Chanceler Amorim diz que Brasil recusou pedido de Zelaya por avião
MÁRCIO FALCÃO
da Folha Online, em Brasília
O ministro Celso Amorim (Relações Exteriores) revelou nesta terça-feira para senadores da Comissão de Relações Exteriores do Senado que o presidente deposto de Honduras, Manuel Zelaya, pediu ao Brasil um avião para retornar ao seu país, mas que o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva negou. Amorim disse que recebeu um telefonema de Zelaya e que a solicitação ocorreu em julho passado.
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| Eraldo Peres/AP |
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| O ministro Celso Amorim fala da situação de Honduras ao Senado; ele disse que governo Lula se recusou a emprestar avião a Zelaya |
Segundo Amorim, Zelaya tentou sensibilizar o governo argumentando que a FAB (Força Aérea Brasileira) tinha cedido um avião para a levar a Honduras o secretário-geral da OEA (Organização dos Estados Americanos), José Miguel Insulza.
"Como nós tínhamos emprestado um avião para o secretário-geral da OEA, ele [Zelaya] se entusiasmou. Eu avisei o presidente Lula e disse não. Isso não mostra que o Brasil sabia dos planos? Que ele estava tentando voltar para Honduras é óbvio. Mas quis mostrar com essa história que nós não estamos embarcando em nenhum aventurismo", afirmou.
Durante audiência pública, o ministro reforçou que o governo brasileiro não sabia da volta de Zelaya para Honduras e que só foi avisado de que ele pretendia ir para a embaixada brasileira em Tegucigalpa cerca de 30 minutos antes da sua chegada. "O Brasil não sabia, mas não se sentiu ofendido. O Brasil fez o que tinha que fazer", afirmou.
Amorim também afirmou que se o Brasil tivesse negado abrigo ao presidente deposto de Honduras, ele poderia estar "morto" ou "planejando uma guerra civil". "Não sei o que teria acontecido se o Brasil não tivesse aceito. Ele teria sido preso, talvez morto. Ou estaria numa serra planejando uma guerra civil, uma insurreição", disse.
O ministro disse que o apoio brasileiro à volta de Zelaya foi para ajudar a restabelecer a democracia e evitar a violência em Honduras e que o fato foi um passo importante para a abertura do diálogo.
"A presença do presidente Zelaya é reconhecida por toda a comunidade internacional. Tivemos uma conversa ampla com a secretária de Estado dos Estados Unidos, Hillary Clinton, e ouvi palavras de agradecimento pelo Brasil tentar restabelecer a democracia. A volta de Zelaya é um elemento positivo, propiciador do diálogo que não estava havendo porque o governo de facto não tem aceitado condições internacionais", afirmou.
"A volta de Zelaya é um elemento positivo, propiciador do dialogo que não estava havendo porque o governo de facto não tem aceitado condições internacionais [para uma negociação] que, inclusive, já foram acatadas pelo presidente Zelaya para evitar até mesmo uma guerra civil em seu país", completou.
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O ministro disse que o Brasil avalia que tem conduzido com êxito a ocupação da embaixada brasileira por apoiadores de Zelaya, que não tem participado de atos violentos. Ele sustentou ainda aos senadores que o governo brasileiro orientou o presidente deposto a evitar excesso nas declarações que pudessem aumentar a instabilidade no país.
"Se em algum momento houve exagero, temos buscado diminuir pelos meios diplomáticos, conter as declarações exaltadas do presidente Zelaya. Quando ele disse que a posição era de pátria, restituição ou morte, eu pedi, por favor presidente Zelaya não fale em morte, porque tudo que queremos evitar é que isso ocorra, e ele atendeu", afirmou.
Amorim evitou dizer aos senadores como o Brasil define a situação de Zelaya na embaixada. A oposição quis saber se ele era convidado, hospede ou asilado político, mas o ministro desconversou.
O presidente de Honduras foi deposto há três meses do cargo em um golpe apoiado pela Suprema Corte, Congresso e Forças Armadas do país. O governo instalado, do presidente interino, Roberto Micheletti, não foi reconhecido internacionalmente, mas quer continuar no comando até a posse do candidato vencedor da eleição marcada para novembro que vem.
Há oito dias, Zelaya chegou à embaixada brasileira na capital Tegucigalpa pedindo abrigo --de surpresa, conforme a versão do Brasil. Desde então, o prédio está sob cerco militar.
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