Presidente deposto de Honduras cruza fronteira a pé sob risco de conflito
colaboração para a Folha Online
Atualizado às 17h09.
O presidente deposto de Honduras, Manuel Zelaya, cruza a pé a fronteira da Nicarágua com Honduras, na altura da localidade de Las Manos, cercado por vários repórteres, fotógrafos e partidários. A rede de TV americana CNN chegou a informar que o presidente deposto havia cruzado a fronteira, mas a TV estatal venezuelana Telesur, que acompanha a movimentação, e as agências de notícias internacionais afirmam que ainda restam alguns metros.
Do lado hondurenho do posto, há uma barreira composta por policiais e militares. Cerca de 300 metros distante, uma nova barreira de agentes de segurança permanece de prontidão. Conforme a CNN, há informações de que, do lado nicaraguense, chegou a haver confronto entre agentes de segurança e manifestantes pró-Zelaya, que queriam acompanhá-lo.
Na comitiva de Zelaya está o chanceler venezuelano, Nicolás Maduro.
O governo interino liderado por Roberto Micheletti promete deter Zelaya assim que ele entrar em território hondurenho, em cumprimento a uma ordem emitida pela Justiça, e impôs toque de recolher a partir das 12h (15h em Brasília) até as 4h30 de sábado (7h30 em Brasília), nas cidades da fronteira de Honduras com a Nicarágua e com El Salvador.
Nesta sexta-feira, os militares de Honduras suspenderam o trânsito de pessoas e de veículos em uma estrada que leva à Nicarágua, a 10 km da fronteira, para impedir o avanço do grupo que acompanha Zelaya. A imprensa, porém, foi autorizada a seguir até Las Manos.
Não é a primeira vez que o presidente deposto tenta retornar a Honduras. No último dia 5, Zelaya tentou aterrissar na capital hondurenha, Tegucigalpa, mas a pista foi bloqueada por militares. Confrontos com as forças de segurança deixaram dois manifestantes mortos. Na quinta-feira (23), Zelaya afirmou considerar "fracassada" a tentativa de mediação entre ele e o governo golpista conduzida pelo presidente costa-riquenho, Óscar Arias.
Zelaya pode ser preso porque é acusado de 18 crimes vinculados à ação que levou à sua deposição, a tentativa de promover uma consulta sobre uma Assembleia Constituinte que Justiça e Congresso consideram ilegal. Com a consulta, ele pretendia instalar a reeleição.
Nesta quinta-feira, uma missão integrada por 15 observadores de ONGs defensoras de direitos humanos da Europa e América Latina acusou o governo interino de realizar prisões arbitrárias, inclusive de estrangeiros, e relacionou o regime a cinco execuções extrajudiciais. O relatório cita como vítimas o jornalista Gabriel Fino Noriega, o político Ramón García e o sindicalista Roger Iván Bados.
Histórico
Zelaya foi deposto nas primeiras horas de 28 de junho, dia em que pretendia realizar uma consulta popular sobre mudanças constitucionais que havia sido considerada ilegal pela Justiça. Com apoio da Suprema Corte e do Congresso, militares detiveram Zelaya e o expulsaram do país, sob a alegação de que o presidente pretendia infringir a Constituição ao tentar passar por cima da cláusula pétrea que impede reeleições no país.
O presidente deposto, cujo mandato termina no início do próximo ano, nega que pretendesse continuar no poder e se apoia na rejeição internacional ao que é amplamente considerado um golpe de Estado --e no auxílio financeiro, político e logístico do presidente venezuelano, Hugo Chávez-- para desafiar a autoridade de Micheletti e retomar o poder.
Isolado internacionalmente, o presidente interino resiste à pressão externa para que Zelaya seja restituído e governa um país aparentemente dividido em relação à destituição, mas com uma elite política e militar --além da cúpula da Igreja Católica-- unida em torno da interpretação de que houve uma sucessão legítima de poder e de que a Presidência será entregue apenas ao presidente eleito em novembro --as eleições estavam marcadas antes da crise.
Mas a pressão externa não é apenas diplomática, e o governo de Micheletti começa a enfrentar a suspensão de financiamentos externos cruciais para as finanças de um dos países mais pobres do continente. O impacto desses cortes, que se somam aos efeitos da crise econômica mundial, é um dos elementos que pesam nas decisões do governo interino em meio à crise.
Com France Presse, Reuters e Efe
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