Queda do Muro de Berlim foi precipitada por porta-voz mal informado
da Folha Online
Os alemães lembram na próxima segunda-feira (9) os 20 anos da Queda do Muro de Berlim, uma cena simbólica da história alemã que guarda um capítulo curioso. Embora fosse iminente, a derrubada do Muro foi precipitada pelo equívoco do porta-voz do partido comunista, Gunter Schabowski, que mal chegou de viagem e foi encarregado de anunciar novas medidas sobre concessão de vistos para atravessar o Muro.
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O Muro foi construído em 1961 para conter a fuga de alemães orientais e dividiu Berlim entre a capitalista República Federativa da Alemanha (RFA) e a socialista República Democrática da Alemanha (RDA). A barreira, que chegou a ter 120 km de extensão, foi ainda o maior símbolo da divisão imposta pela Guerra Fria.
| Efe-09nov.89 |
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| Günter Schabowski antecipou a queda do Muro de Berlim em entrevista a jornalistas |
Embora a RDA já mostrasse sinais de enfraquecimento, assim como todo o mundo socialista, o governo do Partido Socialista Unitário (PSU) não estava preparado para a comoção causada pelo anúncio de Schabowski na noite de 9 de novembro de 1989 de que a limitação imposta pelo Muro caíra "imediatamente".
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A reunião
Diante da fuga em massa pelas fronteiras vizinhas recém-abertas e milhares de refugiados alemães nas embaixadas, o governo dá ao Conselho de Ministros a missão de desenhar uma regulação de viagens o mais rápido possível. A ideia é conceder visto permanente para a Alemanha Ocidental, mas apenas após a aprovação do pedido.
As visitas comuns, também submetidas a uma aprovação e com a documentação correta, serão permitidas por até 30 dias por ano. Tudo diante do prospecto de que apenas 4 milhões de alemães orientais tinham passaporte --documento essencial para o visto-- e que qualquer pedido demoraria ao menos quatro semanas para ser avaliado.
Na noite de 9 de novembro, o politburo e o Comitê Central aprovam a regulamentação. O então líder comunista, Egon Krenz, entrega os documentos para Schabowski, que deve anunciá-la ao público em entrevista a jornalistas marcadas para às 18h.
A entrevista
Na entrevista a jornalistas, transmitida ao vivo pela TV estatal da RDA, Schabowski lê em voz alta o documento para os jornalistas. De férias, ele não estava presente na reunião do conselho e nem quando Krenz leu o documento para o Comitê Central.
"Quando vai entrar em vigor?", pergunta um jornalista. Com olhar perdido, Schabowski diz que o prazo não havia sido discutido com ele.
Vejo o vídeo, em alemão, no Youtube
Ele então coça a cabeça e folheia o documento, que diz que o press release não deve ser divulgado até o dia seguinte. Ele então observa as palavras "sem atraso" e "imediatamente" no começo do documento. Sua resposta é curta: "Imediatamente, sem atraso".
Poucos minutos depois, às 19h01, a entrevista acaba.
Manchete
O anúncio de Schabowski vira a principal história dos noticiários do horário nobre. Sem muitos detalhes, a imprensa do Ocidente preenche as lacunas com interpretação própria. Às 19h15, a manchete da agência Associated Press é "RDA abre as fronteiras".
O governo está em um beco sem saída. Anunciada na televisão, a notícia da abertura da fronteira deixa a cidade em euforia. Depois de 28 anos, os alemães orientais saem de casa rumo ao outro lado de Berlim --muitos ansiosos para rever parte da família separada pela barreira.
A declaração de Schabowski coloca o governo num beco sem saída.
Marcha ao Muro
As ruas lotam. As pessoas chegam a pé ou a bordo dos Trabants, os carros de produção local. Começam a se formar filas de carros para atravessar a fronteira, que chegam a mais de 100 quilômetros. Estimativas indicam que até 1 milhão de pessoas se aglomeram no lado oriental da fronteira.
Aproximadamente às 22h, diante da multidão e sem nenhuma orientação oficial sobre como reagir, os guardas que chegaram a matar quase 200 pessoas que tentaram fugir pelo Muro são obrigados a ceder e simplesmente abrir os portões. Primeiro, abrem o portão de Bornholmer Strasse, no subúrbio, e depois o portão central de Brandemburgo.
| Barbara Klemm-10nov.89/Divulgação | ||
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| No dia seguinte ao anúncio, milhares de alemães passavam pelo Muro de Berlim, já dominado pelos cidadãos |
Picaretas
As pessoas sobem e dançam em cima do Muro. Com picaretas ou que estivesse às mãos, os alemães começam a destruir o Muro e muitos guardam pedaços como recordação de um momento que já se sabia histórico.
Trabalho longo
A barreira, contudo, só seria efetivamente destruída em 13 de junho do ano seguinte, quando o governo escala 300 soldados para o trabalho que leva seis meses. Alguns pedaços, contudo, são mantidos e hoje fazem parte do patrimônio histórico de Berlim.
Prisão e perdão
Com o Muro já derrubado, em 1997, Schabowski foi julgado e condenado junto a outras figuras do antigo regime socialista alemão. Por sua renúncia pública ao legado da antiga Alemanha socialista, teve a pena reduzida para apenas três anos de prisão. Depois de um ano na prisão, recebeu o perdão do então prefeito de Berlim, Eberhard Diepgen.
Em 2004, voltou à política ao ajudar a campanha da União Democrata-Cristã (CDU), o que levou a críticas de ex-aliados. Ele é grande opositor da coalizão A Esquerda, partido considerado herdeiro do antigo Partido Socialista Unitário, que governou a Alemanha soviética.
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