Mundo
07/11/2009 - 12h05

"Filha" do Muro de Berlim lamenta preconceitos pós-reunificação

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GABRIELA MANZINI
da Folha Online

Quando Jamila al Yousef nasceu, seu mundo estava em convulsão. Em poucas horas, o país comunista em que sua mãe cresceu acabaria, com a repentina abertura das fronteiras entre as Alemanhas Oriental e Ocidental. No próximo dia 9, quando os alemães comemoram o 20º aniversário da queda do Muro de Berlim, Jamila comemora 20 anos de vida.

Leia cobertura completa sobre os 20 anos da queda do Muro

Arquivo pessoal
Nascida na RDA, Jamila al Yousef diz que igualdade importa tanto quanto a liberdade
Nascida na RDA, Jamila al Yousef diz que igualdade importa tanto quanto a liberdade

Filha de imigrante palestino com uma alemã da antiga RDA (República Democrática Alemã, a Alemanha comunista), a jovem nasceu na Berlim Oriental e se mudou, com os pais, em 1993, para Güstrow. Há poucos meses, ela foi para o Reino Unido, onde estudará história e política.

Ela conta que, sob a ditadura comunista, seus pais eram "cidadãos satisfeitos", e que a mãe é ainda grata ao regime pela oportunidade de estudar. Neste sentido, ela diz prezar a igualdade tanto quanto a liberdade e lamenta o fato de alguns alemães ainda distinguirem os que saíram "do outro lado". "Nós vivemos em uma Alemanha unificada."

Jamila também relaciona o muro que marcou seu nascimento àquele que marca, hoje, a vida dos seus parentes palestinos. "Pessoalmente, acho interessante que eu tenha nascido no dia em que o muro caiu, na Alemanha, e que, ao mesmo tempo, na Palestina, onde minhas raízes estão, onde minha família paterna está, haja hoje um muro, na fronteira com Israel. Isso é uma conexão interessante para mim."

Leia abaixo os principais trechos da entrevista concedida por Jamila à Folha Online:

FOLHA ONLINE - Como foi o dia do seu nascimento?
YOUSEF - Minha mãe teve um parto complicado, levou umas 11 horas. Eu nasci quase ao meio-dia, meus pais acabaram nem sabendo sobre a queda. Meu pai, que é médico, estava trabalhando no hospital, enquanto minha mãe estava em trabalho de parto. Mais tarde, meu tio chegou e disse 'o muro está aberto', e ela não acreditou, respondeu 'ah, fale sério, não brinque'. Minha mãe não conseguia acreditar, ela nunca tinha visto o lado oeste de Berlim. Dois dias depois, meus pais foram a Berlim Ocidental pela primeira vez para comprar brinquedos e roupas do oeste para mim.

FOL- Como a queda do Muro mudou a vida dos seus pais?
YOUSEF - Para eles, foi uma grande oportunidade. Três anos depois da queda do Muro, nos mudamos para outra cidade, onde eles abriram um consultório. E isso jamais teria sido possível na RDA, porque lá os médicos trabalhavam só nas clínicas estatais. Além disso, os dois passaram a poder viajar.

FOL- Seu pai é um refugiado palestino. O que ele fazia em Berlim Oriental?
YOUSEF - Meu pai saiu da Palestina aos 14 anos de idade e se refugiou na Jordânia, de onde saiu quatro anos depois, para ir à Alemanha, onde seu irmão mais velho estudava. Ele trabalhou, aprendeu alemão e, em um ano, começou a cursar medicina. Já no final do curso, ele ganhou uma bolsa da RDA para estudar em Berlim, porque o regime apoiava bastante os refugiados palestinos.

Meus pais passaram anos noivos porque eles queriam se casar, mas a RDA não permitia. O regime temia que minha mãe fosse requerer dupla cidadania. Demorou muito tempo para que eles tivessem permissão, minha mãe escrevia ao governo toda semana. Em uma quarta-feira, eles finalmente receberam um telefonema dizendo que eles deveriam se casar na sexta-feira, dois dias depois. Àquela altura, minha mãe já estava grávida de oito meses.

FOL- Como você avalia a versão dos seus pais sobre a vida na RDA?
YOUSEF - Meus pais eram cidadãos bem satisfeitos na RDA. Claro que havia problemas, como meu avô, que passou um ano preso, quando minha mãe tinha 1 ano, porque, antes da construção do Muro, tinha levado gente do lado leste de Berlim para trabalhar do lado oeste. Houve ainda um problema com uma tia minha que não foi autorizada a estudar arte, embora fosse muito talentosa, porque não era uma integrante ativa da Juventude Alemã Livre [FDJ, na sigla em alemão].

Mas, tirando essas histórias, eles estavam satisfeitos com esse sistema, porque estudavam medicina, sabiam que iam ter bons empregos, tudo funcionava... Eles realmente acreditavam nessas ideias de justiça social, de todos terem as mesmas oportunidades. Eles ficaram muito desapontados ao descobrir sobre a Stasi [serviço secreto da Alemanha comunista]. Eles não viram os próprios arquivos, mas um dos melhores amigos deles sumiu, e eles acreditam que seja porque ele os espionava. Por outro lado, claro que ficaram felizes em ter mais liberdade.

FOL- E você, atualmente, o que valoriza mais, a igualdade ou a liberdade?
YOUSEF - Eu acho que, hoje, a igualdade, no sentido de todos terem as mesmas chances, não existe. Minha mãe veio de uma família pobre, na qual ninguém tinha um grau acadêmico, e ela foi a primeira, graças ao sistema socialista. Se o regime não tivesse possibilitado o seu estudo, ela jamais teria se tornado médica.

Para mim, liberdade é muito importante, mas também é um termo muito difícil de descrever ou de definir. O que é liberdade, afinal? Se formos realmente honestos, veremos que não há liberdade, porque você é determinado por todas as coisas na sua vida. Por sua família, pelas oportunidades que ela pode te oferecer.

Por isso eu não gosto que, hoje, seja cada vez mais difícil para as pessoas estudar. Eu cresci em um mundo com muitas chances, se comparada com outras pessoas. Eu agora estudo em Londres, o que seria impensável na RDA, mas eu também tenho amigos que não podem vir a Londres por não terem dinheiro. Eu acho que ter as duas coisas [liberdade e igualdade] ainda é uma utopia.

FOL - Na sua opinião, a chamada 'questão alemã', o conflito de identidade do povo alemão, está resolvida?
YOUSEF - Eu sempre acho que há diferenças não entre leste e oeste, mas entre Hamburgo e Berlim, por exemplo. Cada região da Alemanha possui uma bagagem cultural diferente. Eu não gosto do que a imprensa faz, principalmente a alemã, criando cisões entre leste e oeste. Nós vivemos em uma Alemanha unificada, onde cada pessoa é um indivíduo, cada grupo ou região tem a própria tradição.

Não podemos dizer que todas as pessoas vindas do leste são preguiçosas nem que todas as mulheres do oeste não trabalham. Há muitos preconceitos. Para mim, o que há são pessoas diferentes. Não gosto desse jeito negativo de diferenciar os dois lados. Existe também o fator de que, entre leste e oeste, as pessoas que estão no oeste ainda ganham mais. Isso é difícil.

FOL - Você fala de preconceito, mas nem você nem seus amigos cresceram na Alemanha dividida. Então, que tipo de discriminação ainda está presente?
YOUSEF - Entre os jovens, realmente, é menos. Mas nós, do leste, costumamos dizer que as pessoas do oeste são arrogantes porque dizem que somos burros, que somos atrasados, coisas assim.

FOL - Na internet, você usa o apelido filhadomuro89. Como essa circunstância afetou você, pessoalmente?
YOUSEF - Pessoalmente, acho interessante que eu tenha nascido no dia em que o muro caiu, na Alemanha, e que, ao mesmo tempo, na Palestina, onde minhas raízes estão, onde minha família paterna está, haja hoje um muro, na fronteira com Israel. Isso é uma conexão interessante para mim.

FOL - Como você vai celebrar o seu 20º aniversário?
YOUSEF - [Risos.] Eu vou pra Alemanha, porque vou estar de folga na universidade. No dia 8, passarei o dia com meus pais, em Güstrow, e depois vou pra Berlim ver outros familiares e sair à noite.

Comentários dos leitores
Chris Maria (231) 11/11/2009 17h30
Chris Maria (231) 11/11/2009 17h30
"Os 192 Estados-membros da Assembleia Geral da ONU (Organização das Nações Unidas) consagraram nesta quarta-feira o dia 18 de julho como Dia Internacional Nelson Mandela"
► Uma pessoa extraordinária. Parabéns!
5 opiniões
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Elton Santos (9) 10/11/2009 17h03
Elton Santos (9) 10/11/2009 17h03
O Muro de Berlim foi brincadeira de criança comparado a outro muro que não separa mais o primeiro do segundo mundo pois este já não existe mais e sim o que separa o primeiro do terceiro. O Muro da fronteira do Estados Unidos com o México representa justamente isso: As classes abastadas devem estar seguras das que servem apenas como consumidoras nessa nova desordem mundial baseada no capital. Nessa fronteira se mata muito mais, as diferenças são muito maiores mas isso não importa não é mesmo? A democracia é um patrimônio que a humanidade não pode abrir mão nunca mais, mas não podemos também justificar com ela o extermínio através da fome e miséria que o mundo presencia causado pelo neo-liberalismo. 9 opiniões
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Juca Bala (84) 10/11/2009 11h33
Juca Bala (84) 10/11/2009 11h33
Foi bonita a festa de comemoração da queda do muro de Berlim e do fim do símbolo de um regime desumano e retrógrado. Será que o Chico vai cantar "Foi bonita a festa pá" rsrsrs. "A queda do muro --escreveu João Paulo 2°-- como a queda de perigosos simulacros e de uma ideologia opressiva, demonstraram que as liberdades fundamentais, que dão significado à vida humana, não podem ser reprimidas nem sufocadas por muito tempo".(Ou viva o neo-liberalismo) Santas palavras... ainda não aprendidas pelos muitos cabeças de bagre por aqui. 5 opiniões
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