Doadores de Bush dominam reconstrução do Iraque e do Afeganistão
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FERNANDO CANZIANda Folha de S.Paulo, em Washington
As mais de 70 empresas norte-americanas e indivíduos contemplados com cerca de US$ 8 bilhões em contratos para a reconstrução do Iraque e do Afeganistão figuram entre os principais doadores de campanha do presidente George W. Bush e de seu partido.
No total, essas companhias e indivíduos doaram mais de US$ 500 mil para a campanha eleitoral de Bush em 2000. Individualmente, o valor é maior do que essas mesmas empresas depositaram na conta de outros políticos americanos em quase 12 anos.
Estudo divulgado ontem pelo Centro para a Integridade Pública, um conceituado centro de pesquisas baseado em Washington, mostrou que os dez maiores contratos no Iraque e no Afeganistão foram repassados a empresas que têm ou já tiveram em sua diretoria membros do atual governo e do Congresso, especialmente do partido de Bush, o Republicano --segundo o centro, desde 1990 essas empresas teriam doado US$ 11 milhões a partidos, candidatos e comissões políticas.
A maior parte dos contratos foi repassada às companhias sem concorrência alguma, já que o Pentágono alegou urgência para fechar as operações. O centro criticou a falta de transparência no processo, afirmando que o valor total pode ser ainda maior do que os US$ 8 bilhões divulgados.
O estudo ainda questiona a administração e a supervisão da reconstrução do Iraque e aponta para a proximidade de relações entre alguns dos contemplados, insinuando a possibilidade de ter havido troca de favores.
Ligação com Cheney
O maior contrato, de US$ 2,3 bilhões, foi repassado para a Kellogg, Brown & Root, subsidiária da Halliburton, comandada pelo vice-presidente dos EUA, Dick Cheney, até 2000, quando ele deixou a companhia para concorrer à eleição na chapa de Bush.
Outra empresa, o Bechtel Group, que também tem vários funcionários no atual governo, ganhou o segundo maior contrato para obras de engenharia civil e transporte, de US$ 1,03 bilhão.
O presidente da empresa, Riley Bechtel, foi designado neste ano por Bush para fazer parte do Conselho de Exportação americano. Outro executivo da Bechtel, o vice-presidente Jack Sheehan, também é membro do Conselho de Defesa do Pentágono.
"O levantamento demonstrou que membros das empresas agraciadas com os contratos têm uma espécie de porta giratória no atual governo", disse à Folha de S.Paulo Charles Lewis, diretor-executivo do centro ontem. "Não houve qualquer supervisão externa para o fechamento dos contratos, o que abre a possibilidade para toda espécie de fraude ou favorecimento."
Entre as 70 companhias pesquisadas, 14 ganharam contratos tanto no Iraque quanto no Afeganistão. Ao todo, essas empresas contribuíram com US$ 23 milhões para políticos dos EUA desde 1990. Dois terços do dinheiro foram dirigidos ao partido de Bush.
Informações negadas
A pesquisa foi realizada com base em informes do Pentágono e da agência americana que opera os contratos no Iraque e no Afeganistão, a Usaid. Boa parte das informações, no entanto, foi obtida pela Lei da Liberdade de Informação, que permite a entidades públicas e privadas requisitarem informações oficiais quando elas não estão disponíveis.
Nem todos os pedidos, entretanto, foram atendidos, o que levou o centro a abrir processos contra o Departamento de Estado e o Exército. O centro fez 73 pedidos com base na lei para fazer o levantamento e ainda tem outros pedidos pendentes na Corte Distrital de Washington para obter mais detalhes dos contratos.
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