, que deixou o som dos microfones ligado para a sala de imprensa.
Em Buenos Aires, as maiores câmaras empresariais da Argentina condenaram com dureza a nacionalização na Venezuela de três empresas siderúrgicas das quais o grupo argentino Techint é acionista.
A poderosa União Industrial Argentina (UIA) foi mais longe ao exigir na terça-feira que, em represália, seja impedido o ingresso da Venezuela como membro pleno do Mercosul.
Kirchner acrescentou: se a declaração de Chávez for verdadeira "seria uma atitude inaceitável por parte de Estados democráticos de Direito, além de ser absolutamente contraditório com os acordos estratégicos que nosso país celebrou com a República Bolivariana da Venezuela".
A decisão de Chávez de estatizar as três empresas, que seguiram a da Ternium-Sidor, outra forte companhia do grupo Techint, gerou descontentamento do setor empresarial argentino em relação ao governo Kirchner em meio à campanha para as eleições legislativas de 28 de junho.
Aliado
Movido pelos altos preços do petróleo nos últimos anos, antes da queda a partir de setembro de 2008 devido à crise financeira internacional, Chávez liderou uma diplomacia regional baseada em exportação de petróleo a preços subsidiados e, no caso da Argentina, na compra de títulos da dívida.
Para os argentinos a ajuda foi especialmente importante, porque Chávez comprou centenas de milhões de dólares em bônus argentinos quando esses títulos sofriam com a rejeição no mercado internacional devido ao calote de 2001-02.
O apoio aos Kirchner pode ter ido ainda mais longe. Em 2007, uma mala com US$ 800 mil (cerca de R$ 1,9 milhão) foi confiscada na Argentina, em meio à campanha eleitoral em que Cristina foi eleita para suceder o marido Nestor no comando do país.
Evidências mostraram que o dinheiro era uma contribuição do governo da Venezuela para a campanha Cristina, e suspeitos alegaram que o dinheiro vinha de uma empresa de petróleo estatal da Venezuela, mas os dois presidentes negaram envolvimento com o episódio.
Em visita a Cristina, no último dia 15, Chávez atribuiu a recuperação argentina após a crise de 2001 à gestão de Néstor Kirchner, candidato a deputado nas eleições de julho, que renovarão metade da Câmara e um terço do Senado. Mas o presidente venezuelano disse não estar interferindo nas questões internas da Argentina. "É o povo argentino quem apoia ou não", disse ele.
Com France Presse
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