Presidente deposto pede que povo o espere no aeroporto; governo proíbe pouso
da Folha Online
Em um voo que saiu de Washington com destino a Honduras, o presidente hondurenho deposto, Manuel Zelaya, defendeu seu direito de retornar ao país, no dia em que se completa uma semana de sua expulsão, enquanto o governo interino proibiu que o avião pouse em qualquer aeroporto hondurenho. Isolado internacionalmente, o novo governo pediu que não haja interferências externas no país e anunciou a criação de uma comissão para negociar com a OEA (Organização dos Estados Americanos). A organização suspendeu Honduras" neste sábado, por infringir a cláusula democrática de seu estatuto.
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"A Constituição proíbe que um hondurenho seja expulso do país", disse Zelaya à rede CNN em Espanhol, falando por telefone em pleno voo. "Sou um hondurenho legítimo e estou voltando para o país".
Zelaya está acompanhado do presidente da Assembleia Geral da ONU (Organização das Nações Unidas), o ex-chanceler nicaraguense Miguel D'Escoto, e de jornalistas, mas, diferentemente do que havia anunciado neste sábado, nenhum presidente o está acompanhando.
O diretor da Aeronáutica Civil de Honduras, Alfredo San Martín, assegurou que o avião que transporta o presidente deposto aterrissará em El Salvador porque não tem autorização para pousar em território hondurenho.
Zelaya disse que não sabe onde o avião vai pousar, mas disse que tem "muitas opções" e pediu à população que se reúna de forma pacífica em frente ao aeroporto internacional de Tegucigalpa. Dezenas de milhares de pessoas já estão no local, manifestando apoio ao presidente deposto.
| Dario Lopez-Mills/AP | ||
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| Apoiadores do presidente deposto de Honduras sentam-se em frente a soldados perto do aeroporto internacional de Tegucigalpa; expulso do país, Manuel Zelaya embarcou a caminho da capital, mas novo governo proibiu pouso |
Ao mesmo tempo em que Zelaya falava com vários meios de comunicação por telefone, o presidente interino, Roberto Micheletti, concedia uma entrevista coletiva em Tegucigalpa, ao lado de várias autoridades do novo governo, que assumiu no último domingo, após a deposição de Zelaya pelo Exército, com apoio da Suprema Corte e do Congresso.
Ele justificou a proibição de retorno de Zelaya ao país como uma forma de evitar "derramamento de sangue". Anteriormente, o governo havia informado que o presidente deposto seria preso se voltasse a Honduras, acusado de abuso de autoridade, violação dos deveres dos funcionários e traição, entre outros crimes, mas Micheletti disse que o melhor no momento é evitar qualquer confronto.
"Nós temos insistido que não queremos conflitos internos, não queremos derramamento de sangue", afirmou Micheletti.
O presidente interino também denunciou a mobilização de tropas da Nicarágua perto da fronteira dos dois países e apelou para que não haja intervenção externa em Honduras.
"Pedimos ao presidente Ortega que, por favor, respeite nossa soberania e a Hugo Chávez [presidente da Venezuela] que deixe de agredir nosso país, como tem feito, por meio dos meios de comunicação que possui", disse Micheletti. "Somos um país pequeno, respeitoso das leis nacionais e internacionais."
Questionando sobre a natureza da mobilização, ele disse que são pequenos grupos de tropas nicaraguenses que estão se movimentando e que não poderia dizer se o fazem por ordem do governo ou se há perigo real de que cruzem a fronteira.
"É uma invasão psicológica, estão de todas as formas tentando intimidar a nação", disse, afirmando que Honduras está preparada para responder a qualquer agressão. Mas ele repetiu que espera que o país e tranquilize, "para que não se derrame uma gota de sangue".
Em um possível sinal de fragilidade do governo interino diante da reação internacional e da suspensão da OEA, a vice-chanceler hondurenha, Martha Lorena Alvarado, disse na entrevista coletiva que está constituindo uma comissão para negociar com as organizações internacionais. Nenhum país reconheceu a legitimidade do novo governo, que está enfrentando também o corte de ajuda financeira vital de organizamos internacionais.
Ela disse que, após um "consenso" entre os poderes de Honduras, o novo governo propôs à OEA "a adoção de um diálogo de boa fé entre uma delegação da República de Honduras [...] e uma delegação de representantes de Estados membros, com a participação de funcionários da secretaria-geral", destacou Alvarado.
"Mas enquanto este diálogo de boa fé estiver em curso não poderão ocorrer atos ou situações que possam colocar em risco a paz social da República e comprometer o esforço das conversações", afirmou a vice-chanceler.
Apesar do isolamento externo, o governo busca dar mostras de unidade. O presidente defendeu várias vezes a legitimidade de seu mandato, reforçando que foi eleito pelo Congresso, com autorização da Suprema Corte, e que Zelaya foi retirado do cargo por infringir a Constituição.
Neste sábado, o cardeal Oscar Andrés Rodríguez, a mais alta autoridade católica de Honduras, reconheceu o novo governo e apelou ao "amigo José Manuel Zelaya" para que não retornasse ao país neste domingo.
"Pensemos se um regresso precipitado ao país, neste momento, poderia desencadear um banho de sangue. Eu sei que você ama a vida, eu sei que você respeita a vida. Até hoje ninguém morreu em Honduras. Por favor, medite, porque depois seria tarde demais", disse o cardeal.
Segundo a rede CNN, muitos dos líderes dos protestos contra o novo governo e em favor do retorno de Zelaya são padres católicos, o que sinaliza uma divisão entre a alta hierarquia da igreja no país e parte da base de religiosos, influenciada pela Teologia da Libertação, corrente de inspiração marxista que defende um papel ativo da igreja em questões sociais.
Golpe
Zelaya foi derrubado do poder no último domingo (28) em um golpe orquestrado pela Justiça e pelo Congresso e executado por militares, que o expulsaram para a Costa Rica. O golpe foi realizado horas antes do início de uma consulta popular sobre uma reforma na Constituição que tinha sido declarada ilegal pelo Parlamento e pela Corte Suprema.
"Fui retirado da minha casa de forma brutal, sequestrado por soldados encapuzados que me apontavam rifles", contou o presidente deposto, após chegar ao exílio na Nicarágua.
"Diziam: 'se não soltar o celular, atiramos'. Todos apontando para minha cara e o meu peito. [...] Em forma muito audaz eu lhes disse: 'se vocês vêm com ordem de disparar, disparem, não tenho problema de receber, dos soldados da minha pátria, uma ofensa a mais ao povo, porque o que estão fazendo é ofender o povo'."
Com agências internacionais
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