Mundo
06/07/2009 - 00h18

Impedido de voltar a Honduras, presidente deposto chega a El Salvador

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da Folha Online

O presidente deposto de Honduras, Manuel Zelaya, chegou na noite deste domingo à capital de El Salvador depois que seu anunciado plano de voltar a Tegucigalpa foi frustrado pelo governo interino. O Exército bloqueou a pista do aeroporto internacional da capital hondurenha com carros e impediu o pouso do avião que trazia Zelaya e o presidente da Assembleia Geral das Nações Unidas, Miguel D'Escoto, que seguiu então para Manágua e depois para San Salvador.

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Milhares de manifestantes favoráveis a Zelaya foram para as ruas em frente ao aeroporto, onde pelo menos uma morreu com um tiro na cabeça, disparado de dentro do aeroporto, guardado pelas forças de segurança, segundo testemunhas. Há relatos não confirmados de que até outras duas pessoas teriam sido mortas nos protestos. Ao menos duas pessoas ficaram gravemente feridas, segundo fontes do serviço de saúde.

Isolado internacionalmente, o governo interino prometera prender Zelaya se ele voltasse ao país, mas decidiu impedir o retorno do presidente deposto alegando querer evitar que os ânimos exaltados provocassem um "um banho de sangue".

Depois de reunir-se brevemente com os presidentes da Nicarágua, Daniel Ortega, e do Paraguai, Fernando Lugo, em Manágua, Zelaya seguiu para El Salvador, onde se reuniu com a presidente da Argentina, Cristina Kirchner, do Equador, Rafael Correa, e como o secretário-geral da OEA (Organização dos Estados Americanos), José Miguel Insulza, que estavam em Washington, onde neste sábado a OEA decidiu suspender Honduras por infringir os princípios democráticos da organização. Após encontrar-se com eles e com o presidente salvadorenho, Mauricio Funes, ele deu início a uma entrevista coletiva.

Viagem

A imprensa internacional acompanhou de perto a viagem de Zelaya de Washington para Honduras uma semana depois de ser deposto e expulso do país pelo Exército, com apoio da Suprema Corte e do Congresso. A tentativa fracassou logo que o avião chegou ao espaço aéreo hondurenho, quando o piloto do avião venezuelano em que ele viajava disse que era "impossível aterrissar" com veículos na pista. Ele disse também que o avião sofreu ameaças de abate de autoridades hondurenhas enquanto sobrevoava Tegucigalpa.

Tomas Bravo /Reuters
Manifestante pro-Zelaya segura bandeira de Honduras em frente ao aeroporto de Tegucigalpa
Manifestante pro-Zelaya segura bandeira de Honduras em frente ao aeroporto de Tegucigalpa

Milhares de manifestantes gritaram vivas quando avistaram o avião, informou a CNN em Espanhol.

"Se eu tivesse um paraquedas, eu saltaria", disse disse Zelaya à Telesur, que acompanhava o voo. "Eles estão ameaçando nos matar."

Ele disse que tentará novamente voltar a Honduras "na segunda ou na terça-feira".

Menos de uma hora antes, Zelaya tinha feito um apelo ao chefe do Estado Maior Conjunto das Forças Armadas hondurenhas, Romeo Vásquez, para que retirasse as tropas que, segundo a Telesur, estavam reprimindo os manifestantes.

"Eu sou o comandante das Forças Armadas, eleito pelo povo, e peço às Forças Armadas para cumprirem a ordem para abrir o aeroporto a fim de que não haja qualquer problema para que eu pouse e abrace meu povo", disse Zelaya de dentro do avião à venezuelana Telesur. "Hoje eu sinto que tenho força espiritual suficiente, abençoado com o sangue de Cristo, para poder chegar lá e erguer o crucifixo".

Em declarações ao canal de televisão, Zelaya afirmou que vai sem armas e pacificamente para dialogar e pediu ao general Vásquez que detenha "o massacre", ao ser informado pela rede de televisão, com sede em Caracas, de disparos e mortos em Tegucigalpa.

"O povo está nas ruas. Detenha essas tropas general [...] Detenha esse massacre", disse Zelaya.

Violência

As agências internacionais forneceram relatos diferentes sobre os episódios de violência. Um fotógrafo da agência Associated Press informou que pelo menos uma pessoa morreu nas manifestações em favor de Zelaya, em frente ao aeroporto, enquanto relatos de mais mortes são divulgados por outras agências e meios de comunicação. Citando uma fonte policial, a agência France Presse informou que duas pessoas morreram e ao menos duas ficaram feridas, e a agência estatal de notícias da Venezuela --país que apoia abertamente Zelaya-- divulgou que três pessoas morreram e várias ficaram feridas durante um ataque das forças de segurança contra apoiadores do presidente deposto.

Um trabalhador do serviço de saúde disse à Reuters que uma pessoa morreu e duas estão gravemente feridas.

Segundo o relato da Associated Press, um homem morreu ao ser atingido com um tiro na cabeça quando tentava passar por uma cerca de segurança para entrar no aeroporto de Tegucigalpa. O tiro foi disparado de dentro do aeroporto de acordo com a agência.

Eduardo Verdugo/AP Photo
Homem que morreu ao ser atingido na cabeça por um tiro é carregado em frente ao aeroporto de Tegucigalpa; militares bloquearam a pista e impediram pouso de avião levando o presidente hondurenho deposto Manuel Zelaya
Homem que morreu ao ser atingido na cabeça por um tiro é carregado em frente ao aeroporto de Tegucigalpa; militares bloquearam a pista e impediram pouso de avião levando o presidente hondurenho deposto Manuel Zelaya

Antes do confronto, as forças de segurança chegaram a ser aplaudidas por terem permitido a passagem da manifestação em uma rua próxima ao aeroporto. Entre os manifestantes foram vistos funcionários do governo deposto, como Rodolfo Pastor, que ocupava a pasta de Cultura, Artes e Esportes.

Mas logo depois, forças de segurança dispararam tiros de advertência e gás lacrimogêneo, e alguns apoiadores de Zelaya atiraram pedras e fizeram uma fogueira. Uma van passou no meio da multidão, com uma pessoa gritando para que abrissem caminho para os feridos. Um porta-voz da Cruz Vermelha disse que cerca de 30 feridas foram atendidas, incluindo uma mulher esfaqueada.

Governo interino

Enquanto Zelaya partia de Washington, o presidente interino, Roberto Micheletti, concedia uma entrevista coletiva em Tegucigalpa, ao lado de várias autoridades do novo governo, que assumiu no último domingo, após a deposição de Zelaya pelo Exército, com apoio da Suprema Corte e do Congresso.

Ele justificou a proibição de retorno de Zelaya ao país como uma forma de evitar "derramamento de sangue". Anteriormente, o governo havia informado que o presidente deposto seria preso se voltasse a Honduras, acusado de abuso de autoridade, violação dos deveres dos funcionários e traição, entre outros crimes, mas Micheletti disse que o melhor no momento é evitar qualquer confronto.

"Nós temos insistido que não queremos conflitos internos, não queremos derramamento de sangue", afirmou Micheletti.
O presidente interino também denunciou a mobilização de tropas da Nicarágua perto da fronteira dos dois países e apelou para que não haja intervenção externa em Honduras.

"Pedimos ao presidente Ortega que, por favor, respeite nossa soberania e a Hugo Chávez [presidente da Venezuela] que deixe de agredir nosso país, como tem feito, por meio dos meios de comunicação que possui", disse Micheletti. "Somos um país pequeno, respeitoso das leis nacionais e internacionais."

Questionando sobre a natureza da mobilização, ele disse que são pequenos grupos de tropas nicaraguenses que estão se movimentando e que não poderia dizer se o fazem por ordem do governo ou se há perigo real de que cruzem a fronteira.

"É uma invasão psicológica, estão de todas as formas tentando intimidar a nação", disse, afirmando que Honduras está preparada para responder a qualquer agressão. Mas ele repetiu que espera que o país e tranquilize, "para que não se derrame uma gota de sangue".

Isolamento

Em um possível sinal de fragilidade do governo interino diante da reação internacional e da suspensão determinada neste sábado pela OEA (Organização dos Estados Americanos), a vice-chanceler hondurenha, Martha Lorena Alvarado, disse na entrevista coletiva que está constituindo uma comissão para negociar com as organizações internacionais. Nenhum país reconheceu a legitimidade do novo governo, que está enfrentando também o corte de ajuda financeira vital de organizamos internacionais.

Ela disse que, após um "consenso" entre os poderes de Honduras, o novo governo propôs à OEA "a adoção de um diálogo de boa fé entre uma delegação da República de Honduras [...] e uma delegação de representantes de Estados membros, com a participação de funcionários da secretaria-geral", destacou Alvarado.

"Mas enquanto este diálogo de boa fé estiver em curso não poderão ocorrer atos ou situações que possam colocar em risco a paz social da República e comprometer o esforço das conversações", afirmou a vice-chanceler.

Apesar do isolamento externo, o governo busca dar mostras de unidade. O presidente defendeu várias vezes a legitimidade de seu mandato, reforçando que foi eleito pelo Congresso, com autorização da Suprema Corte, e que Zelaya foi retirado do cargo por infringir a Constituição.

Neste sábado, o cardeal Oscar Andrés Rodríguez, a mais alta autoridade católica de Honduras, reconheceu o novo governo e apelou ao "amigo José Manuel Zelaya" para que não retornasse ao país neste domingo.

"Pensemos se um regresso precipitado ao país, neste momento, poderia desencadear um banho de sangue. Eu sei que você ama a vida, eu sei que você respeita a vida. Até hoje ninguém morreu em Honduras. Por favor, medite, porque depois seria tarde demais", disse o cardeal.

Segundo a rede CNN, muitos dos líderes dos protestos contra o novo governo e em favor do retorno de Zelaya são padres católicos, o que sinaliza uma divisão entre a alta hierarquia da igreja no país e parte da base de religiosos, influenciada pela Teologia da Libertação, corrente de inspiração marxista que defende um papel ativo da igreja em questões sociais.

Ao divulgar mortes na manifestação deste domingo, a venezuelana Agência Bolivariana de Noticias informou que manifestantes responsabilizam o cardeal Rodríguez pelo banho de sangue.

Golpe

Zelaya foi derrubado do poder no último domingo (28) em um golpe orquestrado pela Justiça e pelo Congresso e executado por militares, que o expulsaram para a Costa Rica. O golpe foi realizado horas antes do início de uma consulta popular sobre uma reforma na Constituição que tinha sido declarada ilegal pelo Parlamento e pela Corte Suprema.

"Fui retirado da minha casa de forma brutal, sequestrado por soldados encapuzados que me apontavam rifles", contou o presidente deposto, após chegar ao exílio na Nicarágua.

"Diziam: 'se não soltar o celular, atiramos'. Todos apontando para minha cara e o meu peito. [...] Em forma muito audaz eu lhes disse: 'se vocês vêm com ordem de disparar, disparem, não tenho problema de receber, dos soldados da minha pátria, uma ofensa a mais ao povo, porque o que estão fazendo é ofender o povo'."

Com agências internacionais

 

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