Mundo
21/06/2009 - 08h46

Planalto reinterpreta fala de Lula sobre pleito iraniano

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CLAUDIA ANTUNES
da Folha de S.Paulo, no Rio

Enquanto a polarização política no Irã aumenta o debate sobre o tom mais adequado das reações de governos estrangeiros, o Planalto tenta relativizar as declarações feitas pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva --que comparou a oposição iraniana a uma torcida de futebol perdedora-- e afirma que o Brasil ainda não tem posição final sobre o tema.

"Nós temos que observar. O governo, informado pela embaixada, fará suas análises. Vamos discutir isso com o presidente, e isso vai servir para orientar nossa postura concreta", diz Marco Aurélio Garcia, assessor para assuntos internacionais da Presidência.

Ele não quis adiantar o que o governo fará caso o confronto entre linha dura e reformistas resulte em mais violência: "Vamos ver. Pode ter certeza de que o Brasil não vai se omitir". Ao mesmo tempo, reitera que a orientação "não é ficar distribuindo certificado [de comportamento democrático]".

"Se você começa a distribuir certificado, esses países vão se fechar, isso será usado como um argumento conservador-nacionalista."

Garcia estava com Lula em Genebra na segunda-feira passada, quando o presidente, mesmo ressalvando que esperava mais informações, disse ter a impressão de que era "protesto de quem perdeu" a reação opositora à proclamação da vitória do presidente iraniano, Mahmoud Ahmadinejad.

Questionado então se o Brasil reconhecia a reeleição de Ahmadinejad, o chanceler Celso Amorim disse que era preciso aguardar. Mas Lula depois reafirmou que achava difícil que tivesse havido fraude, dada a vantagem de 30 pontos do vencedor na contagem oficial.

Exceção

O Brasil não costuma se pronunciar de maneira tão direta sobre a política interna alheia, e as frases de Lula causaram críticas e estranheza.

Antônio Carlos Lessa, professor do Instituto de Relações Internacionais da UnB (Universidade de Brasília), acha que a posição adequada no caso seria aguardar o desfecho da crise. "É um assunto interno do Irã, e o Brasil não tem motivos para se pronunciar. O desejável seriam manifestações menos específicas, como afirmar que a verdadeira vontade dos eleitores deve ser respeitada."

Também da UnB, Eduardo Viola se diz perplexo -"foi a única democracia que reagiu assim"- e recomenda fórmula parecida. Ele considera que de fato houve fraude, mas que apontá-la de fora "daria argumentos à linha dura".

Já Maria Regina Soares de Lima, do Iuperj (Instituto Universitário de Pesquisas do Rio), defende Lula. Para ela, o presidente quis indicar que "não se poderia lutar contra um resultado" eleitoral. "A frase tem que ser colocada no contexto de uma política externa de não intervenção."

A professora diz que a polêmica baseia-se na "visão equivocada" de que o Brasil poderia evitar relacionar-se com governos "complicados". "Se o Brasil pretende ter um papel internacional, terá de ter relações com países cujo sistema político não é igual ao nosso."

Marco Aurélio Garcia argumenta que Lula trabalhava com a "posição ponderada" do governo americano e com declarações de Javier Solana, chefe da diplomacia da União Europeia --que, em visita ao Egito, dissera que "a análise das eleições levará algum tempo".

Mas, no mesmo dia, o Conselho Europeu divulgou nota em que, sem tomar partido sobre o resultado eleitoral, dizia-se "seriamente preocupado com o uso da força contra manifestantes pacíficos". Logo depois, o presidente francês, Nicolas Sarkozy, falou em "fraude".

Na ocasião, Sarkozy acabava de voltar do enterro do ditador Omar Bongo, que governou por 41 anos o Gabão, Estado-cliente da França. A coincidência mostra como é difícil manter coerência quando um país tem relações globais. "Em todas as grandes potências há contradições entre o interesse nacional imediato e os valores", comenta Viola.

Marco Aurélio Garcia rejeita a comparação entre a posição de Lula e a do venezuelano Hugo Chávez, que manifestou solidariedade a Ahmadinejad ante o "ataque do capitalismo mundial" --a linha dura iraniana atribui os protestos, cujos líderes fazem parte da elite do regime, a orquestração externa. "Não há uma aliança estratégica Brasil-Irã, nem isso está em perspectiva", disse Garcia.

Comentários dos leitores
Valentin Makovski (217) 03/11/2009 15h23
Valentin Makovski (217) 03/11/2009 15h23
Eu não duvido de nada, se os EUA em alguns anos, implantarem algumas bases de mísseis de longo alcance no Iraque, pois estão lá e tem mais de 100 mil soldados, agora lógico. A Russia esta fazendo o mesmo apoio ao Irã, Pra ser mais exato, a guerra fria ainda não acabou só mudou de época. Lógico com vantagem dos EUA, mas a Russia tem seus prô e contras, ainda tem tecnologia suficiente e possui o maior arsenal de bombas atômicas. EUA estão no paquistão não para combater o Taliban, estão presentes numa região que demanda conflitos eternos, e que sempre terá um para vender armas, e tecnologia. Sabemos de praxe Srs (as) que guerras são grande negócios, em valores astronômicos. Antes não se dava ênfase á aquela região, hoje em dia a região é estratégica para as super potencias, envolve muito dinheiro e conflitos a vista. Por isso tanto interesse e tanta movimentação bélica. sem opinião
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J. R. (1126) 18/10/2009 13h21
J. R. (1126) 18/10/2009 13h21
RU treina soldados iraquianos para proteger seus poços de petróleo.
"O Parlamento iraquiano aprovou nesta terça-feira um acordo de cooperação marítima com o Reino Unido que permitirá o retorno de entre cem e 150 soldados britânicos ao sul do país árabe, para ajudar a treinar a Marinha iraquiana e proteger as instalações petrolíferas."
Este é o sinal obvio que os ingleses se apossaram das companhias de petróleo iraquianas após enforcarem Sadam Hussein e colocarem "testas de ferro e laranjas" da nova elite iraquiana. Como se não bastasse o exército iraquiano vigiará os poços para eles. Provavelmente, após o saque ao tesouro iraquiano, no lugar de ouro e outras moedas, os corsários os encheram de dólares cheirando a tinta. O Irã deve abrir bem os olhos, pois isso é o que é pretendido para eles também. É bom que a revolução dos aiatolás comece a educar seu povo maciçamente, a fim de não facilitar a invasão dos inimigos que sempre contam com que o povo esteja na ignorância.
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J. R. (1126) 28/09/2009 14h07
J. R. (1126) 28/09/2009 14h07
Alguns não querem que o Brasil se aproxime do Irã, outros não querem que se aproxime do criminoso Israel, porém lembrem-se que estão num país que não tem rabo preso. O presidente do Irã virá, o ministro de Israel, Kadafi, Obama. Isso é liberdade e autodeterminação. De que adianta essa panacéia com relação ao mundo árabe? Nada. 1 opinião
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