Mundo
07/11/2009 - 02h30

Leia a íntegra da entrevista com o presidente de Israel, Shimon Peres

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MARCELO NINIO
da Folha de S.Paulo, em Jerusalém

Leia a seguir a íntegra da entrevista concedida pelo presidente de Israel, Shimon Peres, à Folha de S.Paulo e a outras publicações brasileiras em seu gabinete, em Jerusalém, na última quarta-feira (4), dias antes da visita que fará ao Brasil na próxima semana. Peres chega ao país na próxima terça-feira para uma viagem oficial de cinco dias, durante a qual se encontrará com o presidente Lula e fará um discurso no Congresso Nacional.

PERGUNTA - O que o sr. espera da visita ao Brasil? Quais os objetivos?
RESPOSTA - O primeiro objetivo é aprender. O segundo é avaliar se podemos melhorar e aprofundar as relações entre os dois países. Quando penso hoje no Brasil, vejo que se tornou o primeiro país do mundo que dá mais ênfase ao desenvolvimento social do que ao econômico. O Brasil acredita que a economia deve servir à sociedade e não o contrário. Os melhores avanços do Brasil são na área social e não na econômica. Destaco também a enorme tolerância do povo brasileiro. O Brasil é o primeiro país a fechar os olhos para discriminações raciais. Pessoas de todos os espectros da sociedade vivem juntas. E há um terceiro fator que ninguém comenta muito: fala-se apenas de países como Índia e China emergindo, mas a ascensão brasileira é ainda mais impressionante. Sobretudo porque o presidente Lula vem superando uma série de problemas, da corrupção à falta de disciplina, trabalhando sem perder a alegria. Então, quero ver as novidades, do programa Fome Zero, às pesquisas do uso do etanol. Há países fazendo um trabalho novo.
Acho que preciso aprender. Há muitas mudanças e avanços significativos também nas áreas de ciência e tecnologia. Há algum tempo, iria ao Brasil e pensaria no Rio de Janeiro, uma cidade incrivelmente bela, no Carnaval, em diversão. Gostaria muito de ir um dia ao Carnaval. Mas hoje o Brasil não é apenas sinônimo de diversão, mas uma revelação política, econômica e social. Para um homem jovem como eu, que gosta de ir à escola e fazer a lição de casa, é preciso ver de perto a realidade. Temos boas relações e podemos enriquecê-las. Há ainda uma comunidade judaica importante para Israel, que quero visitar.

P - O que o sr. acha que Israel pode ensinar ao Brasil?
R - Como ser pequeno! E ir em frente! [risos]. Podemos ensinar sobre como é ser pequeno, ter um território minúsculo, que não tem recursos naturais como água ou solo, mas que sobrevive e que avança. Israel não vive do seu tamanho, mas do seu cérebro. Desenvolvemos uma agricultura sem água e sem terra. Que outro país conseguiu desenvolver a agricultura baseado apenas em tecnologia? Acho que pode ser de interesse de um país grande como o Brasil. Agricultura é um elemento básico da economia, como produzir em novas áreas, explorar os novos mercados e aproveitar e espaço e a exposição. Não diria o que Israel pode ensinar, mas o que Israel pode compartilhar. Como ver um problema, discuti-lo e como podemos nos reunir e cooperar.

P - Qual é a expectativa de Israel quanto ao papel diplomático do Brasil no Oriente Médio?
R - Vivemos num mundo onde a diplomacia, assim como a economia, está cada vez mais globalizada. País algum pode viver sozinho. A paz é tema de interesse mundial e, portanto, Israel também é. Para promover a paz é preciso combater a ameaça do terrorismo e recrutar apoio à causa da paz. Se o Brasil está ciente destes desafios, gostaria de vê-lo participando mais.

P - Duas semanas após sua visita, o presidente Lula recebe também o presidente iraniano, Mahmoud Ahmadinejad, um homem que nega o Holocausto e defende o fim de Israel. O que o sr. acha da aproximação entre os dois?
R - Estou visitando o Brasil e não pretendo discutir o tema Ahmadinejad. Espero que Lula seja um homem de valores. Há, sim, uma voz dissonante, uma tentativa de destruir outro país, de patrocinar o terror. Hoje [quarta-feira, 4/11/2009], por exemplo, Israel interceptou um navio vindo do Irã carregado de armamentos destinados a terroristas. Mas, pessoalmente, não vou tocar neste assunto em Brasília. O foco da visita é Brasil e Israel, não outros países.

P - O sr. não vai abordar este assunto com o presidente Lula? Transmitir a ele sua mensagem sobre o Irã?
R - Devo mencionar de forma privada. Mas não acho correto visitar um país e discutir outro.

P - O sr. acha que o Brasil pode influenciar o Irã na questão do programa nuclear, já que o Brasil tem boas relações com o país?
R - Talvez sim. Mas não tenho essa expectativa.

P - Mas o Brasil alega que pode ser um intermediário, uma ponte, facilitando as negociações. Esta é inclusive uma das razões para recepcionar Ahmadinejad. O sr. acha que este é um argumento correto?
P - Se alguém pode oferecer ao mundo uma ponte, por quê não? Quero deixar claro que os iranianos não são nossos inimigos. Tampouco os árabes ou os muçulmanos. Nossos inimigos são a guerra, as ameaças, o terror e a destruição. Portanto, não vou polemizar com a comunidade iraniana no Brasil. Sobre o presidente do Irã, todos sabem quem ele é, quais suas posições e como elas são recebidas pelo mundo civilizado. Ele prega a destruição de Israel, nega o Holocausto, fornece armas ao terrorismo. É suficiente. Não vou ditar nossas opiniões ao governo brasileiro, pois estaríamos criando uma impressão falsa de que estamos lutando contra o povo iraniano. Estamos apenas defendendo nossa própria vida.

P - Por que as relações de Israel com a América Latina não são mais próximas?
R - Enfrentamos altos e baixos. A América Latina teve um papel muito construtivo na fundação de Israel. A sessão da ONU que decidiu pela criação do Estado foi presidida por um brasileiro [Oswaldo Aranha]. Normalmente as relações sempre foram muito cordiais, mas a própria realidade da América Latina tem seus altos e baixos. A região conseguiu se libertar das ditaduras militares e acho que houve muitos esforços para alcançar também uma economia democrática. Hoje a maioria dos países da América Latina defendem também uma política democrática. Mas, há algumas exceções. O sr. Hugo Chávez, por exemplo. Tem muito petróleo e pouco controle.
Gosto quando ele diz que não se deve ser visto quando se está no banheiro. Ou que a jacuzzi é um símbolo da oposição ao capitalismo. E na verdade, o que ele realmente quer dizer é que não devemos gastar água [risos].

P- Que tipo de controle deveria ser aplicado sobre o sr. Chávez, por exemplo?
R - Se um homem decide ser um super-herói pelo resto da vida, saindo por aí, fazendo alianças, como com o Irã. E condena Israel... Por quê? Para quê? O que Israel fez à Venezuela? [risos] Tradicionalmente tivemos relações diplomáticas excelentes, o povo venezuelano é gentil. Fico imaginando como alguém pode ser capaz de injetar o extremismo na veia dos venezuelanos. Mas, é um fato. Chávez é um líder muito peculiar, que acha que o Irã é um modelo. É interessante. O que posso dizer? [risos]

P - Mas o aumento do discurso de ódio anti-Israel na América Latina, preocupa o sr.? Em Honduras, um radialista acusou Israel de envolvimento no golpe contra Zelaya.
R - Ficamos surpresos com este caso de Honduras. Pergunte a qualquer israelense se ele sabe o nome do presidente de Honduras. Não sabe! Por que Israel deveria se intrometer em Honduras? [risos] Fiquei muito surpreso com a notícia, Honduras não é da nossa conta. Como ser humano, posso dizer que ódio racial não traz futuro.

P - Três dias após sua visita, o presidente palestino, Mahmoud Abbas, também tem uma viagem programada ao Brasil. Israel teme as boas relações entre o Brasil e o mundo árabe?
R - Os árabes não são nossos inimigos. Se o Brasil mantém boas relações com eles, nós também queremos essas boas relações. Se Lula transformar-se num amigo de Abbas e Abbas de Lula, por que não?

P - Mas Lula já esteve em países do Oriente Médio algumas vezes e ainda não visitou Israel.
R - Espero que ele encontre disponibilidade e interesse. Como se diz "se Maomé não vai à montanha"... Lula tem seu tempo e suas prioridades. Não pretendo ensinar lição alguma a ninguém. Nós o consideramos um amigo, nos conhecemos há muito tempo, começamos no mesmo caminho do socialismo. Posso dizer que o conheço desde a infância. Ele tem sua maneira própria de priorizar, mas eu vou convidá-lo a visitar Israel.

P - E a penetração do Irã na América Latina? O ministro da Defesa de Israel disse que há temores reais do crescimento da influência e penetração do Hizbollah e do Irã na região. O quanto isso preocupa?
R - Existe uma intervenção iraniana na América Latina e a Argentina é prova disso. A comunidade judaica foi atacada num atentado que matou centenas de pessoas e acho que os argentinos captaram a mensagem e aprenderam a lição. Quem quer uma intervenção de bombas, terror e ódio? Eu acredito que a região prefira relações pacíficas e amigáveis. Acredito que vai chegar a hora de mudar, pois o mundo já captou as mensagens vindas do Irã. O enriquecimento de urânio, o desprezo por determinações internacionais... Mas os problemas do Irã não vão durar mais do que seu próprio presidente. Não vejo um grande futuro para esta administração, basta ver o que se passou nas ruas de Teerã. Que mensagem o governo iraniano vem enviando ao mundo? A de que quer dominá-lo? Isto é uma mensagem? O mandato do atual presidente não vai durar para sempre. Suas visões não contribuem em nada para o resto da humanidade e para os próprios iranianos.

P - Se a diplomacia falhar, o ataque às instalações iranianas é uma opção?
R - Israel não quer monopolizar o problema iraniano. O Irã é um problema do mundo, não apenas de Israel. Portanto, cabe a nós seguir os líderes mundiais. Eles é que tem que responder a essa pergunta. Mas eu não gostaria de falar com muitas vozes ao mesmo tempo. Não colocaria uma ação militar no topo das opções. Temos que fazer tudo o que é possível para encontrar uma solução pacífica. Há formas políticas e psicológicas de se fazer isso. Todos os líderes mundiais com quem conversei, Medvedev, Putin, Obama, Sarkozy, Brown, Merkel, me disseram que não permitirão um Irã nuclear. Deixemos que eles façam isso.

P - Qual sua reação ao Relatório Goldstone [que acusou Israel na ONU de crimes de guerra]? Israel está fazendo uma investigação interna?
R - Israel fez investigações internas em todas as guerras [de que participou], com consequências bastante duras. Ministros e generais foram demitidos. Nós não somos morais para que o mundo nos aprove. Somos morais porque esse é nosso princípio básico. E não achamos que pessoas como Ahmadinejad e Gaddafi podem ser nossos juízes. Para que precisamos de juízes como esses? Nós investigamos a última guerra. Houve centenas de acusações e cada uma delas está sendo investigada com cuidado pelo nosso sistema judiciário.

P - Pode dar um exemplo?
R - Um soldado que atirou onde não deveria, por exemplo. O problema é que a luta contra o terror é extremamente complicada. A começar pelo fato de que terroristas não respeitam leis. Como um país que respeita as leis pode lutar contra uma guerra de destruição sem lei? Muitos lembram que houve mais crianças palestinas mortas que israelenses. Sabem por quê? Porque nós protegemos nossas crianças e eles usam suas crianças para se proteger. Nós construímos abrigos para as crianças e eles usam as crianças como escudos. O crime é o terror, não a luta contra o terror. Infelizmente, em toda guerra inocentes são atingidos. Os europeus nos acusam, mas em Kosovo, por exemplo, centenas de inocentes foram mortos. Alguém investigou? E nem estou falando de Iraque, Afeganistão, olhem em volta. O único crime de Israel é não ter maioria na ONU. Há uma maioria automática na ONU contra Israel, por isso não temos a menor chance. Quando a Liga Árabe, a Conferência Islâmica e o bloco dos não alinhados se juntam, não nos sobra muita chance. Olhe o Conselho de Direitos Humanos. De 20 temas em debate, 10 eram sobre Israel! Israel é um país onde não há direitos humanos? Absurdo! E quem são nossos juízes? Iranianos, afegãos, líbios? Em Israel, por exemplo, não sei de discriminação contra as mulheres. [No Conselho de Direitos Humanos da ONU], praticamente a maioria desses "juízes" discriminam as suas mulheres. Que tipo de direito humano é esse? Além disso, a primeira regra dos direitos humanos é que temos o direito de permanecer vivos. Fomos atacados nove vezes. Alguém investigou porque fomos atacados? Por oito anos [os membros do Hamas] dispararam foguetes contra Israel. Alguém investigou? Ahmadinejad prega a destruição de Israel, o que é contra a Carta da ONU. Ele foi investigado? Temos que manter um Exército moral, porque queremos ser um país moral. Não odiamos os árabes. Para mim, a vida de uma criança árabe é tão importante como a de qualquer criança. Nos últimos seis anos, no Centro Peres, cuidamos de 6.000 crianças palestinas, doentes ou feridas na guerra. Nós as trouxemos para Jerusalém com suas mães, com todas as despesas pagas. Começamos com crianças feridas na guerra, e outras famílias apareceram, com filhos com problemas cardíacos, etc. Continuamos a fazer isso, e é uma história cara. Significa que odiamos crianças? Que desejamos a morte de crianças? Não divulgamos essas ações, para não sermos acusados de estarmos ajudando as crianças pela publicidade.

P - Por que não divulgar?
R - Não fazemos isso pela publicidade. Não fazemos para ganhar a simpatia do mundo. Não queremos aplausos. Da mesma forma, não precisamos de juízes morais. Não há país no mundo que em 61 anos [de existência] tenha sido atacado nove vezes. Nove vezes! E nas intifadas, onde estavam os ativistas de direitos humanos? Onde eles estavam quando fomos atacados pelo Hamas? Alguém tentou parar [o terror]? Se eles não tivessem atirado, não teríamos respondido. E isso depois de termos saído completamente de Gaza, sem deixar soldados, colonos ou civis. E usamos a força para retirar os colonos de lá. Por que estão disparando contra nós? Para quê? Eles dizem que somos ocupantes, mas não ocupamos Gaza, não estamos lá. Por que estão atirando? Qual o objetivo, e porque o mundo se cala diante desses disparos? Essas são as perguntas que deveriam ser feitas. Estamos sós, o que não é uma posição confortável. Mas isso não reduz a nossa base moral.

P - O Brasil quase sempre vota contra Israel na ONU. Como o sr. explica isso?
R - Não cabe a mim explicar. Por que eu deveria explicar?

P - Qual a sensação?
R- Considero um erro de julgamento e que talvez eles precisem de uma chance para explicar, como eu estou tendo. Não condeno ninguém. Mas debato com qualquer um que criticar Israel. O que eles querem no Relatório Goldstone é ser nossos juízes. Muito obrigado, mas nós temos nossos próprios juízes. E acho que Goldstone não deveria ter aceito essa missão, porque a comissão de investigação tinha uma maioria a priori contra Israel. Ele deveria ter se negado a chefiar [essa comissão], porque juízes que não são objetivos não podem ser juízes. O mandato era anti-Israel: ele dizia para investigar "os crimes de Israel em Gaza". Das 26 recomendações não há uma única contra o terror. Meu Deus, que tipo de julgamento é esse? Só porque não temos maioria na ONU? Quando vi as conclusões, lembrei-me do que [o político americano] Adlai Stevenson disse uma vez, sobre um advogado que foi ao tribunal e abriu sua declaração dizendo: aqui estão as conclusões sobre as quais baseio os fatos.

P - Mas não é só na ONU, Israel enfrenta problemas de imagem no mundo inteiro.
R - Sabemos que há um problema de imagem. Somos um país que respeita as leis e luta contra o terror. Os atos terroristas não são fotografados. Quando um terrorista mata alguém ele chega sem a companhia de jornalistas. Quando explode um ônibus, não leva fotógrafos. O que é fotografado são as reações, não as ações. As pessoas perguntam: por que Israel está bombardeando? Somos loucos? Acordamos um dia de manhã e começamos a bombardear? O problema é que as razões não são mostradas, por isso há um problema de imagem, eu concordo.

P - O sr. culparia alguém por isso?
R - Não culpo ninguém. A única pessoa que posso culpar é a mim mesmo, se erro. Não sou um sacerdote. Não sou o professor do mundo. Pergunto a mim mesmo se estamos certos ou errados porque, quando o assunto é imagem, há muitos preconceitos. É um fato da vida, o que posso fazer. Faço o máximo que um homem como eu pode: fazer de tudo para que sejamos leais a nós mesmos, aos nossos valores e virtudes. Israel não é uma empresa de relações públicas! E olhe, não culpo o público. Há aquele slogan "Terra por Paz", certo? Nós devolvemos toda a terra e toda a água. Mas recebemos, em troca, toda a paz? As pessoas esquecem disso. Nós devolvemos toda a terra, toda a água, todo o petróleo aos egípcios. Devolvemos toda a terra e toda a água à Jordânia. Devolvemos toda a terra e toda a água ao Líbano. Saímos de Gaza. Temos dito aos palestinos que estamos prontos a fazer isso de novo. E aí? Ninguém se impressiona com tudo isso.

P - Sr. Peres, o sr. acha que a retirada da faixa de Gaza foi um erro?
R - Não. Fizemos isso porque, de novo, não queremos conquistar Gaza. Não foi por relações públicas, mas sim por um princípio moral. Decidimos não estar mais em Gaza. E Ariel Sharon, um homem vindo da extrema direita, cumpriu com isso. Bravo.

P - E quanto à Cisjordânia? Israel quer continuar lá?
R - Não. Temos dito isso. A diferença entre nós e os palestinos nas negociações de paz é algo em torno de 3% ou 4% do território. Construímos colônias porque havia atos de terrorismo, mas as coisas mudaram nos últimos 40 anos. No começo, os palestinos se recusavam a negociar, e continuam assim até hoje. Eu digo: meu Deus, se trata-se apenas de 3% ou 4%! Vamos tentar negociar, vamos fechar essa diferença. Eles não deveriam rejeitar essa negociação. Pode ser um pouco desagradável para mim dizer isso, mas quando a Cisjordânia estava sob o poder da Jordânia, os jordanianos a ofereceram para os palestinos? E quando Gaza estava sob o poder do Egito, os egípcios a ofereceram alguma vez aos palestinos? Os únicos dispostos a oferecer somos nós. E isso apesar do fato de que parte dos palestinos faz parte de um grupo terrorista, o Hamas. Eles dizem: "devolvam-nos a terra". Mas nunca houve um Estado palestino. Então, eles nunca tiveram essa terra. A Cisjordânia estava sob o poder da Jordânia. E Gaza, do Egito. Quando se trata da Cisjordânia, porém, queremos ter certeza de que não vai se repetir lá o que aconteceu em Gaza. Nós saímos e eles começaram a atirar. Temos o direito de defender nossas vidas.

P - Mas como Israel pode evitar algo assim? Vai controlar os palestinos para sempre?
R - Não. Mas queremos que eles tenham uma política de paz. Queremos que eles controlem seu próprio povo. Queremos o que é mais básico entre nações: a paz.

P - Em relação à Cisjordânia. A maior parte do mundo, incluindo seus aliados, como os americanos, não entendem como Israel está, por um lado, disposto a negociar a paz e, ao mesmo tempo, não aceita pelo menos congelar a construção de assentamentos. Como o sr. explicaria isso ao mundo?
R - Não somos uma empresa de relações públicas. Hillary Clinton reconheceu que Israel avançou bastante nesse assunto. Quero explicar algo importante: há centenas de milhares de colonos na Cisjordânia. Eles construíram casas, cultivaram a terra, construíram famílias. Não é tão fácil movê-los. Certo ou errado, durante os 40 anos em que reinou o terrorismo na região, construímos assentamentos. Mas é o que eu sempre digo: é mais fácil fazer omeletes com ovos do que ovos com omeletes. É muito difícil remendar essa situação depois de 40 anos. Os colonos são seres humanos. Não são máquinas que você pode, como num jogo de xadrez, mover de lá para cá. Temos que arranjar soluções para isso.

P- O sr. acredita que Israel errou quando decidiu construir colônias na Cisjordânia?
R - Não foi um erro na época, porque estávamos sendo abertamente atacados. Os terroristas explodiram casa em Jerusalém e em outros lugares. Eu perdi muitas eleições no passado. E por quê? Porque toda vez que tentava falar sobre paz, vinha uma bomba e acabava com tudo. Dizem que Israel tem um "problema de imagem". Para mim, trata-se de sangue, de carne, de vidas.

P - Foi o que aconteceu nas eleições de 1996, logo depois do assassinato de Yitzhak Rabin?
R - Eu tinha 20% de vantagem nas pesquisas quando um ônibus foi explodido em Jerusalém. Nunca vou esquecer esse dia. Era 7h da manhã e eu estava a caminho do escritório quando meus seguranças me avisaram sobre a explosão. Fui direto para o local, uma praça importante em Jerusalém. A praça inteira estava vermelha, repleta de sangue e de partes de corpos. Milhares de pessoas estavam lá. Quando cheguei, elas começaram a gritar: "assassino!", "matador!" "traidor!". "Olha o que você faz com a sua paz!". No dia seguinte, a mesma cena em Tel Aviv. No próximo, novamente em Jerusalém.

P - O sr. ficou com medo de que alguém pudesse atacá-lo?
R - Com medo, não. Mas eu sabia que havia perdido as eleições. Sabia que havia perdido a maioria dos votos.

P - Naquele momento, o sr soube?
R - Claro. Mas antes disso, soube que havíamos perdido vidas. Portanto, quando você lê nos jornais é uma história. Quando você presencia o fato, é outra.

P - Como o assassinato de Rabin mudou Israel? Alguns dizem que o processo de paz morreu também.
R - Foi uma interrupção que prejudicou, ou atrasou, o processo de paz. Mas a maioria dos israelenses quer a paz, e ela se mantém viva. Rabin foi uma vítima dessa mesma história que acabei de relatar.

P - A divisão dentro da sociedade israelense, que se manifestou tão tragicamente no dia do assassinato, continua?
R - Sim, mas hoje em dia vê-se que mais e mais pessoas estão adotando o caminho que Rabin e eu sugerimos. Hoje, até mesmo a direita israelense é a favor de uma solução de dois Estados para dois povos, o que não era verdade antes. Os que são contra a paz são uma minoria.

P - O que o sr. diz contraria o que a maior parte do mundo pensa, que os israelenses se tornaram mais direitistas depois do assassinato. O sr. diz que eles se tornaram mais de esquerda?
R - Israel foi para a direita, mas no sentido de "direito", de "certo", que significa ser a favor da paz.

P - O sr. pretende conversar com o presidente Lula sobre o processo de paz e o apoio do Brasil a Israel, por exemplo, nas Nações Unidas?
R - Certamente.

P - Que argumentos o Sr vai usar para convencê-lo?
R - Exatamente tudo o que disse até agora. Levarei a Lula a mesma mensagem. Direi que Israel está preparado para a paz e que já demonstrou isso em quatro ocasiões. Mas queremos ter certeza de que teremos paz e segurança. Não tenho duas mensagens. Tenho apenas uma.

P - O presidente americano Barack Obama tem buscado uma aproximação com o mundo muçulmanos e criticou o tratamento israelense aos palestinos no discurso que fez no Cairo. Como o sr. avalia a administração de Obama no que tange o processo de paz?
R - Desejo que ele tenha sucesso. Nós não consideramos os muçulmanos nossos inimigos. Não lutamos contra sua religião, contra seu povo. Não lutamos contra uma ideia. O que estamos tentando fazer é defender nossas vidas.

P - A maioria dos israelenses não parece gostar de Obama. Israel talvez seja o país no qual ele é menos popular, com apenas 5% a 6% de aprovação.
R - Acho que quando os israelenses começarem a seguir as posições de Obama, eles vão mudar de ideia. A amizade entre Israel e Estados Unidos é profunda e permanente. Eu considero Obama um amigo de Israel. E espero que mais pessoas se deem conta disso.

P - O sr. recebeu o Prêmio Nobel da Paz, assim como Obama. Mas muitos dizem que ele não merecia, que era muito cedo para essa premiação. O que o sr. pensa?
R - Eu acho que ele merece sim o Nobel de Paz. Penso que, em pouco tempo, ele criou no mundo uma clima de esperança e otimismo. Essa é uma conquista política que ele alcançou com brilhantismo. Neste momento, ele está enfrentando todas as controvérsias que vêm com o cargo. Mas é muito cedo para julgar. Eu não concluiria nada, por enquanto. Quando eu era uma criança, me disseram que o mundo tinha homens bons e maus. Bons reis e maus reis. Quando eventualmente cresci, percebi que, infelizmente, o "bem" e o "mal" vêm juntos. É muito difícil separá-los. Justamente por isso, não é fácil fazer escolhas. Presidentes, reis e primeiros-ministros têm, sobre suas mesas, escolhas mescladas. O filósofo Martin Buber disse: "Sob essas circunstâncias, o menos ruim é o certo". Não é tão claro quanto se pensa.

P - O sr. se tornou muito popular em Israel. É considerado um símbolo do país. Muitos israelenses parecem acreditar que o sr. não tem idade. O sr. acredita que testemunhará o que o chamou de "Novo Oriente Médio", a paz regional, ainda em vida?
R - Tenho 100% de certeza disso. Não posso negar minha idade, mas posso questionar o que leva à velhice. Se idade é um número e anos, velhice é apenas questão de percepção. Não acredito que, porque sou mais velho, não posso ter esperanças ou crenças. Estou no serviço público desde o primeiro dia de existência de Israel, e mesmo antes disso. Na maior parte da minha vida fui polêmico. Agora, sou popular. Não sei se é melhor ou pior [risos].

P - Quem mudou, o sr. ou os israelenses?
R - Bem, meu atual posto é de uma natureza distinta. Na política, você luta. E eu fui um político lutador. Não me impressionava com pesquisas, nem antes nem hoje. Acho que pesquisas são como perfume: são boas de cheirar, mas perigosas de engolir.

Comentários dos leitores
Marcello Sokal (93) 01/12/2009 16h49
Marcello Sokal (93) 01/12/2009 16h49
Vamos ver o que vai acontecer agora, mais uma vez fazem propostas para ganhar tempo,sabendo que não as poderão - e nem tem intenção - de cumprir. Esse congelamento não passa de outra farsa,para tentar enganar os incautos e mostar que são "bonzinhos", como se não fossem eles que tomam terras de outras pessoas na base dos tratores,tanques de 60 toneladas e soldados fortemente armados - normalmente no meio da noite,pois assim fica mais fácil de expulsar as pessoas e tornar seus atos menos visiveis - assim como agem os criminosos comuns,sorrateiros,no meio da madrugada....lamentável,mas instrutivo para que as pessoas saibam dos reais fatos... sem opinião
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samuel kosminsky (84) 29/11/2009 17h29
samuel kosminsky (84) 29/11/2009 17h29
gostaria de corrigir opiniao anterior, dizendo que, nao sao 2 naçoes e sim 3 (Ira, Coreia, Cuba) onde, quem pensa diferente e anti social, sendo encaminhado a hospital psiquiatrico
adoro aqueles que adoram governantes desses paises
sem opinião
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mauro guanandi (50) 28/11/2009 10h40
mauro guanandi (50) 28/11/2009 10h40
Senhor Eduardo, porque colocas tantos "rs" após cada colocação ?
O senhor acha graça nas coisas que escreve?
O senhor escreve falÇo com cedilha.
Eu não acho engraçado isto. Eu acho triste. Isto se aprende no pré-primário; aos seis anos. Porque o senhor não entra nos foruns de portugues?
O senhor acha graça nos discursos de Lula? encontra sabedoria no que ele fala?
Eu fico triste cada vez que vejo o presidente de meu país - GRAÇAS A DEUS ESTÁ ACABANDO O GOVERNO DESTA TURMA - falar alguma asneira do tipo...a ligação das torres de "energias" estão ligadas pois estão interligadas.
Isto não é engraçado nem um pouco.
Relaxa e goza quando tem apagão em aeroporto também não é nada engraçado. também não vejo graça no ministro LOBÂO falar que o assunto está encerrado; não vejo graça na peruca feia dele; Não vejo graça em ver o Sarney e o lula abraçados com o Collor.
Outro dia vi o programa "A praça é nossa". popularesco, simplório. MAS MUITO ENGRAÇADO E INOFENSIVO. Não acrescenta cultura nenhuma, MAS ELES NÃO USAM NOSSOS IMPOSTOS PARA FALAR OU FAZER ASNEIRAS.
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