Mídias do leste e oeste ajudaram a manter e derrubar Muro de Berlim
GABRIELA MANZINI
da Folha Online
Um simples muro jamais foi suficiente para manter a Alemanha dividida entre capitalistas e socialistas durante quatro décadas. O que sustentou essa fronteira foi, em grande parte, propaganda. Principalmente no que diz respeito à extinta RDA (República Democrática Alemã, a Alemanha comunista), que pretendia apresentar uma nova forma de governo a seus cidadãos.
Para os comunistas alemães, portanto, tão importante quanto controlar todos os meios de comunicação da Alemanha Oriental era manter vigilância também sobre o material veiculado na Ocidental, cujo discurso livre permeava, perigosamente, seu território. Para isso, o SED, partido comunista alemão, decidira que, de sua parte, só partidários muito bem treinados chegariam a jornalistas e que, em relação aos "estrangeiros" da mídia ocidental, era necessária a atuação da Stasi, a sua poderosa polícia secreta.
O jornalista alemão Ulrich Schwarz foi um desses "estrangeiros" no período em que trabalhou, na Berlim Oriental, como correspondente do famoso semanário ocidental "Der Spiegel". Ele classifica a perseguição que diz ter sofrido de "terror psicológico puro" e conta que via a RDA como território inimigo, embora estivesse a apenas alguns quilômetros de casa.
"Uma vez, no meio da noite, recebi um telefonema. Me levantei, com sono, e a linha estava aberta, mas não se escutava nada. Pensei 'típico da RDA, não sabem nem usar um telefone' e voltei para a cama. Mas a intenção era só me acordar. Dez minutos mais tarde, outro telefonema, e escuto uma voz dizendo: 'adeus, adeus, adeus'. Sempre em um tom monótono, repetitivo. Aquilo teve um efeito incrível sobre mim", relata o jornalista.
Schwarz não tem dúvida de que o episódio, ocorrido em 1987, foi obra da Stasi. Ele argumenta que seu afastamento não gerava benefício para ninguém, e que apenas a Stasi teria condições de fazer algo parecido. Naquele dia, logo depois de desligar o telefone, ele agarrou alguns pertences, correu para a fronteira e, utilizando-se de um visto especial, migrou ainda à noite, para dormir na Berlim Ocidental. "Passei metade do ano tendo pesadelos."
Não era a primeira vez que Schwarz e sua "Spiegel" encaravam a mão pesada do SED. A revista teve seu escritório na Berlim Oriental fechado menos de um ano depois de os primeiros jornalistas ocidentais terem sido autorizados a permanecer na cidade. O motivo foi a publicação de uma carta aberta do médio e alto escalões do regime que previa a reunificação do país. Nos anos seguintes, mais de 80 profissionais da revista tiveram pedidos de acesso a Berlim Oriental negados, mesmo quando os motivos apresentados para a viagem eram de cunho pessoal. O "Spiegel" voltaria ao leste apenas em 1985.
"Para os comunistas, era importante ter o monopólio dos meios de comunicação, já que eles precisavam vigiar todo o espaço público. Isso está relacionado também à ideia de que há um pequeno grupo de comunistas que sabe o que é correto", explica Christoph Classen, especialista em mídia do Centro de História Contemporânea de Potsdam (40 km de Berlim).
Mídia comunista
Enquanto isso, do lado oriental, nenhum controle ou espionagem geravam conflitos. Isso porque o SED selecionava bem os profissionais de suas redações. "Os exemplos [de resistência] não são tão comuns quanto poderíamos esperar por causa desse sistema de formação que só deixava pessoas com lado político 'íntegro' chegarem a jornalistas. [à] No começo dos anos 50, havia muitas pessoas que, em algum assunto, tinham uma posição diferente. Isso era perigoso, e houve jornalistas que foram levados para a prisão e morreram. Com o passar dos anos, isso foi se tornando raro."
| Reprodução |
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| "Comunismo traz paz, trabalho, liberdade, igualdade e felicidade ao mundo", afirma manchete do jornal "Neues Deutschland", da RDA |
O jornalista Peter Kollewe, atualmente secretário de redação do jornal mais importante da RDA, o "Neues Deutschland", ainda em funcionamento, confirma o que chama de "relação muito estreita" entre o jornalismo e o partido. Ele conta que, toda noite, um dos profissionais do "ND" ia à sede do partido comunista com um esboço da edição seguinte para avaliação. "Os redatores ficavam sentados esperando eventuais correções."
O "ND" continua sediado em um imponente edifício da zona leste de Berlim, mas já não conserva o brilho de 20 anos atrás. Financiado pelo SED, o jornal tinha 750 profissionais e uma tiragem diária de 1 milhão a 2 milhões de exemplares. Hoje, sob o recém-fundado partido Die Linke (A Esquerda, em alemão), divide o prédio com dezenas de escritórios e vende cerca de 40 mil exemplares por dia.
Kollewe chegou à redação do "ND" em 1985, depois de largar o trabalho de operário para, sempre sob anuência do partido, estudar jornalismo e concluir um doutorado sobre o socialismo francês. Em uma época de rígido controle sobre a circulação fora do bloco soviético, Kollewe foi enviado pelo "ND" para França, Chipre e Cuba. Segundo ele, o segredo para fazer jornalismo sob o SED estava em saber a maneira correta de informar algo. "O problema não é dizer, é a forma de dizer. Saber se vale a pena colocar toda sua agressividade, ou se é mais eficaz contê-la", diz.
Pois nem se quisessem jornalistas ocidentais adotariam tamanha ponderação. Depois da reunificação, Schwarz, do "Spiegel", teve acesso aos arquivos que a Stasi mantinha sobre ele e descobriu que havia microfones espalhados por toda sua casa. "Uma vez organizei uma festa para amigos dos movimentos cívicos [opositores do SED] e, depois, soube que, entre os convidados, havia três espiões. Havia também um casal vizinho que me vigiava", disse.
Mudanças
Conforme Classen, os comunistas se reuniam a cada quatro anos para refazer seus planos e, nesses encontros, definiam também quais assuntos estariam na mídia. "Por um momento, a estratégia foi bem-sucedida, porém o problema era que, mesmo após a proibição de distribuição dos jornais não comunistas, a TV e o rádio ocidentais continuavam disponíveis na RDA."
O curioso, ressalta Classen, e que os habitantes da Berlim Oriental não estavam interessados no que o Ocidente produzia sobre política, mas sim sobre entretenimento.
"Eu acho que a mídia do oeste teve importância no fim da RDA não no nível político, mas no de estilo de vida. Era importante para as gerações mais jovens. Nos 50, havia o rock. Nos 60, beat music. Nos 70, punk. Tudo veio do outro lado da fronteira, tudo que era atraente saiu do oeste", diz o especialista. "O desenvolvimento planificado dos comunistas não conseguia prever hits. Não dá para prever um Michael Jackson."
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