Muçulmanos e maioria étnica vivem em mundos diferentes na China
RAUL JUSTE LORES
enviado especial da Folha de S. Paulo a Urumqi
Dezenas de lojas e restaurantes de um bairro de população uigur foram destruídos nesta quarta-feira por chineses da etnia han, a majoritária no país.
Apesar da presença ostensiva de militares e paramilitares pela cidade, a comerciante Guli pediu à Folha que a acompanhasse para ver seu pequeno restaurante destruído.
"Quando os chineses han nos atacam, não sai na TV", disse. "Estamos sendo caçados pelos han, como se todo uigur fosse um assassino", disse ela.
Em poucos minutos, cerca de 50 uigures cercaram a reportagem para falar de prisões aleatórias de parentes e de ataques pelos han. Até que a polícia apareceu e, com empurrões, dissuadiu Guli e seus vizinhos de continuar a entrevista.
Quando cidadãos han falam com a imprensa, a polícia não intervém.
Apesar do discurso oficial de que han e uigures vivem em harmonia e de que os protestos foram orquestrados por uma minoria de separatistas no exílio, há uma clara divisão na cidade --uigures e han não convivem nos mesmos bairros.
Nas áreas centrais da cidade, onde há shoppings, avenidas bem asfaltadas e com jardins, não se veem uigures.
Já nos bairros dos muçulmanos uigures, a pobreza está em todo lugar. Os conjuntos habitacionais são decrépitos, e os restaurantes, simples.
Apesar de vigiados por policiais, alguns uigures vêm conversar com a Folha para dizer que "agora somos todos vistos como assassinos", segundo o mais velho deles, Faruk.
O desempregado Rashid diz que tudo se trata de um "complô contra os uigures". "Oitenta por cento dos uigures não têm trabalho, não conseguimos emprego, é muito duro ser uigur", lamenta-se.
Nas colinas que cercam a cidade, há milhares de barracos de tijolo aparente e cal, ou até feitos de chapas de madeira, onde se concentra parte da população uigur de Urumqi.
A cena chama atenção, pois favelas são bastante incomuns nas grandes cidades chinesas. Os migrantes rurais que vêm trabalhar nas cidades normalmente moram de forma provisória em dormitórios anexos aos empregos. Ao terminar o trabalho temporário, os migrantes voltam para o campo.
Mas as favelas de Urumqi estão presentes em toda a periferia, e moradores explicam que estão ali de forma "irregular", mas que não pretendem voltar para o desértico interior da Província.
Leia mais notícias sobre o conflito em Xinjiang
- China mantém milhares de soldados em cidade dividida por violência
- Mal-entendido pode ter gerado protestos e onda de violência na China
- Opinião: Harmonia étnica da sociedade chinesa é um mito
Outras notícias internacionais
- Irã anuncia libertação de cinco cidadãos detidos pelos EUA no Iraque
- Sem tropas dos EUA, série de atentados mata ao menos 41 no Iraque
- Nicarágua nega uso do espaço aéreo a governo interino de Honduras
Especial
Livraria

