Mundo
12/10/2009 - 04h00

Honduras já teve guerra deflagrada por partida de futebol; leia trecho

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da Folha Online

Quanto maior é a instabilidade política em um país, menor é a faísca necessária para deflagrar revoluções e violentos acontecimentos. É o que parece acontecer atualmente em Honduras, onde a intenção do presidente Manuel Zelaya de realizar uma espécie de referendo entre a população serviu de estopim para um golpe de Estado.

Na tumultuada história de Honduras, já houve momentos em que os pretextos para a tomada de medidas drásticas partiram de acontecimentos aparentemente muito mais banais. Em "A Guerra do Futebol" (Companhia das Letras, 2008), o veterano jornalista polonês Ryszard Kapuscinski relata como se desenrolou o episódio que dá título à obra, em que uma tensão política entre Honduras e El Salvador concretizou-se em conflito armado por causa de uma partida de futebol.

Divulgação
Ryszard Kapuscinski
O jornalista Ryszard Kapuscinski, autor de "A Guerra do Futebol"

No ano de 1969, as seleções dos dois países da América Central disputavam as eliminatórias para a Copa do Mundo de 1970, em que o Brasil acabou por sagrar-se tricampeão do torneio. No primeiro jogo, realizado em Tegucigalpa, capital hondurenha, os donos da casa abriram vantagem com um gol. Uma apaixonada torcedora salvadorenha, que assistia ao jogo pela televisão, não suportou a derrota e se suicidou.

A comoção nacional foi tamanha que, na partida de volta, a seleção e a torcida de Honduras foram duramente hostilizadas, resultando em dois mortos, dezenas de feridos e cerca de 150 carros dos visitantes incendiados. Com a tensão instalada e a população com os nervos à flor da pele, não foi difícil para os governantes iniciarem a oportuna guerra.

Kapuscinski foi o único repórter estrangeiro a presenciar o início dos conflitos, que, apesar de terem durado apenas quatro dias, resultaram em 6 mil mortos e dezenas de milhares de feridos.

Um trecho desta história, talvez a mais emblemática dentre as que compõem o livro de reportagens "A Guerra do Futebol", pode ser conferido a seguir:

Atenção: o texto reproduzido abaixo mantém a ortografia original do livro e não está atualizado de acordo com as regras do Novo Acordo Ortográfico. Conheça o livro "Escrevendo pela Nova Ortografia".

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A Guerra do Futebol

Divulgação
A Guerra do Futebol
O livro do jornalista polonês traz ainda diversas outras reportagens

Luiz Suarez disse que haveria uma guerra, e eu acreditava piamente em tudo que Luis Suarez dizia. Nós dois morávamos no México, e Luis me dava aulas sobre a América Latina - de como ela era e como devia ser entendida. Ele conseguia prever muitos acontecimentos. Acertara sobre a queda de Goulart no Brasil, a queda de Bosch na República Dominicana e de Jimenez na Venezuela. Ainda muito antes do retorno de Perón, acreditava que o velho caudilho voltaria a assumir a presidência da Argentina, previu o iminente falecimento do ditador do Haiti - François Duvalier, a quem muitos davam muitos anos de vida. Luis sabia se mover nas areias movediças da política local, nas quais amadores como eu afundavam impreterivelmente, cometendo erros a cada passo.

Dessa vez, Luis Emitiu sua opinião sobre uma guerra inevitável assim que pôs de lado um jornal no qual lera a reportagem sobre um partida de futebol entre Honduras e El Salvador. Os dois países disputavam uma vaga para próxima Copa do Mundo, programada para o verão de 1970 no México.

O primeiro confronto ocorreu num domingo, 8 de março de 1969, em Tegucigalpa, capital de Honduras.

Ninguém no mundo deu importância a esse acontecimento.

O time de El Salvador chegou a Tegucigalpa no sábado e passou uma noite insone no hotel. Não pôde dormir, alvo que foi de uma guerra psicológica deflagrada pelos torcedores hondurenhos. O hotel foi cercado por uma multidão que atirava pedras nas janelas dos quartos dos jogadores e batia em tambores de lata ou em tonéis vazios. De vez em quando, ouviam-se explosões de foguetes. Centenas de carros estacionados diante do hotel buzinavam sem parar. Os torcedores assobiavam, berravam, gritavam palavras de ordem. Aquilo durou a noite toda, para que o time adversário, insone, nervoso e cansado, perdesse a partida do dia seguinte. Na América Latina, tal comportamento é muito comum e não espanta ninguém.

No dia seguinte, Honduras derrotou o maldormido time salvadorenho por 1 a 0.

Quando o atacante de Honduras Roberto Cardona fez o gol da vitória no último minuto do jogo, Amelia Bolanios, uma jovem salvadorenha de dezoito anos que assistia à partida pela televisão em San Salvador, levantou-se da cadeira, correu até uma escrivaninha em cuja gaveta estava o revólver de seu pai e disparou a arma no coração. 'A jovem não suportou ver seu país posto de joelhos', escreveu, no dia seguinte, El Nacional, diário de San Salvador. O enterro de Amelia Bolanios foi transmitido pela TV e acompanhado por toda a população da capital. O cortejo era precedido por um destacamento militar, com um estandarte. Atrás do caixão, coberto pela bandeira nacional, caminhavam o presidente da República e todos os seus ministros, seguidos pelos onze jogadores da seleção salvadorenha, que, vaiada, debochada e ofendida no aeroporto de Tegucigalpa, retornara ao país naquela madrugada num avião especial.

Uma semana depois, no estádio com o belo nome de Flor Blanca de San Salvador, foi realizada a segunda partida. Dessa vez, foi o time de Honduras que passou a noite em claro: os enfurecidos torcedores salvadorenhos quebraram as vidraças de todas as janelas do hotel, atirando para dentro dos quartos toneladas de ovos podres, ratos mortos e panos fedorentos. Os competidores foram levados ao estádio em carros de combate da Divisão Motorizada de San Salvador, o que os salvou de uma vingança sangrenta da multidão, que acompanhou o trajeto carregando fotografias da heroína nacional Amelia Bolanios.

O estádio foi cercado por tropas de elite - a Guardia Nacional - munidas de metralhadoras. Durante a execução do hino hondurenho, o público vaiava e assobiava. Em seguida, em vez da bandeira nacional de Honduras, que fora queimada diante do olhar extasiado da multidão, os organizadores da partida içaram no mastro um pano esfarrapado. Era totalmente compreensível que, nessas circunstâncias, os jogadores de Honduras não pensassem na partida, mas se perguntassem se sairiam dali com vida. 'A nossa sorte foi termos perdido aquele jogo', declarou, aliviado, o técnico hondurenho, Mario Griffin.

El Salvador ganhou por 3 a 0.

Logo após a partida, a equipe hondurenha foi levada, nos mesmos carros de combate, diretamente para o aeroporto. Seus torcedores não tiveram a mesma sorte: agredidos a pauladas e pontapés, fugiram em direção à fronteira, sendo que dois foram mortos pelo caminho e dezenas de outros acabaram hospitalizados. Cento e cinqüenta automóveis dos visitantes foram incendiados. Horas depois, a fronteira entre os dois países foi fechada.

Fora isso que Luis lera no jornal antes de afirmar que haveria uma guerra. Ele fora um repórter experimentado e conhecia muito bem o seu terreno.

Segundo ele, na América Latina a fronteira entre futebol e política é extremamente tênue. A lista de governos que foram derrubados por causa de uma derrota de sua seleção é extensa. Os profissionais da equipe derrotada costumam ser chamados de 'traidores da pátria'. Quando o Brasil conquistou a Copa do Mundo no México, um amigo meu brasileiro - um asilado político - ficou desesperado. 'Os militares da direita', disse, 'acabaram de assegurar mais cinco anos de governo pacífico'. Em sua trajetória para a conquista da Copa, o Brasil derrotara a Inglaterra. O diário carioca Jornal dos Esportes, num artigo intitulado 'Jesus defende o Brasil', explica da seguinte forma o motivo da vitória: 'Toda vez que a bola corria em direção à nossa defesa e o gol parecia inevitável, Jesus baixava a Sua perna do céu e chutava a bola para fora'. O artigo era complementado por desenhos que ilustravam aquele milagre.

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"A Guerra do Futebol"
Autor: Ryszard Kapuscinski
Editora: Companhia das Letras
Páginas: 280
Quanto: R$ 43,00
Onde comprar: nas principais livrarias, pelo telefone 0800-140090 ou pelo site da Livraria da Folha

Comentários dos leitores
Carlos Silva (41) 23/11/2009 20h59
Carlos Silva (41) 23/11/2009 20h59
"Partido de esquerda disputará eleição apesar de apelo de Zelaya"... "A decisão de participar da eleição teve o apoio de 75% dos delegados da UD, apesar dos apelos, ao longo da semana, por parte de Zelaya, do Partido Liberal (centro-direita), para impugnar o pleito presidencial"...NÃO ESPERAVA MENOS. SEJA DE ESQUERDA, DIREITA, CIMA OU BAIXO, TODOS QUEREM: O PODER. ZELAYA JÁ RENDEU O Q TINHA, ATÉ PARA A ESQUERDA "FIEL"."Candidatos encerram hoje campanha presidencial em Honduras"..." Os principais candidatos a presidente de Honduras encerram nesta segunda-feira suas campanhas para a eleição do próximo domingo (29), cuja legitimidade é questionada por diversos países devido à deposição do presidente Manuel Zelaya, em 28 de junho. (...)"Analistas preveem que a abstenção neste ano pode ser ainda maior que os 45% de 2005, quando Zelaya derrotou Lobo." (OBSERVE: ZELAYA FOI ELEITO PELA MAIORIA, DENTRE 55% DE VOTANTES - SOMADOS OS Q PREFERIRAM SE ABSTER, CREIO Q, EMBORA HAJA LEGITIMIDADE, A REPRESENTATIVIDADE DE ZELAYA NÃO PARECE LÁ MUITO BOA) (...) "Os EUA consideram que a eleição é parte importante da solução da crise, mas não ficou claro se Washington reconhecerá o vencedor como o próximo presidente, já que inicialmente o governo Obama condenou o que chamou de golpe --embora os EUA não tenham classificado oficialmente a deposição de golpe de Estado militar-- e pediu a restituição de Zelaya."...DEIXA SAIR O RESULTADO QUE TODOS VERÃO OS EUA ASSINAR EMBAIXO...RAPIDINHO! sem opinião
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Gedeão Barros (75) 23/11/2009 00h34
Gedeão Barros (75) 23/11/2009 00h34
Conclusão.
Caro Sr. FABRIZIO,
Na verdade, o território israelense só diminui. A maior parte do que os israelenses haviam ganho em guerras DEFENSIVAS (território ganho em guerra defensiva, ninguém é obrigado, legalmente, a devolver) eles devolveram: O Sinai, entregue ao Egito em troca unicamente de paz. Se houvesse perspectiva de paz, eles teriam entregue também todo o resto que ganharam SE DEFENDENDO. Os palestinos demonstram não quererem a paz, pois são incentivados por estrangeiros (o Brasil, inclusive) a rejeitar qualquer acordo. Mas, Israel está perto de fechar um acordo com os países árabes, excetuando-se a Síria e o Irã. A tendência desses dois países é sofrerem o isolamento regional. Por isso o presidente porralouca do Irã está se bandeando para a América do Sul. Aliás, entre os próprios árabes, há uma relação de ódio às vezes maior do que contra os judeus. E o Lula vai se meter nesse assunto, a mando do Chapolin, sem entender nada da complexa situação no Oriente Médio. Outro dia li um comentário de uma jovem que disse não entender a última do Lula: ele é contra Israel construir casas em terreno palestino, considerando Israel invasor e os palestinos, os invadidos. Portanto, ele é partidário das vítimas. Mas, aqui no Brasil ele ajuda os invasores (MST) e dá uma banana pros invadidos A jovem disse, arrematando, que não entende nada de coerência, assim como 80% dos brasileiros. Eu faço parte dos 20%. Um abraço. Fui.
22 opiniões
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Gedeão Barros (75) 23/11/2009 00h19
Gedeão Barros (75) 23/11/2009 00h19
Parte 2
Sr. FABRIZIO,
Ninguém contestaria que o bem principal é a vida. No Direito Penal, em qualquer país democrático do mundo, se alguém está em perigo de vida, ele pode se defender sem que se considere crime. É o instituto da legítima defesa. Tal princípio é válido também quando extrapolamos o campo individual. Ninguém, em tempos normais, seria a favor de construir um muro para separar comunidades. Mas, se esse muro for a única solução para reduzir ou impedir os ataques de homens-bomba contra civis, então, deve ser construído. E os fatos comprovam que o muro praticamente acabou com os ataques de homens-bomba. Os judeus vivem o medo 24 horas por dia, todos os dias, há séculos. Eles sabem que numerosos e poderosos inimigos querem destruí-los. Preparar-se para a guerra é questão de sobrevivência para os judeus. Quanto a tratorar casas, lembro que em agosto de 2005, o mundo assistiu ao Plano de Desligamento, a retirada de todos os 21 assentamentos judaicos que ocupavam o território palestino da Faixa de Gaza, uma região de cerca de 360 km2. O Plano também desmantelou 4 assentamentos no ainda ocupado território da Cisjordânia. Foi um passo doloroso dado por Israel em direção à paz e ao fim do conflito. A par disso, Israel é forçado a construir assentamentos em pontos estratégicos para se defender.
Conclusão no próximo post.
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