Em protesto conjunto e "gradual", União Europeia convoca embaixadores em Teerã
da Folha Online
A União Europeia convocou nesta sexta-feira para consultas os embaixadores dos 27 países do bloco, em um protesto conjunto contra a detenção e o possível julgamento de funcionários da embaixada britânica em Teerã, e estuda medidas suplementares, mas sem cortar o diálogo com Teerã, para não comprometer a retomada das negociações sobre a questão nuclear.
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O regime iraniano acusa a embaixada do Reino Unido de ter colaborado para organizar os protestos de rua que se seguiram à reeleição do presidente Mahmoud Ahmadinejad --o resultado da votação de 12 de junho é contestado como fraudulento pela oposição reformista.
O chefe do Conselho dos Guardiães --um misto de tribunal superior e Senado, que validou o resultado da eleição-- disse nesta sexta-feira que alguns do nove detidos serão julgados por terem desempenhado um papel nos protestos generalizados. Na semana passada, ele havia pedido ao Poder Judiciário um castigo exemplar --que pode incluir a pena de morte-- para os culpados dos distúrbios.
"Nestes eventos, sua embaixada desempenhou um papel através destes indivíduos detidos, que naturalmente serão julgados após terem confessado", disse o aiatolá Ahmad Janati, um dos membros mais conservadores do clero iraniano.
No dia 19, o líder supremo do país, o aiatolá Ali Khamenei, acusou os "inimigos do Islã" de serem os causadores dos distúrbios no país e culpou diretamente a imprensa estrangeira de instigá-los, citando os britânicos. O Reino Unido, que comandou a indústria petrolífera do país durante grande parte do século 20, é um dos alvos preferidos dos discursos nacionalistas das lideranças iranianas, juntamente com os Estados Unidos e Israel.
Para reagir às detenções, o Reino Unido propôs que os países da UE chamassem todos os seus embaixadores de Teerã como um sinal de unidade, mas o bloco optou por aumentar gradualmente a pressão sobre o regime iraniano, disse o ministro das Relações Exteriores da Suécia, Carl Bildt.
"A abordagem gradualista em relação ao Irã está funcionando", afirmou o ministro sueco. Ele disse, por meio de um comunicado, que sete dos nove funcionários detidos em 28 de junho já foram libertados.
Em Londres, o ministro das Relações Exteriores britânico, David Miliband, disse que o Reino Unido está "profundamente preocupado" com os dois funcionários que ainda estão detidos no Irã. Não há informações sobre quais funcionários serão julgados.
De acordo com diplomatas, a convocação, decidida nesta quinta-feira, em Estocolmo, e confirmada nesta sexta-feira, em Bruxelas, visa a expressar o "forte protesto" das nações do bloco contra a detenção de um grupo de funcionários iranianos da embaixada britânica em Teerã e cobrar a "imediata" libertação destes.
A UE decidiu dar uma "resposta gradual e coordenada" ao Irã e cogita adotar outras medidas contra o país. Uma destas seria atrasar a entrega de vistos a cidadãos iranianos com passaporte oficial.
Também está em estudo uma possível retirada dos embaixadores europeus em Teerã.
A situação voltará a ser avaliada em 10 de julho, durante uma reunião da Comissão Política e de Segurança da UE (Cops).
Os presidentes de Belarus, Alexander Lukashenko, e do Zimbábue, Robert Mugabe, já tiveram seus vistos proibidos pela UE.
Os europeus querem avançar progressivamente para evitar comprometer a retomada das negociações sobre o programa nuclear de Teerã.
"O regime está adotando uma posição mais rígida, afastando a possibilidade de um retorno ao diálogo. Por enquanto, o governo iraniano não está indo na direção certa", lamentou um diplomata da UE.
Na quarta-feira, um dirigente militar iraniano afirmou que a Europa já não está mais habilitada a participar das negociações sobre o caso nuclear devido a sua "ingerência" nos assuntos internos do país.
Resultado contestado
O resultado da eleição, divulgado no último dia 13 de junho, deu início aos maiores protestos de rua em Irã desde a Revolução Islâmica de 1979.
O moderado ex-primeiro-ministro Mir Hossein Mousavi e os outros dois candidatos derrotados na eleição presidencial --Mehdi Karubi e Mohsen Rezai-- submeteram um total de 646 queixas contra o resultado do pleito. O conservador Rezai as retirou depois que o líder supremo do país endossou a vitória de Ahmadinejad e ordenou o fim dos protestos.
No dia seguinte à declaração de Khamenei, feita durante um sermão na universidade de Teerã, houve uma grande repressão aos protestos, com violência nas ruas e prisões feitas durante as manifestações e à noite, a casa de pessoas selecionadas pelo governo. No total, 17 pessoas morreram nos vários dias protestos, de acordo com dados oficiais.
A reação do governo, que incluiu forte censura à internet, conseguiu reduzir o volume dos protestos, e o Conselho de Guardiães disse que a maioria das denúncias apresentadas não foi considerada irregularidade de eleição. Muitas foram descartadas após a realização de "estudos precisos e profundos" sobre o processo eleitoral, embora o órgão tenha admitido que em 50 cidades houve mais votos que eleitores --o que poderia ter afetado 3 milhões de votos, número menor que a vantagem de Ahmadinejad para vencer no primeiro turno.
Após uma recontagem de aproximadamente 10% dos votos, o Conselho confirmou, na última segunda-feira, os resultados da eleição que deram a vitória ao presidente.
Com Associated Press, Efe e France Presse
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