Mundo
17/06/2009 - 08h32

No poder, rival de Ahmadinejad pode enfraquecer aiatolá, diz historiadora

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IAGO BOLÍVAR
colaboração para a Folha Online

A historiadora iraniana Guity Nashat, professora da Universidade de Illinois (EUA) e membro do think tank Hoover Institution, disse nesta terça-feira, em São Paulo, que as manifestações no Irã contra a reeleição do presidente Mahmoud Ahmadinejad dão impulso à aliança entre os líderes que apostam na reforma das instituições iranianas por meio da diminuição do poder do líder supremo do país, Ali Khamenei.

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Há cinco dias, manifestações com milhares de pessoas em Teerã e outras, menores, em cidades como Machhad, Ispahan e Shiraz contestam o resultado da eleição de sexta-feira, cujo resultado oficial, divulgado em tempo recorde, apontou a vitória em primeiro turno do presidente. O reformista Mir Hossein Mousavi, que ficou em segundo lugar, denuncia fraude e pede uma nova eleição.

Morteza Farajabadi/Stewart Innes/Morteza Nikoubazl/AP/Efe/Reuters
Da esquerda para a direita: Khamenei, Rafsanjani e Mousavi; disputa sobre eleição opõe antigas figuras do regime islâmico
Da esquerda para a direita: Khamenei, Rafsanjani e Mousavi; disputa sobre eleição opõe antigas figuras do regime islâmico

O apoio do ex-presidente Ali Akbar Hashemi Rafsanjani (1989-1997) a Mousavi é visto pela historiadora iraniana radicada nos Estados Unidos como sinal de aliança entre os maiores líderes reformistas do país contra o domínio do principal aliado de Ahmadinejad, o líder supremo Khamenei, a quem a Constituição confere o controle sobre as Forças Armadas e a política externa, além do poder de interferir em qualquer questão que considere fundamental.

Derrotado por Ahmadinejad na eleição de 2005, Rafsanjani comanda dois órgãos-chave na estrutura de poder do país: o Conselho de Discernimento --que gerencia conflitos entre o Parlamento e o poderoso Conselho dos Guardiães-- e o Conselho de Especialistas, a assembleia de clérigos eleita para mandatos de oito anos que tem a função de escolher, e teoricamente até destituir, o líder supremo.

Um sinal de questionamento do poder de Khamenei, aponta a historiadora, foi a carta aberta enviada no sábado (13) por Mousavi a clérigos da cidade santa de Qom --o centro religioso do país, chamado de "Vaticano xiita"--, advertindo para o possível enfraquecimento do regime islâmico no caso de conivência com fraudes eleitorais. "Apelar para os grandes aiatolás foi como dizer que ele não aceita o comando religioso total do líder supremo", afirmou Nashat.

Esse movimento, aliado às manifestações de rua, deixou Khamenei "nervoso", segundo a iraniana, o que explicaria a abertura sem precedentes para que o Conselho dos Guardiães --misto de tribunal superior e Senado-- analisasse as denúncias de fraude em uma eleição que o próprio líder supremo classificara, no sábado, como "divina".

Bases políticas

Para a historiadora, a ligação cada vez mais explícita entre Ahmadinejad e o líder supremo ocorre porque, embora devesse ser neutro na disputa, Khamenei tem aliados espalhados em uma longa cadeia de indicações para cargos em empresas estatais e órgãos do governo que são mais próximos da linha-dura do atual presidente --um conservador religioso com laços na Guarda Revolucionária e em seu braço popular, a milícia islâmica Basij.

Mas mesmo partes de forças tradicionalmente conservadoras e religiosas parecem ter se voltado contra o governo, diz a iraniana, citando como exemplo a classe dos comerciantes, atingida pela crise econômica e pelas restrições aos negócios impostas por Ahmadinejad.

Entre os que torcem por Mousavi estão, segundo a historiadora, além da classe média alta do Irã e dos jovens -- setores que estiveram por trás do sucesso dos candidatos reformistas que chegaram ao poder no país, como o presidente Mohammad Khatami (1997-2005)--, muitas pessoas religiosas e setores, ainda que minoritários, da Guarda Revolucionária e do clero islâmico.

Isso em parte se explica porque os líderes hoje chamados de reformistas nada têm de outsiders. O próprio candidato que tem empolgado a juventude foi primeiro-ministro entre 1981 e 1989, durante a Guerra Irã-Iraque, governando sob o comando do aiatolá Ruhollah Khomeini, o líder da Revolução Islâmica. Rafsanjani é um aiatolá --embora de um nível mais baixo na hierarquia religiosa xiita que Khamenei.

Uma das manifestações do alinhamento de forças entre as intrincadas estruturas de poder do Estado iraniano foi o ataque feito pelo presidente a Rafsanjani no debate presidencial transmitido pela TV durante a campanha.

Ahmadinejad expressou ao vivo, para uma audiência de mais de 40 milhões de pessoas, as acusações de corrupção contra a família Rafsanjani que há anos fazem parte de conversas em voz baixa no Irã. Em 2003, a revista americana "Forbes" listou Rafsanjani, que nasceu em uma família de pequenos agricultores, como um dos homens mais ricos do país.

Após a acusação, o ex-presidente pediu a interferência do líder supremo, e 14 altos clérigos de Qom denunciaram Ahmadinejad por "falar mal pelas costas" de rivais ausentes, o que contraria os princípios do islã.

Economia

A historiadora, que participou de um seminário nesta terça-feira no Instituto Fernand Braudel de Economia Mundial, diz que a reação contrária à reeleição de Ahmadinejad é motivada, entre outros fatores, pela incompetência econômica do presidente. A inflação está acima de 20% e o desemprego atinge até 25% da população, principalmente os mais jovens, segundo dados extraoficiais.

A própria crise não permite ao governo "comprar" apoio suficiente entre os mais pobres, diz a historiadora, para quem esses fatores, mais o desejo dos jovens de suspender restrições ao comportamento que se tornaram mais duras sob o atual governo, tornam difícil uma solução para o atual conflito por meio da simples repressão.

Segundo ela, o novo governo iraniano --seja comandado por Ahmadinejad ou por Mousavi--, terá uma política tanto externa quanto interna menos agressiva que a atual. "Eles não vão poder ignorar as manifestações da rua por mais abertura no país", avalia. Ela disse que se ficar claro que o Irã caminha para uma ditadura, a reação não será contida.

"Os gritos de 'morte ao ditador' ouvidos nos protestos mostram isso. A Revolução Islâmica [em 1979, que derrubou o regime do xá Reza Pahlevi] foi um levante contra uma ditadura de verdade", diz a historiadora, que teve parentes trabalhando para o regime de Pahlevi.

Comentários dos leitores
Valentin Makovski (217) 03/11/2009 15h23
Valentin Makovski (217) 03/11/2009 15h23
Eu não duvido de nada, se os EUA em alguns anos, implantarem algumas bases de mísseis de longo alcance no Iraque, pois estão lá e tem mais de 100 mil soldados, agora lógico. A Russia esta fazendo o mesmo apoio ao Irã, Pra ser mais exato, a guerra fria ainda não acabou só mudou de época. Lógico com vantagem dos EUA, mas a Russia tem seus prô e contras, ainda tem tecnologia suficiente e possui o maior arsenal de bombas atômicas. EUA estão no paquistão não para combater o Taliban, estão presentes numa região que demanda conflitos eternos, e que sempre terá um para vender armas, e tecnologia. Sabemos de praxe Srs (as) que guerras são grande negócios, em valores astronômicos. Antes não se dava ênfase á aquela região, hoje em dia a região é estratégica para as super potencias, envolve muito dinheiro e conflitos a vista. Por isso tanto interesse e tanta movimentação bélica. sem opinião
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J. R. (1126) 18/10/2009 13h21
J. R. (1126) 18/10/2009 13h21
RU treina soldados iraquianos para proteger seus poços de petróleo.
"O Parlamento iraquiano aprovou nesta terça-feira um acordo de cooperação marítima com o Reino Unido que permitirá o retorno de entre cem e 150 soldados britânicos ao sul do país árabe, para ajudar a treinar a Marinha iraquiana e proteger as instalações petrolíferas."
Este é o sinal obvio que os ingleses se apossaram das companhias de petróleo iraquianas após enforcarem Sadam Hussein e colocarem "testas de ferro e laranjas" da nova elite iraquiana. Como se não bastasse o exército iraquiano vigiará os poços para eles. Provavelmente, após o saque ao tesouro iraquiano, no lugar de ouro e outras moedas, os corsários os encheram de dólares cheirando a tinta. O Irã deve abrir bem os olhos, pois isso é o que é pretendido para eles também. É bom que a revolução dos aiatolás comece a educar seu povo maciçamente, a fim de não facilitar a invasão dos inimigos que sempre contam com que o povo esteja na ignorância.
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J. R. (1126) 28/09/2009 14h07
J. R. (1126) 28/09/2009 14h07
Alguns não querem que o Brasil se aproxime do Irã, outros não querem que se aproxime do criminoso Israel, porém lembrem-se que estão num país que não tem rabo preso. O presidente do Irã virá, o ministro de Israel, Kadafi, Obama. Isso é liberdade e autodeterminação. De que adianta essa panacéia com relação ao mundo árabe? Nada. 1 opinião
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