Irã prende britânicos por conexão com protestos da oposição
da Folha Online
O ministro de Inteligência iraniano, Gholam Hussein Mohseni Ejehei, anunciou nesta quarta-feira que cidadãos com passaporte do Reino Unido foram detidos por suposta relação com os protestos que há dez dias ocupam as ruas da capital Teerã contra fraude na votação que reelegeu o ultraconservador presidente Mahmoud Ahmadinejad.
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"O Reino Unido faz parte do grupo de países que instigou os problemas com sua propaganda e seus atos contra as regras diplomáticas", afirmou Ejehie, citado pela agência de notícias local Fars. Ele não informou o nome das pessoas detidas ou mesmo quantas foram presas pelas forças de segurança.
"A rede [de televisão britânica] BBC em persa e pessoas com passaporte do Reino Unido estavam envolvidas nos distúrbios", declarou o ministro, para quem os protestos obedecem a um plano orquestrado "dois meses antes das eleições".
"Grupos antirrevolucionarios entraram no país nas semanas anteriores ao pleito e foram detidos durante os distúrbios. Um destes detidos se passava por jornalista e, desta forma, reunia dados para os inimigos", explicou o ministro.
Ainda de acordo com Ejehei, aqueles que pediram ao povo para sair às ruas "e descumpriram a lei são responsáveis pelo "derramamento de sangue" --uma clara alusão aos líderes opositores Mir Hossein Mousavi e Mehdi Karubi.
Mousavi denuncia irregularidades e fraude nos resultados da eleição presidencial que, segundo o Ministério do Interior, resultou na reeleição de Ahmadinejad com cerca de 63% dos votos contra 34% do reformista.
Depois do anúncio dos resultados em 13 de junho, milhares de partidários de Mousavi saíram às ruas para protestar. Segundo números oficiais, ao menos 20 morreram em confrontos entre manifestantes e as forças de segurança iranianas.
Ejehei afirmou ainda, segundo a CNN, que alguns estrangeiros com ligação com o Ocidente e Israel planejaram atentados a bomba no dia da eleição, 12 de junho.
"A Inglaterra está entre os países que agrava as chamas com sua propaganda pesada, o que está contra todas as normas diplomáticas", disse o ministro.
O escritório de Relações Exteriores britânico afirmou que avalia as acusações. "Nós vimos relatos da prisão de britânicos no Irã. Colegas consulares e na embaixada em Teerã estão investigando", disse o escritório.
Tensão
O governo iraniano adotou um discurso duro contra os países estrangeiros, em especial EUA e Reino Unido, acusados de incentivar os distúrbios no país --que já deixaram 20 mortos.
No domingo (21), o Irã expulsou o correspondente permanente da rede BBC em Teerã, Jon Leyne, e deteve o enviado da revista americana "Newsweek" Maziar Bahari, que tem passaporte canadense. Nesta terça-feira, o correspondente grego do "The Washington Times" e de pelo menos 20 jornalistas iranianos foram detidos no país.
Teerã afirmou nesta quarta-feira que vai, temporariamente, convocar seu embaixador em Londres e que estuda reduzir o nível das relações bilaterais.
O ministro iraniano das Relações Exteriores, Manuchehr Mottaki, afirmou que Teerã cogita reduzir o nível das relações como retaliação pelo Reino Unido supostamente interferir na crise política causada pela reeleição do presidente.
A declaração do ministro iraniano, citado pela agência Isna, vem um dia após após a expulsão de dois diplomatas britânicos de Teerã --medida que foi seguida pela expulsão de dois diplomatas iranianos da embaixada do país em Londres.
Em Londres, a porta-voz do Ministério de Relações Exteriores afirmou que a decisão do Irã de "transformar uma crise interna em um conflito com o Reino Unido não tem fundamento em fatos".
Crise interna
Enquanto agrava o discurso contra a comunidade internacional, Teerã aguarda mais um dia de protesto pacífico convocado por Mousavi para esta quarta-feira, na frente do Parlamento.
Mousavi publicou um texto em seu site no qual convoca seus partidários para um protesto pacífico. A convocação foi distribuída em correntes de e-mails, única forma de comunicação viável diante da censura imposta pelas autoridades iranianas aos jornais estrangeiros e à mídia on-line e blogs.
Também nesta quarta-feira, o líder supremo iraniano, o aiatolá Ali Khamenei, afirmou que as autoridades não cederão à onda de manifestações da oposição.
"Nos recentes incidentes que envolvem a eleição, eu venho insistindo na aplicação da lei e continuarei. Isso significa que não iremos além do âmbito da lei", disse Khamenei, em um possível recado contra as críticas internacionais sobre abuso do uso da força e violência pelas forças de segurança na contenção dos protestos.
"Nem o sistema, nem o povo vão ceder pela força", declarou.
Com agências internacionais
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