Funcionários do governo iraniano negam segredo sobre planta nuclear
da Folha Online
O diretor da Organização de Energia Atômica Iraniana (OIEA), Ali Akbar Salehi, disse nesta sexta-feira à agência de notícias France Presse que "não é secreta" a planta nuclear que foi revelada em carta para a Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA). "Esta instalação não é um segredo e por isso sua existência foi anunciada à AIEA", afirmou.
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Em condição de anonimato, outro funcionário do governo iraniano também negou, à agência de notícias Reuters, que a planta fosse secreta.
No entanto, mais cedo, o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, havia afirmado que a planta só havia sido anunciada pelo governo iraniano depois de EUA, Reino Unido e França terem apresentado "provas detalhadas" da sua construção, mantida em segredo "há anos". O local ficaria perto de Qom.
Na carta dirigida ao diretor-geral da AIEA, Mohamed El Baradei, o governo iraniano confirma a existência da planta denunciara pelas potências ocidentais, mas afirma que só dará "outras informações complementares no devido tempo e de forma apropriada", segundo os detalhes divulgados pelo porta-voz Marc Vidricaire, em comunicado.
O único dado técnico que Vidricaire adiantou é que o nível de enriquecimento de urânio seria de até 5%, condição que daria origem a um combustível pouco purificado, suficiente apenas para alimentar reatores nucleares de geração de eletricidade. O comunicado não dá detalhes sobre o conteúdo da carta, mas diz que "o organismo acredita ainda nenhum material nuclear tenha sido introduzido na instalação do Irã".
O Irã já possui uma grande usina de enriquecimento de urânio conhecida, em Natanz, a 250 km de Teerã, na região central do país, cuja existência foi revelada em 2002.
O complexo já conhecido, que tem uma parte subterrânea, é monitorado atualmente pelos inspetores da AIEA. A agência divulgou um relatório recentemente no qual dizia que o regime iraniano reduziu a quantidade de enriquecimento de urânio pela primeira vez em alguns anos, mas advertiu que ainda não foram esclarecidas as metas nucleares.
Reação
O anúncio da AIEA de que o Irã havia mencionado a planta supostamente secreta provocou reação quase imediata dos dirigentes dos Estados Unidos, Reino Unido e França, que estão reunidos na cidade americana de Pittsburgh, onde irão participar, a partir desta sexta-feira, de reunião do G20.
Em seu discurso, o presidente dos EUA, Barack Obama, afirmou que "não é a primeira vez que o Irã esconde informações" sobre o seu programa nuclear e ressaltou que o país tem direito à energia nuclear, mas que o tamanho e a configuração da planta recém-descoberta são inconsistentes com um programa nuclear pacífico. "O Irã está quebrando regras que todos os países têm que cumprir", disse.
O americano destacou também que a nova planta vem a público "anos após sua construção" e que existe uma preocupação crescente pelo Irã se recusar a assumir a responsabilidade".
Obama voltou a pedir que o Irã se engaje nas negociações pela desnuclearização conduzidas pelo Grupo dos Seis (EUA, Reino Unido, França, Rússia, China e Alemanha) que mostre ação na reunião marcada para ocorrer próximo dia 1º de outubro, na Alemanha. "Nessa reunião, o Irã precisa estar preparado para cooperar totalmente com a AIEA."
Em tom mais rígido, o presidente da França, Nicolas Sarkozy, disse que está convencido de que, com seu controverso programa nuclear, o Irã "levou a comunidade internacional por um caminho perigoso". "Estamos em uma crise de confiança."
"Tudo precisa ser colocado na mesa agora. [...] Nós não podemos deixar os líderes iranianos ganharem tempo enquanto os motores estão em ação", disse Sarkozy. O presidente também cobrou que a AIEA faça uma investigação "exaustiva, estrita e rigorosa" sobre a nova usina.
Com France Presse e Reuters
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Abdul Khaleq Abdullah, um professor de ciência política da Universidade dos Emirados Árabes Unidos disse: "Eu acho que os Estados do Golfo fazem bem em desenvolver agora estratégias com base na suposição de que o Irã está prestes a se tornar uma potência nuclear. É um jogo totalmente novo. O Irã agora está forçando todos na região a entrarem em uma corrida armamentista."
Esta percepção, por sua vez, gera novas ansiedades e abala velhas suposições.
Escrevendo para o jornal pan-árabe "Al Quds Al Arabi", o editor, Abdel-Beri Atwan, disse que com os recentes desdobramentos "os regimes árabes, e os do Golfo em particular, se verão como parte de uma nova aliança contra o Irã ao lado de Israel".
O chefe de um proeminente centro de pesquisa em Dubai disse que poderia até mesmo ser melhor se o Ocidente -ou Israel- realizasse um ataque militar contra o Irã, em vez de permitir que ele se transforme em uma potência nuclear. Esse tipo de conversa por parte dos árabes quase não era ouvida antes da revelação da segunda instalação de enriquecimento, e apesar de ainda ser rara, reflete o crescente alarme.
"A região pode conviver melhor com uma retaliação limitada por parte do Irã do que viver com uma dissuasão nuclear permanente. Eu defendo a realização do trabalho agora em vez de viver o restante da minha vida com uma hegemonia nuclear na região que o Irã gostaria de impor."
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