Mundo
09/10/2003 - 11h38

Vaticano diz que camisinha não impede Aids, segundo BBC

da Folha Online

O Vaticano está dizendo a seus milhões de fiéis que --ao contrário do que afirma a ciência-- os preservativos não conseguem impedir a transmissão do vírus da Aids, segundo um programa da TV britânica.

Se os preservativos não podem garantir o bloqueio do esperma, eles têm menos chance ainda de impedir a transmissão de um vírus muito menor, de acordo com o argumento do Vaticano.

A Igreja Católica se opõe a qualquer forma de contraceptivo artificial -- especialmente preservativos. Segundo ela, camisinhas promovem a promiscuidade.

Mas a tradicional oposição agora está sendo reforçada por argumentos sobre a eficácia dos preservativos.

"O argumento moral contra o uso de preservativos está sendo substituído por um argumento clínico que é falho", afirmou Steve Bradshaw, repórter do programa "Sexo e a Cidade Sagrada", da BBC, que será transmitido no Reino Unido no próximo domingo (12).

"O vírus da Aids é cerca de 450 vezes menor que o espermatozóide", afirmou o cardeal Alfonso Lopez Trujillo, presidente do Conselho Pontifício da Família do Vaticano, ao programa.

"O espermatozóide pode passar facilmente pela 'rede' que é formada pelo preservativo", disse.

Trujillo declarou que, assim como autoridades de saúde alertam sobre os danos do tabaco, elas tinham a obrigação de divulgar alertas parecidos sobre os preservativos.

Bradshaw afirmou à agência de notícias Reuters que a equipe do programa "ouviu o mesmo argumento muitas vezes de várias pessoas em diversos locais" e que por isso "revolveu questionar o Vaticano".

Perigo

A Organização Mundial de Saúde rejeitou as declarações do Vaticano.

"Essas declarações incorretas sobre preservativos e HIV são perigosas quando enfrentamos uma pandemia global que já matou mais de 20 milhões de pessoas e que atualmente atinge ao menos 42 milhões", afirmou um porta-voz da OMC no programa.

Ele afirmou que camisinhas podem romper ou serem danificadas e permitir a passagem do sêmen. O porta-voz declarou ainda que os preservativos reduzem em 90% o risco de infecção de HIV e são seguros o suficiente para prevenir a passagem do vírus, se não forem rasgados.

O programa afirmou que pesquisas científicas descobriram que os preservativos são impermeáveis o suficiente para impedir a passagem de partículas pequenas como os vírus transmissores de doenças sexualmente transmissíveis.

"Eles estão errados sobre isso [...]. Isso é um fato facilmente reconhecível", afirmou Trujillo.

Uma equipe do programa encontrou o mesma afirmação da Igreja Católica --de que os preservativos não conseguem impedir a transmissão do vírus da Aids-- em diversos países, como Nicarágua, Quênia e Filipinas.

Não houve uma declaração oficial do Vaticano hoje.

Com agências internacionais

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