Secretário da OEA diz que não pretende negociar em visita a Honduras
da Folha Online
O presidente deposto de Honduras, Manuel Zelaya, afirmou nesta quinta-feira, no Panamá, que o secretário-geral da OEA (Organização dos Estados Americanos), José Miguel Insulza, viajará para Honduras nesta sexta-feira "não para negociar", mesmo posicionamento expresso por Insulza.
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"Não vamos a Honduras para negociar. Vamos pedir que deixem de fazer o que estão fazendo até agora, e que busquem o caminho para o retorno à normalidade" democrática, afirmou nesta quinta-feira o secretário-geral.
Segundo Zelaya, o objetivo da viagem de Insulza é informar as autoridades "golpistas" do ultimato dado pela entidade para que a ordem constitucional no país seja restituída. O presidente hondurenho foi deposto no domingo por militares apoiados pela Justiça e pelo Congresso. Um governo interino foi instalado, mas nenhum país reconheceu sua legitimidade.
Em entrevista no hotel em que se hospedou ontem na capital panamenha, Zelaya disse que Insulza falará com as autoridades "golpistas" de Honduras "com a autoridade que lhe foi dada por todos os chefes de Estado da América".
Em um comunicado, a OEA informou que Insulza "viajará amanhã a Honduras para notificar os atores políticos sobre os termos da resolução aprovada pela Assembléia" da OEA, que deu um prazo de 72 horas às novas autoridades de Honduras para restituir Zelaya. O prazo expira sábado.
Se não prosperar a iniciativa, "a Assembléia Geral Extraordinária da OEA aplicará imediatamente o artigo 21 da Carta Democrática Interamericana para suspender Honduras" do organismo, destaca o comunicado.
Insulza já adiantou que será difícil trazer a normalidade políticas a Honduras em poucos dias.
"Não posso dizer que viajo confiante. Farei todo o possível, mas me parece difícil que tudo possa ser resolvido em poucos dias", disse Insulza nesta quinta-feira, após se reunir com os líderes das 15 nações que integram a Comunidade do Caribe, em Georgetown.
Segundo Zelaya, Insulza "cumprirá sua incumbência" e, no sábado, a OEA deverá saber qual a posição do "governo repressivo que tomou o poder com as armas em Honduras". A partir daí, a entidade definirá os próximos passos que vai tomar.
A resolução dos países da OEA vem "desencadear todo um processo de deslegitimação total" das autoridades que "usurparam o poder" em Honduras, acrescentou o presidente deposto. "Se os golpistas não cederem, o povo e a história não irão perdoá-los."
Zelaya responsabilizou as potências mundiais pelo futuro das democracias e disse que os países perderiam legitimidade se "aceitassem relações com um governo surgido do crime".
"Minha intenção jamais será promover a violência. Não uso armas, não sou agressivo. Sou muito tolerante e tenho muita capacidade de diálogo", declarou.
O governante deposto disse ainda que várias autoridades internacionais o acompanharão em seu retorno a Honduras. Entre elas, citou Insulza, o nicaraguense Miguel D'Escoto -- presidente da Assembleia Geral da ONU--, a prêmio Nobel guatemalteca Rigoberta Menchú, vários ministros das Relações Exteriores e um grupo de artistas.
Zelaya foi ao Panamá assistir à posse do novo presidente deste país, Ricardo Martinelli. Na entrevista desta quinta-feira, ele disse que, quando deixar a capital panamenha, seguirá para um país do "sistema interamericano", entre os quais mencionou a Nicarágua, El Salvador e Guatemala.
O presidente interino hondurenho, Roberto Micheletti, afirmou nesta quarta-feira que seu governo não vai "negociar nada" com a OEA e que Zelaya "jamais voltará ao poder.
"Se a comunidade internacional considera que cometemos algum erro, algum crime, que nos condene e pronto. Aqui é a autodeterminação do povo", disse Micheletti, que considera que 80% dos hondurenhos concordam com a saída de Zelaya.
O presidente interino garantiu que Zelaya "jamais voltará ao poder" e, se retornar ao país, "será detido" para responder pelos 18 crimes de que é acusado.
Fronteiras
Isolada internacionalmente --nenhum governo reconheceu o novo governo-- Honduras retomou nesta quinta-feira ao menos parte de sua integração comercial com os países vizinhos. El Salvador reabriu sua fronteira para o comércio com Honduras, depois de um bloqueio de 48 horas imposto a Tegucigalpa pelos governantes do Grupo América Central-4 (CA-4) em represália ao golpe de Estado.
"O comércio entre El Salvador e Honduras começou a normalizar-se nas primeiras horas de hoje", informou a Secretaria de Comunicações da Presidência salvadorenha em um comunicado.
O CA-4, integrado por Guatemala, El Salvador, Honduras e Nicarágua, estabelece o livre trânsito de pessoas e de mercadorias entre as fronteiras terrestres de seus membros.
O fechamento da fronteira havia sido criticado pela cúpula empresarial de El Salvador, que calculou as perdas em US$ 3,2 milhões.
Golpe
Zelaya foi derrubado do poder neste domingo (28) em um golpe orquestrado pela Justiça e pelo Congresso e executado por militares, que o expulsaram para a Costa Rica. O golpe foi realizado horas antes do início de uma consulta popular sobre uma reforma na Constituição que tinha sido declarada ilegal pelo Parlamento e pela Corte Suprema.
"Fui retirado da minha casa de forma brutal, sequestrado por soldados encapuzados que me apontavam rifles", contou o presidente deposto, após chegar ao exílio na Nicarágua.
"Diziam: "se não soltar o celular, atiramos'. Todos apontando para minha cara e o meu peito. [...] Em forma muito audaz eu lhes disse: "se vocês vêm com ordem de disparar, disparem, não tenho problema de receber, dos soldados da minha pátria, uma ofensa a mais ao povo, porque o que estão fazendo é ofender o povo'."
De acordo com os parlamentares hondurenhos, a deposição de Zelaya foi aprovada por suas "repetidas violações da Constituição e da lei" e por "seu desrespeito às ordens e decisões das instituições". Segundo os seus críticos, com a consulta, Zelaya pretendia instaurar a reeleição presidencial no país. As próximas eleições gerais serão em 29 de novembro.
Depois da saída de Zelaya do país, no Congresso de Honduras, um funcionário leu uma carta com a suposta renúncia, o que ele nega. Zelaya diz ter sido alvo de "complô da elite voraz"; e seu sucessor, Micheletti, diz que o golpe foi um "processo absolutamente legal".
Com Efe e France Presse
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