Mundo
06/11/2009 - 09h34

Artigo: A queda do Muro de Berlim e a busca da sua realidade

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WOLFGANG BADER
especial para a Folha Online

A lembrança à Queda do Muro: estas são imagens que nos dias decisivos eram veiculadas pela mídia no mundo todo, todos os dias, afetando tanto a "grande" política como "pequenos" destinos particulares e "pequenas" cidades.

A Queda do Muro certamente pertence aos ícones globais. Quanto ao Muro em si, quase não há recordações, sendo que muitas vezes um sentimento de "irrealidade" se instala dentro de mim. Apesar da maciça presença, o Muro tinha algo de fantasmagórico. Como um fantasma ele se arrastava pelo tempo e o espaço, congelando tudo: o espaço, no qual paralisava todas as ansiedades humanas por mobilidade e mudança de lugar, e o tempo, no qual o Muro pairava como linha fronteiriça entre os grandes blocos da Guerra Fria, paralisando a história num equilíbrio do medo, impedindo qualquer deslocamento, mas obrigando a posicionamentos: independente de onde no mundo estivéssemos, pertencíamos a este ou àquele lado do Muro.

A Queda do Muro também é a busca pela realidade de destinos e experiências que indivíduos tiveram com ela.

Os meses dramáticos de setembro a dezembro de 1989 eu passei em Calcutá, na Índia, não tendo realmente acesso aos acontecimentos que mudariam não somente o rumo da história alemã, mas da história mundial. As poucas notícias que eu obtinha, eram principalmente provenientes de programas de rádio alemão que conseguia sintonizar e algumas informações veiculadas pela TV indiana.

Acima de tudo sinto falta do dinamismo dos acontecimentos diários e a emoção à pergunta que acompanha todo processo histórico dinâmico: no que isso tudo vai dar? Quem será vencedor, perdedor, quem será o vilão, quem a vítima? Quando hoje assistimos às notícias da época, percebemos o quanto nos apegamos a um certo nível de noticiário, que certeiramente casa a notícia com imagens emblemáticas e que, então, permanecem em nossa memória por anos. Na época, eu estava em Calcutá e não obtive imagens. Mas em compensação, tive uma experiência que, da perspectiva de hoje, também chega perto de um fantasma.

A história incrível que presenciei como alemão no exterior aconteceu no dia 7 de outubro de 1989, data de comemoração dos 40 anos de fundação da RDA. Em Calcutá, capital do estado de Bengala e sob regime comunista, o evento foi celebrado em grande estilo em solidariedade ao socialismo, contando com a participação de uma enorme delegação oficial da RDA. Apesar de faltar apenas um mês para a Queda do Muro de Berlim, o grupo defendia ferozmente o sistema da RDA contra a política de Gorbatchov, polemizando contra a política da Perestroika. Aqui o mundo comunista parecia estar em plena ordem e não havia por que duvidar que o regime pudesse estar correndo perigo de ter chegado ao fim.

No dia anterior a equipe de futebol da RDA havia ganhado o jogo contra a equipe nacional da Rússia, o que levou o então presidente bengalês a um discurso ardente, no qual ele defendeu a RDA contra a Perestroika de Gorbatchov, animando a RDA a fazer valer sua influência ortodoxa. O cerne do discurso era: "às vezes o aluno tem que ensinar o professor", ou seja, temos que nos orientar na RDA e não na Rússia.

Infelizmente não tenho a maioria das imagens dramáticas e emocionantes da Queda do Muro em minha mente, até porque, como já disse anteriormente, não as vi ou presenciei. Assim, quando retornei à Alemanha em fevereiro de 1990, logo fui à Berlim e me deparei com uma nova realidade: era o dia em que a casa da guarda Checkpoint Charlie estava sendo removida para ampliar as estradas entre Berlim Ocidental e Oriental através do muro.

A atmosfera estava animada e o clima era de festa para tocar o muro e atravessá-lo constantemente. O ato da abertura do muro logo se transformaria em ato de demolição do mesmo, simbolizado por uma destruição que se faz com enorme prazer. Todos se sentem vencedores e era como estar entorpecido por não somente colocar a mão na tão distante e intocável construção, mas simplesmente demoli-la.

Eu também não fiquei parado. Peguei um martelo emprestado e quebrei alguns pedaços autênticos que guardo até hoje como lembrança a uma realidade que não queremos ver repetida nunca mais: Lembrança a constelações históricas que possibilitaram sua construção; lembrança a sofrimento por dividir famílias e amigos; lembrança de como é viver sem liberdade e portanto levou pessoas a morrer por ela; lembrança a um regime que espiona seu próprio povo e o mantém em cárcere. Todas essas lembranças à Guerra Fria precisam ser mantidas para podermos valorizar os tempos de paz, nossa liberdade de expressão e embarcar em processos de democratização que desenvolvam maior força política e cultural para assegurar convivências pacíficas e evitar processos que poderiam levar a novas construções de muros.

A Alemanha reunificada está aprendendo com a história. Depois da Queda do Muro, era hora de juntar partes divergentes e, como disse o ex-chanceler Willy Brandt: "Agora cresce junto, o que junto pertence". Um povo antes separado teve que se reencontrar e desenvolver uma nova comunidade, constituir uma nova nação. O mundo descongelava, espaço e tempo eram reorganizados, as pessoas voltam a fazer o que está em sua natureza: movimentar e deslocar-se. O que hoje faz a população participar ativamente de discussões abertas sobre planejamento e se envolver politicamente.

Hoje, ainda restam alguns muros a serem quebrados. Para falar de barreiras físicas, podemos citar as fronteiras entre a Coreia do Sul e do Norte, Israel e Palestina, sul dos Estados Unidos e México, assim como os invisíveis, na Europa, para barrar imigrantes ilegais, além de erguer fronteiras entre ricos e pobres. Mas, mais do que os muros físicos, ainda precisamos derrubar os nossos muros invisíveis de preconceitos, sejam eles religiosos, raciais ou culturais. Do fantasma do Muro de Berlim resta a lembrança na cabeça das pessoas e pequenos vestígios nas ruas, que simbolizam a trajetória do Muro. Mas, acima disso, o trânsito flui para outra realidade.

Wolfgang Bader, 60, é diretor do Instituto Goethe de São Paulo e diretor regional da instituição para a América do Sul. Professor de alemão, já trabalhou na Espanha e na França, além de Alemanha e Brasil.

Comentários dos leitores
Chris Maria (231) 11/11/2009 17h30
Chris Maria (231) 11/11/2009 17h30
"Os 192 Estados-membros da Assembleia Geral da ONU (Organização das Nações Unidas) consagraram nesta quarta-feira o dia 18 de julho como Dia Internacional Nelson Mandela"
► Uma pessoa extraordinária. Parabéns!
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Elton Santos (9) 10/11/2009 17h03
Elton Santos (9) 10/11/2009 17h03
O Muro de Berlim foi brincadeira de criança comparado a outro muro que não separa mais o primeiro do segundo mundo pois este já não existe mais e sim o que separa o primeiro do terceiro. O Muro da fronteira do Estados Unidos com o México representa justamente isso: As classes abastadas devem estar seguras das que servem apenas como consumidoras nessa nova desordem mundial baseada no capital. Nessa fronteira se mata muito mais, as diferenças são muito maiores mas isso não importa não é mesmo? A democracia é um patrimônio que a humanidade não pode abrir mão nunca mais, mas não podemos também justificar com ela o extermínio através da fome e miséria que o mundo presencia causado pelo neo-liberalismo. 9 opiniões
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Juca Bala (84) 10/11/2009 11h33
Juca Bala (84) 10/11/2009 11h33
Foi bonita a festa de comemoração da queda do muro de Berlim e do fim do símbolo de um regime desumano e retrógrado. Será que o Chico vai cantar "Foi bonita a festa pá" rsrsrs. "A queda do muro --escreveu João Paulo 2°-- como a queda de perigosos simulacros e de uma ideologia opressiva, demonstraram que as liberdades fundamentais, que dão significado à vida humana, não podem ser reprimidas nem sufocadas por muito tempo".(Ou viva o neo-liberalismo) Santas palavras... ainda não aprendidas pelos muitos cabeças de bagre por aqui. 5 opiniões
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