Mundo
02/07/2009 - 21h41

Presidente interino de Honduras ameniza discurso e diz aceitar eleição antecipada

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da Folha Online

Isolado internacionalmente após a derrubada do presidente Manuel Zelaya, no domingo, o governo interino de Honduras abriu espaço nesta quinta-feira para uma antecipação das eleições como via para solucionar a crise política no país, enquanto aguarda a chegada, nesta sexta-feira, do secretário-geral da OEA (Organização dos Estados Americanos), José Miguel Insulza.

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O novo presidente hondurenho, Roberto Micheletti, cujo governo não foi reconhecido por nenhum país, declarou à imprensa que está "totalmente de acordo" com a antecipação das eleições gerais convocadas para novembro e reconheceu que isso representaria "uma regra política, sempre e quando for bom para todos os hondurenhos".

"Sempre dentro da lei, não há nenhum problema, eu não tenho nenhuma objeção se essa for uma maneira de solucionar" a crise, disse Micheletti, que assumiu o cargo depois que Zelaya foi deposto pelo Exército, com apoio da Suprema Corte e do Congresso, no dia em que pretendia fazer uma consulta popular sobre mudanças constitucionais que tinha sido declarada ilegal.

O presidente também respondeu ao anúncio da viagem de Insulza ao país ao dizer que será "bem-vindo", ouvido e informado sobre a "cronologia" dos eventos ocorridos desde domingo. Mais cedo, ele havia desafiado a reação externa: "Se a comunidade internacional considera que cometemos algum erro, algum crime, que nos condene e pronto. Aqui é a autodeterminação do povo."

"É bem-vindo, todos os países do mundo são bem-vindos", afirmou Micheletti, depois de o secretário-geral da OEA anunciar nesta quinta-feira a viagem em Georgetown, na Guiana, e assegurar que a comunidade internacional "fez praticamente tudo o que podia" para reivindicar a restituição de Manuel Zelaya. Insulza disse que não pretende negociar com o presidente interino, mas apresentar o ultimato de 72 horas, que a OEA deu ao país, para que restabeleça o governo eleito, sob pena de o país ser suspenso da Organização.

O novo presidente de Honduras explicou hoje que Insulza chegará acompanhado de uma comissão para manter contatos com membros do Poder Judiciário local, mas não garantiu que vá encontrar com o secretário-geral da OEA.

"Talvez não se encontrem comigo. Eu sou a última parte no caso de ter que dialogar com eles", afirmou.

Com a viagem para Tegucigalpa, Insulza pretende cumprir o mandato recebido pela Assembleia Geral extraordinária da OEA em sua reunião de ontem em Washington.

A resolução adotada nesta quarta-feira estabeleceu um prazo de 72 horas ao Governo de Micheletti para que restitua o líder deposto, sob a ameaça de suspender Honduras do fórum regional.

Retorno

Sentindo-se fortalecido pela reação de repúdio internacional à sua destituição, o presidente deposto assegurou nesta quinta-feira, no Panamá, que Insulza viajará até Honduras para informar às autoridades "golpistas" sobre o ultimato dado pela OEA e "não para negociar", mas não deu novos detalhes sobre seu retorno ao país.

Zelaya, que partiu nesta quinta-feira do Panamá rumo a El Salvador, anunciou no início da semana que retornaria a Honduras nesta quinta-feira.

No entanto, depois do ultimato da OEA para o governo de Micheletti, o presidente deposto decidiu adiar sua viagem para sábado, embora alguns veículos de imprensa prevejam sua chegada apenas no domingo.

Para o novo governo, se Zelaya retornar ao país, será detido sob acusações de 18 crimes.

O Ministério Público hondurenho confirmou nesta quinta-feira que há uma ordem de captura internacional contra o chefe de Estado deposto por quatro desses delitos.

Protestos

Enquanto isso, milhares de hondurenhos voltaram a se manifestar nas ruas de Tegucigalpa e San Pedro Sula, a capital industrial e econômica do país, no dia depois de o novo governo limitar ainda mais as liberdades constitucionais durante o toque de recolher que ocorre diariamente à noite.

Os simpatizantes de Micheletti mostraram durante a semana uma maior capacidade de convocação nas manifestações do que os de Zelaya, que justificam o fato ao alegar uma suposta perseguição a seus líderes, o medo de se expor e a mobilização de gente paga para participar de protestos.

Nesta quinta-feira, no entanto, os partidários de Zelaya organizaram sua maior mobilização desde o início das manifestações no domingo ao reunir quase cinco mil pessoas diante do prédio da ONU em Tegucigalpa, local que, junto com o edifício da OEA, são os pontos preferidos de manifestantes de ambos os grupos.

Os detratores de Zelaya marcharam por San Pedro Sula, onde quase 20 mil pessoas, segundo números da imprensa local, marcharam em defesa de Micheletti.

A deputada hondurenha Silvia Ayala, aliada do presidente deposto, disse que o Exército atirou contra manifestantes que exigiam a volta do presidente em San Pedro Sula, ferindo ao menos duas pessoas. Autoridades de segurança disseram desconhecer o episódio, mas admitiram ter realizado prisões de manifestantes.

Fronteiras

Sob isolamento internacional, Honduras retomou nesta quinta-feira ao menos parte de sua integração comercial com os países vizinhos. El Salvador reabriu sua fronteira para o comércio com Honduras, depois de um bloqueio de 48 horas imposto a Tegucigalpa pelos governantes do Grupo América Central-4 (CA-4) em represália ao golpe de Estado

"O comércio entre El Salvador e Honduras começou a normalizar-se nas primeiras horas de hoje", informou a Secretaria de Comunicações da Presidência salvadorenha em um comunicado.

O CA-4, integrado por Guatemala, El Salvador, Honduras e Nicarágua, estabelece o livre trânsito de pessoas e de mercadorias entre as fronteiras terrestres de seus membros.

O fechamento da fronteira havia sido criticado pela cúpula empresarial de El Salvador, que calculou as perdas em US$ 3,2 milhões.

Golpe

Zelaya foi derrubado do poder neste domingo (28) em um golpe orquestrado pela Justiça e pelo Congresso e executado por militares, que o expulsaram para a Costa Rica. O golpe foi realizado horas antes do início de uma consulta popular sobre uma reforma na Constituição que tinha sido declarada ilegal pelo Parlamento e pela Corte Suprema.

"Fui retirado da minha casa de forma brutal, sequestrado por soldados encapuzados que me apontavam rifles", contou o presidente deposto, após chegar ao exílio na Nicarágua.

"Diziam: "se não soltar o celular, atiramos". Todos apontando para minha cara e o meu peito. [...] Em forma muito audaz eu lhes disse: "se vocês vêm com ordem de disparar, disparem, não tenho problema de receber, dos soldados da minha pátria, uma ofensa a mais ao povo, porque o que estão fazendo é ofender o povo"."

De acordo com os parlamentares hondurenhos, a deposição de Zelaya foi aprovada por suas "repetidas violações da Constituição e da lei" e por "seu desrespeito às ordens e decisões das instituições". Segundo os seus críticos, com a consulta, Zelaya pretendia instaurar a reeleição presidencial no país. As próximas eleições gerais serão em 29 de novembro.

Depois da saída de Zelaya do país, no Congresso de Honduras, um funcionário leu uma carta com a suposta renúncia, o que ele nega. Zelaya diz ter sido alvo de "complô da elite voraz"; e seu sucessor, Micheletti, diz que o golpe foi um "processo absolutamente legal".

Com Efe e France Presse

 

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