Mundo
24/06/2009 - 22h52

Líder da oposição e aiatolá aliado reúnem-se com deputados no Irã

Publicidade

colaboração para a Folha Online

Em um dia no qual as forças de segurança do Irã deram mais uma mostra de controle sobre as ruas de Teerã, tomadas até sábado passado por protestos contra a eleição presidencial do dia 12, o líder da oposição, o candidato reformista Mir Hossein Mousavi movimentou-se nos bastidores, ao lado de seu mais importante aliado, o aiatolá Ali Akbar Hashemi Rafsanjani. Os dois reuniram-se com influentes deputados nesta quarta-feira, informou a agência de notícias semioficial iraniana Fars.

Conheça os indícios da suposta fraude na eleição
Líder supremo está acima do presidente; entenda
Golpe e revolução marcam o último século no Irã
Correntes alternam-se na Presidência desde 1979

A agência informou apenas que eles discutiram com os deputados "a eleição e os últimos acontecimentos". Não ficou claro se os dois estavam tentando fazer as pazes com o Parlamento --dominado pelos linha-dura aliados de Ahmadinejad-- ou tentando ganhar o apoio deles para a contestação à reeleição do presidente.

Um pragmático, o ex-presidente Rafsanjani é um dos homens mais poderosos do país e um adversário ferrenho do presidente Mahmoud Ahmadinejad --declarado oficialmente o vencedor da eleição presidencial, apesar das denúncias de fraude da oposição.

Além de ser aiatolá --autoridade religiosa xiita-- Rafsanjani comanda dois órgãos importantes na estrutura de poder do Irã, o Conselho de Discernimento, que medeia conflitos entre o Parlamento e o influente Conselho dos Guardiães, e o Conselho de Especialistas, que tem a função de escolher, e teoricamente até destituir, o líder supremo do país.

Enquanto o líder supremo, o aiatolá Ali Khamanei, abandonou sua protocolar neutralidade e declarou na última sexta-feira, durante sermão na Universidade de Teerã, que a vitória de Ahamdinejad é definitiva, Rafsanjani movimentou-se entre o clero islâmico, principalmente na cidade sagrada de Qom, em busca de apoio para Mosavi, de acordo com relatos de vários jornais.

Filho de um pequeno agricultor, Rafsanjani tira seu poder também de sua grande fortuna, o que foi usado para atingir a candidatura de Mousavi por Ahmadinejad durante um debate televisivo. O presidente acusou Rafsanjani de ser corrupto, o que levou um grupo de altos clérigos a censurar o presidente por ter atacado uma importante figura do regime e um veterano da Revolução Islâmica, de 1979. Ahmadinejad chegou ao poder em 2005 depois de derrotar Rafsanjani, que tentava voltar à Presidência.

O aiatolá Khamenei também se reuniu com deputados nesta quarta-feira. Em referência aos protestos, considerados ilegais pelo governo, ele repetiu a um grande número de parlamentares pontos de seu sermão da última sexta, afirmando que a lei do país deve ser respeitada e que a permissão para que a lei seja ignorada seria o início da ditadura no país.

"Na atual situação a respeito da eleição presidencial, insisto sobre a aplicação da lei. Isso significa que não vamos dar um único passo para além da lei. Com certeza, nem o sistema nem as pessoas vão ceder à pressão a qualquer preço", afirmou.

Em frente ao Parlamento, centenas de manifestantes entraram em confronto nesta quarta-feira com a polícia e milícias paramilitares.

Tropas de choque e grupos de milicianos islâmicos Basij, ligados à Guarda Revolucionária, usaram gás lacrimogêneo e cassetetes para dispersar grupos de pessoas que levantavam os braços e clamavam "Alahu Akbar" ("Deus é grande").

Depois do anúncio dos resultados em 13 de junho, milhares de partidários de Mousavi saíram às ruas para protestar. Segundo números oficiais, ao menos 20 morreram em confrontos entre manifestantes e as forças de segurança iranianas. Mas os protestos reduziram--se drasticamente desde sábado, quando morreram mais de dez pessoas em uma grande operação de repressão feita pela polícia e pela milícia.

As testemunhas relatam que centenas de manifestantes tentaram se reunir em frente ao protesto em resposta à convocação de Mousavi, que pediu um protesto pacífico. Eles encontraram a polícia e os paramilitares no local, que logo lançaram bombas de gás contra os oposicionistas. Mousavi deveria fazer um discurso para os manifestantes, mas, segundo os testemunhos, ele não apareceu.

Mesmo os gritos de "Deus é Grande" e "Morte ao Ditador", que marcaram as noites de Teerã na última semana, passaram a ser ouvidos em menos locais, e terminaram mais cedo.

Apoiadores de Mousavi anunciaram que planejam lançar na sexta-feira milhares de balões com a mensagem "Neda você permanecerá sempre em nossos corações" --uma referência à jovem que se tornou um ícone dos protestos depois que as imagens de sua morte foram divulgadas pela internet.

 

FolhaShop

Digite produto
ou marca