Presidente chinês desiste de cúpula do G8 e deixa Itália após conflito étnico
da Folha Online
Presidente da China, Hu Jintao, que estava na Itália, decidiu retornar para Pequim nesta terça-feira depois de episódios de violência étnica na Província de Xinjiang em que, oficialmente, 156 pessoas morreram. Ele foi à Europa para participar de um encontro do G8 (que reúne oito das maiores economias do mundo) com os governantes do G5 (os principais emergentes --África do Sul, Brasil, China, Índia e México) e mais o Egito, convidado da Itália.
A agência de notícias italiana Ansa informou que um alto funcionário da embaixada chinesa em Roma disse que o presidente teve de regressar para casa "por causa de assuntos internos e da situação em Xinjiang. Hu chegou à Itália no domingo e visitou Florença nesta terça-feira. Segundo a Ansa, o presidente chinês iria voar diretamente para a cidade próxima de Pisa, mas não estava claro se ele já havia partido.
Sangrentos confrontos étnicos no capital de Xinjiang no início desta semana mataram 156 pessoas e feriram mais de mil. Mais de 1400 pessoas foram presas quando cerca de 20 mil homens das forças de segurança retomaram o controle da capital provincial, Urumqi.
A chanceler alemã, Angela Merkel, havia afirmado que ia pedir explicações ao presidente chinês sobre o confronto de domingo durante o encontro na Itália.
A abertura do encontro do G8 está marcada para esta quarta-feira na cidade italiana de Áquila, e Hu, juntamente com os demais países do G5 deveria participar das reuniões a partir da quinta-feira. A Ansa informou que a delegação chinesa permanece na Itália para participar da reunião.
Novos protestos
A etnia uigur está sob controle chinês desde 1955, quando foi fundada região autônoma de Xinjiang. Desde então são relatados choques entre os islâmicos e o governo, movimentos armados pró-independência, ataques terroristas e mortes de civis na área. Nada, contudo, como a violência que se viu nos últimos dias, classificada pelo governo como os piores distúrbios desde 1949.
Nesta terça-feira, membros da etnia muçulmana atacaram pessoas perto da estação de trem de Urumqi. Em outra parte da cidade, mulheres com lenços na cabeça também foram às ruas protestar contra a prisão de seus filhos e maridos.
Um grupo de cerca de mil jovens da etnia han levavam pedaços de pau na mão e gritavam "Defenda o país" pelas ruas em um protesto que visava a vizinhança uigur da capital regional. A agência France Presse fala em cerca de 10 mil manifestantes da etnia han com armas improvisadas --como pedaços de pau, correntes e facas.
A polícia, contudo, bloqueou o acesso para a área da cidade onde vivem os uigures muçulmanos e lançaram gás lacrimogêneo para conter os manifestantes.
"Os uigures vieram a nossa região para quebrar coisas e agora nós vamos atacá-los", afirmou à France Presse um dos manifestantes da etnia han.
Segundo a agência Efe, um grupo de chineses da etnia han tentou entrar à força na mesquita de Hantengri, no centro de Urumqi, a fim de atacar uigures refugiados no local.
A mesquita, próxima ao hotel onde estão hospedados os jornalistas estrangeiros que cobrem o conflito, estava isolada pelos soldados, mas alguns chineses han, armados com paus, tentaram entrar várias vezes no templo, sem sucesso, por enquanto.
Alguns deles disseram à agência Efe que não há outra saída que fazer justiça com as próprias mãos, já que "o governo não pode fazer nada contra os uigures, por medo da comunidade internacional".
Segundo eles, os uigures atacaram comércios dos han em dias anteriores e não são oriundos da cidade, mas procedentes de outras zonas da região de Xinjiang, como Kashgar e Yili, que, em anos anteriores, também registraram incidentes violentos.
À margem destes grupos, a cidade está tranquila, sem automóveis pelas ruas, enquanto praticamente todos os uigures estão trancados em casa, por medo de represálias.
Histórico
O secretário do Partido Comunista da China (PCCh) na região de Xinjiang, Wang Lequan, informou em discurso televisionado sobre a medida, que proibirá os cidadãos de sair às ruas das 21h às 8h, para, como disse, "evitar um aumento do caos" na cidade que tem 2 milhões de habitantes.
Leguan pediu calma às duas comunidades em conflito, os hans, etnia majoritária na China, e os uigures, principal comunidade muçulmana em Xinjiang.
No domingo passado (5), a repressão dos protestos de uigures resultou na morte de 156 pessoas e deixou mil feridos, segundo dados oficiais. O protesto começou pacificamente com um grupo de entre 1.000 e 3.000 manifestantes da minoria muçulmana uigur em Urumqi. Os manifestantes criticavam a morte de dois uigures em uma fábrica de brinquedos do sul do país, após eles terem sido linchados, e a discriminação por parte da etnia han.
A manifestação, contudo, rapidamente se tornou um confronto de civis contra policiais e militares, que deixou ainda 828 feridos na Província --o pior confronto do tipo em anos no país.
O governo deu poucas explicações sobre a violência dos confrontos e não citou quem são as 156 vítimas dos distúrbios. Eles acusam uma empresária uigur, uma das líderes do movimento separatista da região, de incitar os distúrbios com ligações telefônicas e propaganda em sites.
Com Reuters e France Presse
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