Alemanha aparece mais segura, 20 anos após queda do Muro de Berlim
PATRICK RAHIR
da France Presse, em Berlim
Vinte anos após a abertura do Muro de Berlim, a Alemanha ocupa um novo lugar no cenário internacional e não hesita em dizer não a seus parceiros para defender seus interesses. "Até 1989, entre os Estados Unidos e a URSS, a Alemanha era uma questão de política externa, e hoje ela se tornou um ator", ressalta Jackson Janes, do Instituto Americano de Estudos Contemporâneos sobre a Alemanha.
Os alemães defendem seus interesses nacionais. Até a reunificação, "ser europeu era o único nacionalismo permitido na Alemanha", diz Ulrike Guérot, do Conselho Europeu para Relações Exteriores. Liberada dos constrangimentos da divisão em dois Estados pertencentes a dois blocos, "ela teve de enfrentar escolhas novas e aprender a dizer não", explica Janes.
Reunificada em 1990, a Alemanha se limitou a financiar a ofensiva liderada pelos Estados Unidos para libertar o Kuait da ocupação iraquiana. Mas, em 1999, o chanceler Gerhard Schroeder arrancou do Parlamento um acordo para participar da campanha aérea da Otan (a aliança militar ocidental) contra a Sérvia no Kosovo. Desde então, as forças alemãs aumentaram as operações no exterior, do litoral do Líbano às montanhas do Afeganistão, onde elas formam o terceiro contingente estrangeiro, atrás de EUA e Reino Unido.
Mas foi o mesmo Schroeder que, após ter proclamado que a política da Alemanha seria ditada apenas por seus interesses, se recusou a participar da guerra no Iraque. Mais tarde, a chanceler Angela Merkel se negou a formar uma frente comum com seus parceiros europeus para lutar contra a crise financeira de 2008. Ela critica com veemência os banqueiros americanos e rejeita as pressões de Washington para reequilibrar as trocas comerciais.
"A Alemanha toma consciência de sua posição", diz o ex-presidente da Comissão Europeia Jacques Delors em entrevista à revista francesa "La Tribune". "Esta não é mais a Alemanha que aceita fazer sacrifícios porque desejava ser perdoada". "Nos tornamos um Estado-nação normal, e isso é justo", acrescenta Eberhard Sandschneider, do Conselho Alemão para Política Externa.
Ulrike Guérot teme, no entanto, que por trás deste "retorno à normalidade se esconda uma 'renacionalização'". Ela detecta na classe política e econômica alemã um discurso oculto: "pagamos um preço caro demais durante muito tempo pelos outros, devemos nos recuperar". Este estado de espírito acarreta para a Alemanha um abandono de suas responsabilidades europeias, diz, pois independentemente de quanto pagar, ela permanecerá liderando o jogo e ditando as regras da construção europeia.
Outros pensam que, pelo contrário, a Alemanha, maior exportador mundial, maior potência econômica europeia, com 82 milhões de habitantes, ainda é muito tímida.
"A Alemanha permanece prisioneira de sua história. Nossa política é ainda muito reservada. Merkel não está preparada para a confrontação", considera Stefan Cornelius, editorialista da "Süddeutsche Zeitung".
A chanceler reflete, sem dúvida, a ambivalência de seus compatriotas. Em uma pesquisa da Universidade de Stuttgart divulgada na primavera (hemisfério norte), 75% das pessoas consultadas, ou seja, duas vezes mais que em 2001, se disseram "orgulhosos de serem alemães, apesar da história de seu país".
Mas se 61% dos alemães aprovam que em certas ocasiões, como na Copa do Mundo de futebol organizada pela Alemanha em 2006, seja exibida a bandeira nacional preta, vermelha e dourada, 53% nunca o fariam por si mesmos.
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