Mundo
06/07/2009 - 18h27

Para Simon Schama, Obama é a personificação dos americanos

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LEILA CORREIA
colaboração para a Folha Online
SARA UHELSKI
da Folha Online

O historiador britânico Simon Schama, 64, afirmou, durante sabatina realizada pela Folha nesta segunda-feira, que o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, personifica os diferentes perfis de americanos e dos representantes de diversas nações.

"Obama personifica a Ásia, a África e os EUA. Ele parece um americano diferente, mas, na verdade, é uma representação de todos os americanos", disse o historiador, completando que tanto apelo não garante sucesso ao presidente dos EUA diante de tantos problemas.

Autor do livro O Futuro da América, recém-lançado no Brasil, Schama, já investigou em obras anteriores a Revolução Francesa, a história da arte e a da Inglaterra. No novo livro, ele busca retratar a transformação pela qual os EUA passam. O historiador viajou pelo país acompanhando os candidatos à Presidência e visitando sítios históricos.

O resultado, segundo definiu em entrevista à Folha, foi "uma tentativa perigosa de juntar reportagem contemporânea com análise histórica".

No evento desta segunda, Schama respondeu perguntas de Sylvia Colombo, editora da Ilustrada, Rodrigo Rötzsch, editor de Mundo, Claudia Antunes e Rafael Cariello, repórteres da Folha, e da plateia presente no auditório do Teatro Folha.

Obama foi assunto constante nos comentários do historiador, que afirmou que o atual governante dos EUA tem um perfil que difere dos demais presidentes eleitos no país.

Crise econômica

Ao falar sobre a atuação de Obama, Schama afirmou que as crises econômicas que os EUA já enfrentaram não podem servir de modelo para lidar com a crise atual. "A história não se repete. Não estamos vivendo como naqueles tempos da Depressão. Não podemos pegar uma solução de 1933 e achar que ela vai funcionar."

Para o historiador, Obama agora precisa decidir se quer ser "um engenheiro de construção com uma postura de confronto ou se ele quer pegar aquele carro amassado e consertá-lo".

Ele afirmou que os EUA ainda estão passando pela pior crise econômica desde a Segunda Guerra Mundial (1939-1945), e que os pacotes de estímulo não terão efeito entre a população se a taxa de desemprego no país não cair.

"Ninguém está mais complacente [com a situação]. Todos já estão um pouco aliviados, mas ainda não estamos em uma boa situação", completou.

"Século americano"

Simon Schama afirmou que nunca houve um "século americano", marcado pela hegemonia econômica e militar dos Estados Unidos.

Ao analisar o papel dos BRICs --grupo formado por Brasil, Rússia, Índia e China-- no cenário mundial, ele disse que "os EUA não são mais ingênuos como eram na época do [presidente Ronald] Reagan [1981-1989]". Segundo ele, "não existe mais aquela coisa de bater no peito e dizer 'nós somos o número um'".

O historiador também disse que os EUA não têm mais hegemonia mundial desde a queda da ex-União Soviética.

Ele disse que o crescimento econômico do país foi "prolongado". No entanto, "nunca houve um século americano" porque essa hegemonia sempre foi questionada e desafiada pela União Soviética na época e, agora, por países em desenvolvimento.

"Os Estados Unidos não podem ser arrogantes e militaristas", concluiu.

"Árbitro social"

Schama disse que o governo Obama atua como um árbitro social em questão de saúde pública, "sem medo de desempenhar um papel forte na sociedade" do país.

Questionado sobre as medidas tomadas pelo presidente americano no que se refere à saúde pública, o historiador afirmou que "Obama não quer governar um país somente com bancos e com a indústria automobilística."

O líder americano tenta escrever uma audaciosa reforma no sistema de saúde público americano, que permitiria a criação de um sistema similar ao brasileiro, no qual todos teriam acesso a tratamento médico financiado pelo governo. A medida, que custaria milhões de dólares ao debilitado orçamento, enfrenta resistência entre os congressistas.

Lula e Obama

O professor Schama afirmou que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva "é um grande fenômeno".

Durante a sabatina promovida pela Folha, o britânico traçou algumas semelhanças entre o líder brasileiro e o presidente Obama. Para ele, os dois se sentem confortáveis na posição em que estão no momento, por exemplo.

"Por outro lado, o intelecto é a parte mais importante da personalidade de Obama. Já Lula não tem o estilo 'professor' do colega americano".

"Professor do mundo"

Simon Schama afirmou que o perfil de Barack Obama difere do perfil predominante entre os presidentes eleitos pelos americanos. "Obama é muito acadêmico e dificilmente pessoas assim são eleitas. A função dele é ser um professor do mundo", disse.

Schama ainda comentou o fato de a campanha e a eleição de Obama terem sido consideradas fatos históricos. "Obama entrou na campanha [presidencial] porque achou que aquele fosse um grande momento histórico. Para ele, aquele seria um momento de mostrar como os EUA haviam chegado à situação em que estavam."

Religião

Na sabatina promovida pela Folha, Simon Schama disse que a intolerância religiosa na Europa é enorme, o que diferencia o continente dos Estados Unidos.

"A questão da burca é um excelente exemplo de como a Europa não tem um senso comum do que é uma democracia compartilhada", afirmou, em referência à intenção do governo da França de proibir o uso da burca --vestimenta típica do islamismo que cobre todo o corpo da mulher, inclusive o rosto.

Ele afirmou que, nos EUA, está previsto na Constituição que o Congresso não pode fazer leis sobre religião.

"Nos EUA, Estado e Igreja são totalmente separados", disse Schama.

Irã

Questionado pela plateia, o historiador britânico Simon Schama afirmou não saber o que irá acontecer com o Irã após a reeleição de Mahmoud Ahmadinejad, mas que ela representa "o começo do fim".

"Será que este regime tem um leve cheiro de morte? Sim, e acho que em sete anos vamos ver isso", disse Schama, em referência às mortes ocorridas no país após o resultado oficial da eleição ter sido divulgado, no último dia 13 de junho.

"Todos vimos o que aconteceu nas ruas [do Irã]. O regime em si irá se deslegitimar. Aposto com vocês que o que aconteceu lá foi o começo do fim", afirmou Schama.

 

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