Cristina Kirchner reforça alta na publicidade para meios pró-governo
THIAGO GUIMARÃES
da Folha de S. Paulo, em Buenos Aires
A presidente da Argentina, Cristina Kirchner, reforçou a tendência de gastos de publicidade da gestão do marido, Néstor Kirchner (2003-2007), com o aumento de despesas e benefícios a meios de comunicação alinhados ao governo.
Em 2008, foram gastos 396 milhões de pesos (R$ 204 milhões) em propaganda --um aumento de 23% ante 2007. Desde 2003, as despesas cresceram 756%. Ou seja, o gasto no primeiro ano de Cristina é 8,5 vezes o do ano inicial de Néstor.
O levantamento é da ONG ADC (Associação para os Direitos Civis), que aponta falta de transparência sobre os gastos e "grande arbitrariedade" na divisão do bolo publicitário.
O casal Kirchner mantém relação tensa e conturbada com a imprensa --critica reportagens e defende o fim dos "monopólios midiáticos". Em março, o governo lançou projeto de lei para alterar a regulação do setor audiovisual que atinge interesses do grupo Clarín, maior conglomerado local de mídia.
Dois meses depois, em maio, começou a fechar acordos com meios de comunicação para trocar dívidas tributárias por espaços de publicidade.
Em mídia impressa, quem recebeu mais verbas oficiais em 2008 foi o governista "Página 12", com R$ 15 milhões --aumento de 107% ante 2006. Depois veio o jornal "Clarín", com R$ 14 milhões e crescimento de 43% no mesmo período.
Em terceiro lugar ficou o grupo de revistas do empresário Sérgio Szpolski, com R$ 7 milhões e aumento de 680% desde 2006 --o maior do setor. Antes das eleições legislativas do último dia 28, a principal revista do grupo publicou na capa: "Proibido voltar aos anos 90".
As revistas de Szpolski e o "Página 12" superaram em publicidade oficial o "La Nación". Enquanto este tem tiragem média de 155 mil exemplares, a circulação do "Página 12", que não é auditada, não supera 25 mil aos domingos, diz a ADC.
"A circulação não deve ser a única razão para definir publicidade em um meio, mas é um bom parâmetro de comparação ante a ausência de critérios claros", diz a ONG. Não há regulamentação que controle a distribuição da publicidade oficial.
Em fevereiro, a Justiça determinou que o Estado concedesse publicidade ao grupo Perfil, que edita a revista semanal "Notícias", a mais vendida no país e crítica ao governo. Apontou "evidente violação da liberdade de imprensa". O governo pagou R$ 88 mil em anúncios e recorreu da decisão.
Apesar de ser o mais completo do país, o estudo da ADC não reflete o total dos gastos -não inclui patrocínios estatais e publicidade não intermediada pela agência oficial de notícias.
Procurada pela Folha, a Secretaria de Meios de Comunicação não respondeu.
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