Mundo
13/11/2009 - 02h30

Responsabilizar só a Colômbia por tensão na região não basta, diz especialista

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CLÁUDIA ANTUNES
da Folha de S.Paulo, no Rio

O Brasil precisa demonstrar maior compreensão da situação interna colombiana se quiser atuar como mediador na região, disse Socorro Ramírez, especialista em segurança da Universidade Nacional da Colômbia. Ela falou à Folha de S.Paulo no Rio, durante a sexta edição da Conferência do Forte de Copacabana, um diálogo sobre segurança entre especialistas brasileiros e europeus.

FOLHA - Colômbia e Venezuela podem chegar a um entendimento sobre os problemas da fronteira?

SOCORRO RAMÍREZ - Não é fácil. A atual tensão não é a mesma de outras ocasiões, é mais complicada. A fronteira foi transformada numa fronteira ideológica, terreno perigoso. Ali se combinam grupos derivados não apenas do conflito colombiano, mas também da dinâmica venezuelana, como as milícias bolivarianas.

Não creio que os dois países vão à guerra, suas populações nunca serão convencidas a isso. Mas os chamados recorrentes à guerra podem gerar incidentes.

A abordagem de responsabilizar só a Colômbia, por causa das bases [que serão usadas pelos EUA], não é suficiente. Creio que o projeto bolivariano, pela situação interna em que se encontra, também gerou situações problemáticas para a situação fronteiriça e a relação bilateral. É importante promover um encontro entre os dois presidentes, mas não suficiente. Há situações perigosas que devem ser desmontadas.

FOLHA - O que o Brasil poderia fazer além de sugerir um mecanismo de monitoramento da fronteira?

RAMÍREZ - O Brasil tem que se abrir mais a entender a problemática da Colômbia. Não há uma compreensão clara de por que a maioria do país acompanhou um governo tão duro e tão arbitrário quanto o de [Álvaro] Uribe, por que está a favor da presença dos EUA.
Se o Brasil quer ter um papel [na região], precisa tratar de entender a dinâmica do conflito, que não corresponde mais ao que ocorria nos anos 70, quando era apenas interno. O Brasil tem que ajudar no entendimento da situação colombiana, para que a Colômbia também entenda a região e a necessidade de fortalecer a unidade sul-americana.

FOLHA - Quando todos falam do fracasso da guerra às drogas, qual o sentido de ampliar o acordo com os EUA?

RAMÍREZ - Hoje a força das Farc [Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia] não depende de base social ou de legitimidade, mas da capacidade de obter recursos derivados da droga. O sentido é que, ao tirar-lhes isso, lhes tiram a capacidade militar e de ofensiva.

FOLHA - Mas é possível acabar com o narcotráfico?

RAMÍREZ - Enquanto a região não chegar a um acordo sobre esse tema, é muito difícil para um só país ter êxito diante do tema da droga. Apesar de o conjunto da região estar envolvido com o problema, em intensidades e modos diferentes, com muita frequência ele é visto como um problema apenas colombiano.

Isso gera dificuldade de entendimento e impede o governo colombiano de pensar que o Brasil pode ter um papel, ou que a região pode ajudá-lo a sair de sua situação. O que se espera do Brasil é que a questão colombiana seja considerada em si mesma, não em relação ao interesse que o Brasil tem.

Essa visão de que há um país que faz mal a todos não ajuda a compreender que estamos diante de um problema mais complexo, que não há só um país com capacidade de desestabilização regional. Temos uma situação na Venezuela que também é muito complicada para a região.

FOLHA - Não houve uma estratégia deliberada do Plano Colômbia de empurrar os conflitos internos para a fronteira?

RAMÍREZ - O que comprovei em meus estudos é diferente. Na fronteira do Equador, por exemplo, os cultivos de drogas se formam quando Peru e Bolívia conseguem frear os cultivos, com medidas muito fortes. A Colômbia não era um país produtor, e o êxito no Peru e na Bolívia faz com que o sul da Colômbia se torne produtor de coca.

Atrás desses cultivos chega a guerrilha, no final dos anos 80. Atrás da guerrilha chegam os paramilitares. O Plano Colômbia chega no ano 2000. Essa visão de que foram o Plano Colômbia e o governo de Uribe que agudizaram o conflito não corresponde à realidade.

A presença dos EUA é problemática, gera custos muito altos, mas não podemos obscurecer a dinâmica anterior ao Plano Colômbia.

FOLHA - Mas o chamado efeito balão, que provoca o deslocamento geográfico do narcotráfico, não obriga a rever a estratégia antidrogas?

RAMÍREZ - Não fui partidária do Plano Colômbia e considero a atual política antidrogas daninha, mas não se pode negar que havia um conflito com grupos irregulares que representavam um desafio ao Estado, anterior ao Plano Colômbia.

Hoje o governo colombiano comete o erro de endurecer a política antidrogas --por exemplo, com o aumento das penas aos usuários--, justamente quando o governo Obama está abrindo a possibilidade de uma nova abordagem.

Mas, se a América do Sul não conquistar a capacidade de diálogo interno sobre esse problema, não vai muito longe. Se o Brasil quer ter liderança regional em segurança, terá que compreender isso. Mas, se tiver a visão simplificada de que há um país que prejudica toda a região, quando há um tema transnacional que implica olhar cooperativo, será difícil.

 

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