Após diálogo sem avanço, líder interino diz que Zelaya deve ser julgado em Honduras
da Folha Online
Após uma rodada de negociações sem avanços na Costa Rica, o presidente interino de Honduras, Roberto Micheletti, reiterou nesta quinta-feira que se o presidente deposto, Manuel Zelaya, voltar ao país, será levado diretamente aos tribunais.
"Estamos de acordo com o retorno dele, mas diretamente para os tribunais", declarou Micheletti a jornalistas, após retornar de San José, de um diálogo em busca de soluções para a crise política causada pela deposição de Zelaya, no último dia 28.
Entenda a crise política existente em Honduras
Golpe em Honduras repete roteiro do século 20
Sem apoio do partido, Zelaya espera reação popular
Veterano, Micheletti chega à Presidência após golpe
Micheletti retornou ao país depois de se reunir durante quase uma hora com o presidente da Costa Rica e prêmio Nobel da Paz, Óscar Arias, que aceitou mediar a crise política a pedido do governo dos Estados Unidos.
Arias se reuniu com ambas as partes, mas a jornada de conversas terminou sem que tivessem sentado na mesma mesa o presidente deposto e Micheletti --uma cena emblemática de quão difícil será o diálogo entre duas partes que se dizem dispostas a ouvir, mas não a negociar a divergência no mais crucial ponto da crise: o retorno de Zelaya à Presidência.
"Estamos bem, sem novidades e contentes. Sabemos que a situação com os demais países da América e o mundo é um pouco difícil, mas tenho muita fé em Deus de que pouco a pouco vamos recuperando essa credibilidade", assinalou Micheletti, indicando que sua ida à Costa Rica pode ter sido uma estratégia não para negociar o poder em Honduras, mas para tentar reverter o isolamento internacional.
O atual presidente hondurenho insistiu que não houve golpe de Estado, mas "uma sucessão constitucional".
Sobre o diálogo na Costa Rica, assegurou que analisará do seu país o desenvolvimento dos eventos "para depois dar instruções".
Agenda
O principal objetivo de Arias para essa quinta era estabelecer uma agenda de temas a discutir, para depois colocar na mesma mesa Zelaya e Micheletti, algo que não aconteceu pois o líder em exercício decidiu retornar a Honduras.
Arias se reuniu separadamente com ambos para conhecer suas reivindicações sobre a profunda crise política que Honduras atravessa desde 28 de junho, quando o Exército expulsou Zelaya do país e, logo em seguida, Micheletti assumiu a chefia de Estado.
Depois de quase três horas fechado com o mediador, Micheletti declarou que retornava ainda nesta quinta a seu país, mas que deixava instalada uma comissão de diálogo para continuar as conversas com a equipe de Zelaya, destinadas a solucionar o conflito hondurenho.
"Foi iniciado o diálogo e fica instalada nossa comissão de trabalho, que é integrada pelo ex-chanceler Carlos López, Arturo Currais, Mauricio Villega (ambos assessores do líder), e Vilma Morales, ex-presidente da Suprema Corte de Justiça", disse Micheletti ao fim do encontro com Arias.
Zelaya, que permanece na Costa Rica, nomeou como representantes sua chanceler, Patricia Rodas; Silvia Ayala, deputada de Partido Unificação Democrática; Salvador Zúniga, coordenador de organizações populares, e Milton Jiménez, presidente de Comissão de Bancos e Seguros.
O presidente deposto, que chegou à Costa Rica nesta quarta-feira, se reuniu com Arias durante menos de uma hora e declarou após o encontro que acredita que foi "congruente com a posição de Honduras, a restituição do Estado de direito e a democracia".
Zelaya viaja nesta sexta-feira para Santo Domingo, na República Dominicana, onde se reunirá com o presidente Leonel Fernández, segundo fontes do governo local.
Gelo
A ministra da Comunicação costarriquenha, Mayi Antillón, declarou em coletiva de imprensa que o importante é que "foi iniciado o diálogo e que se está conversando respeitosamente".
Antillón contou que essa é uma "primeira etapa" na qual se pretende "quebrar o gelo" e elaborar a agenda de assuntos a abordar, por isso que Arias está apenas ouvindo as posições dos dois lados.
Em uma futura segunda fase, explicou a ministra, Zelaya e Micheletti confirmaram a Arias a vontade de participar das conversas.
A ministra negou que as gestões desta quinta tenham fracassado e evitou prever por quanto tempo se estenderá esta primeira fase de diálogo, mas reconheceu que é provável que termine nesta sexta.
Arias, que não deu declarações à imprensa, não pôde cumprir seu objetivo de sentar em uma mesma mesa que Micheletti e Zelaya, mas agora dialoga com as comissões, em companhia de seu irmão e ministro da Presidência, Rodrigo Arias, de seu chanceler, Bruno Stagno, e da ministra da Justiça, Viviana Martín.
A jornada foi marcada, além disso, por um grande grupo de manifestantes que protestou contra a presença de Micheletti no país e gritou palavras de ordem a favor de Zelaya e contra o golpe de Estado.
Golpe
Zelaya foi derrubado do poder no último dia 28 em um golpe orquestrado pela Justiça e pelo Congresso e executado por militares, que o expulsaram para a Costa Rica. O golpe foi realizado horas antes do início de uma consulta popular sobre uma reforma na Constituição que tinha sido declarada ilegal pelo Parlamento e pela Corte Suprema.
"Fui retirado da minha casa de forma brutal, sequestrado por soldados encapuzados que me apontavam rifles", contou o presidente deposto, após chegar ao exílio na Nicarágua.
"Diziam: 'se não soltar o celular, atiramos'. Todos apontando para minha cara e o meu peito. [...] Em forma muito audaz eu lhes disse: 'se vocês vêm com ordem de disparar, disparem, não tenho problema de receber, dos soldados da minha pátria, uma ofensa a mais ao povo, porque o que estão fazendo é ofender o povo'."
De acordo com os parlamentares hondurenhos, a deposição de Zelaya foi aprovada por suas "repetidas violações da Constituição e da lei" e por "seu desrespeito às ordens e decisões das instituições". Segundo os seus críticos, com a consulta, Zelaya pretendia instaurar a reeleição presidencial no país. As próximas eleições gerais serão em 29 de novembro.
Depois da saída de Zelaya do país, no Congresso de Honduras, um funcionário leu uma carta com a suposta renúncia, o que ele nega. Zelaya diz ter sido alvo de "complô da elite voraz"; e seu sucessor, Micheletti, diz que o golpe foi um "processo absolutamente legal".
Com agências internacionais
Leia mais
- Presidente deposto e rival de Honduras se encontram com mediação da Costa Rica
- Presidente interino de Honduras chega à Costa Rica e diz querer paz
- Líder interino de Honduras nomeia comissão para diálogo; Zelaya critica "criminoso"
- Nicarágua nega uso do espaço aéreo a governo interino de Honduras
- Zelaya chega à Costa Rica para reunião em que os dois lados dizem que não vão negociar
Outras notícias internacionais
- Brasil é "parceiro estratégico" em vários assuntos, afirmam EUA
- EUA cogitam campanha de vacinação em massa contra gripe suína
- Malásia vai banir o uso de inglês no ensino de ciência e matemática
Especial
Livraria


avalie fechar
avalie fechar
avalie fechar