Morales acusa Obama de mentir por encerrar acordo que causará demissões
colaboração para a Folha Online
O presidente da Bolívia, Evo Morales, acusou nesta quarta-feira o presidente americano, Barack Obama, de ter mentido ao dizer que ia encerrar o intervencionismo dos Estados Unidos na América Latina e, em seguida, ter mantido a suspensão de benefícios comerciais que garantiam uma receita de US$ 25 milhões por ano aos bolivianos. A Bolívia teme que a decisão americana custe milhares de empregos no país.
O Representante Comercial dos EUA anunciou nesta terça-feira que estava encerrando os benefícios de importação de produtos bolivianos porque, segundo ele, o terceiro maior produtor de cocaína do mundo não faz o suficiente na luta contra as drogas, deixando o cultivo de coca sem combate. Os benefícios faziam parte da Lei de Preferências Comerciais Andinas (ATPA), aprovada em 1991, que previa, em troca de isenção alfandegária, colaboração dos países da região com agentes antidrogas americanos.
Morales, ex-líder cocaleiro, disse aos jornalistas que a manutenção das tarifas desmente a promessa feita por Obama durante a Cúpula das Américas, em abril, de ser um parceiro mais do que um supervisor dos países da região.
"O presidente Obama mentiu para a América Latina, quando ele nos disse, em Trinidad e Tobago que não existem parceiros principais e secundários", disse Morales. "Quero dizer, com muito respeito ao presidente Obama: se nos EUA mudou a fisionomia dos governantes, não mudaram as políticas do império."
Os EUA estão prorrogando a isenção tarifária para o Equador por mais seis meses, como parte da Lei de Preferências Comerciais Andinas (ATPA), mas os privilégios equatorianos, assim como os do Peru e da Colômbia devem expirar no fim deste ano.
Os países andinos produtores de cocaína ou que servem de corredores para o tráfico da droga foram autorizados a exportar milhares de produtos para os Estados Unidos com isenção de impostos desde 1991. A esperança americana era de que as receitas das exportações legais ajudariam a tirar os camponeses da cultura da coca, mas isso não aconteceu.
Sem alternativas
Morales tachou de "calúnias, mentiras e falsas acusações" os argumentos expostos pelo governo de Obama para suspender as preferências tarifárias à Bolívia.
A suspensão tinha sido determinada pelo governo de George W. Bush (2001-2009), em dezembro de 2008, com o argumento de que a Bolívia não tinha colaborado na luta contra o narcotráfico, tendo expulsado do país agentes da DEA (agência antidrogas americana).
Nos últimos dias, o governo Morales insistiu em solicitar a Obama a reversão dessa medida, devido ao prejuízo que causa à indústria boliviana, e confiava em que a decisão podia sair na terça-feira, ao terminar um prazo de avaliação em Washington.
Segundo Morales, para quem Obama atua como "general" e "mandão", o governo americano observou um artigo da nova Constituição Política do Estado boliviano, que estabelece a desapropriação de propriedades que não cumprirem uma função social.
Morales reconheceu, no entanto, que o cultivo de coca na Bolívia está crescendo --6% no ano passado, segundo a ONU (Organização das Nações Unidas)--, mas disse que o governo estava fazendo um esforço genuíno para controlar a expansão da droga.
O Escritório Comercial americano informou que tem havido "explícita aceitação e incentivo à produção de coca nos mais altos escalões do governo boliviano".
A Bolívia, que considera a coca uma cultura tradicional que tem muitos outros usos além da produção de cocaína, alega que a decisão americana custará cerca de 20 mil postos de trabalho, especialmente nos setores têxtil e de couro.
O país tem tido um sucesso apenas limitado na busca de alternativas ao mercado americano, avalia Gary Rodríguez, do Instituto Boliviano de Comércio Exterior.
"Nem Venezuela, Irã, Argentina ou Brasil funcionaram até agora como mercados alternativos", disse ele.
A Venezuela, governada pelo aliado de Morales, Hugo Chávez, tinha prometido comprar US$ 13 milhões em produtos bolivianos mo ano passado, mas a associação de exportadores de La Paz (CAME) informou que a Venezuela não tem dólares suficientes para pagar por eles.
Com Associated Press e Efe
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