Milhares vão às ruas de Honduras durante suspensão de toque de recolher
da Folha Online
Após dois dias de toque de recolher em todo o país, as sete horas sem restrição para movimentação em Honduras determinadas nesta quarta-feira pelo governo interino começaram com manifestações em favor do presidente deposto, Manuel Zelaya, que está na Embaixada do Brasil em Tegucigalpa, e uma corrida dos hondurenhos aos supermercados, para comprar mantimentos.
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Milhares de hondurenhos participaram de uma passeata em Tegucigalpa exigindo a restituição de Zelaya assim que começou a suspensão do toque de recolher. O governo de Roberto Micheletti suspendeu a medida, decretada na segunda-feira, após o retorno surpresa de Zelaya ao país, entre 10h e 17h (13h e 20h em Brasília).
A passeata que, segundo os dirigentes da Frente Nacional de Resistência contra o Golpe de Estado, tinha pelo menos dois quilômetros, saiu da Universidade Pedagógica, a leste da capital, e se dirigiu rumo à sede das Nações Unidas, no centro da cidade.
O líder da Resistência, Rafael Alegría, assegurou que os participantes da caminhada eram, basicamente, moradores de Tegucigalpa, já que não houve possibilidade de mobilizar pessoas do interior do país, devido ao toque de recolher.
Segundo a agência Associated Press, milhares de seguidores de Zelaya marcharam em direção à embaixada brasileira, mas foram impedidos de seguir adiante por soldados e policiais que usaram gás lacrimogêneo para dispersá-los depois que os manifestantes atiraram pedras e paus.
A polícia disse que prendeu 113 pessoas depois que dezenas de empresas foram saqueados quando os manifestantes entraram em choque com policiais na noite desta terça-feira. Pelo menos uma pessoa morreu nos protestos.
Um porta-voz policial disse que houve também manifestações pró-Zelaya, na cidade de San Pedro Sula, cerca de 240 km ao norte de Tegucigalpa, e em duas outras cidades. A Frente de Resistência, composta por organizações políticas e sociais, têm realizado manifestações diárias a deposição de Zelaya.
A maioria dos hondurenhos, no entanto, permaneceu em casa desde o retorno de Zelaya, devido ao toque de recolher, e muitos formaram filas em supermercados, postos de gasolina, bancos e lojas de suprimentos, nas principais cidades do país assim que a medida foi suspensa.
Escolas, empresas, aeroportos e fronteiras foram fechados nos últimos dias, mas as empresas foram autorizadas a reabrir temporariamente nesta quarta-feira para que as pudessem fazer compras.
Mas nem todos se animaram a sair de casa durante a suspensão do toque de recolher.
Em uma rua de Tegucigalpa, a costureira Lila Armendia, 38, viu pelo seu portão de madeira em uma cena de queima de lixeiras por manifestantes.
"É assustador para sair", disse Armendia, que não conseguiu sair de casa apara trabalhar. "É como estar na prisão."
Muitas pessoas decididas a conseguir mantimentos cruzaram nas ruas com jovens mascarados sentados em pedras que usavam para bloquear o tráfego.
Histórico
Zelaya foi deposto nas primeiras horas do dia 28 de junho, dia em que pretendia realizar uma consulta popular sobre mudanças constitucionais que havia sido considerada ilegal pela Justiça. Com apoio da Suprema Corte e do Congresso, militares detiveram Zelaya e o expulsaram do país, sob a alegação de que o presidente pretendia infringir a Constituição ao tentar passar por cima da cláusula pétrea que impede reeleições no país.
O presidente deposto, cujo mandato termina no início do próximo ano, nega que pretendesse continuar no poder e se apoia na rejeição internacional ao que é amplamente considerado um golpe de Estado --e no auxílio financeiro, político e logístico do presidente venezuelano, Hugo Chávez-- para desafiar a autoridade do presidente interino e retomar o poder.
Isolado internacionalmente, o presidente interino resiste à pressão externa para que Zelaya seja restituído e governa um país aparentemente dividido em relação à destituição, mas com uma elite política e militar --além da cúpula da Igreja Católica-- unida em torno da interpretação de que houve uma sucessão legítima de poder e de que a Presidência será passada de Micheletti apenas ao presidente eleito em novembro. As eleições estavam marcadas antes da deposição, e nem o presidente interino nem o deposto são candidatos.
Com France Presse, Efe e Associated Press
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