Mundo
04/07/2004 - 03h24

"Entrada" nos EUA custa US$ 8.500 em Goiás

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ADRIANA CHAVES
da Agência Folha, em Goiânia

Casos de deportações em massa e prisões e morte de brasileiros na fronteira do México com os EUA não inibiram a ação de agenciadores em Goiás, Estado com um dos maiores contingentes de brasileiros deportados pelos americanos nos últimos anos.

Os agenciadores continuam organizando a viagem aos EUA de pessoas sem visto oficial e chegam a anunciar seus serviços nos jornais. A Polícia Federal afirma não ter como coibir a ação deles porque o crime de entrada ilegal ocorre fora do país, já no México.

Em geral, os anúncios nos classificados dos jornais têm menos de cinco linhas e apenas um telefone celular de contato. São cifrados. Falam em "viagem ao exterior", por exemplo, nunca em "emigração" para os EUA.

Por telefone, os agenciadores prometem assessoria completa e os melhores preços para quem deseja ir para o exterior. Dizem que detalhes só são fornecidos após contato pessoal.

A Agência Folha procurou um desses serviços para saber como funciona o esquema de travessia ilegal para os EUA. Foram feitos dois contatos telefônicos e foi marcado um encontro pessoal.

A repórter usou nome falso e se apresentou como simples interessada no "esquema", dizendo ter tido o visto oficial negado pelo Consulado dos EUA três vezes.

Logo no início da conversa, o agenciador Agnaldo (nome fictício) informou que o pacote completo para entrar em território americano ficaria em US$ 8.500.

O valor inclui "pedágios" pagos à polícia mexicana. "Metade do dinheiro é paga no Brasil, e o resto, depois de atravessar a fronteira."

A viagem toda leva pelo menos quatro dias. Além do trajeto propriamente dito, há paradas em hotéis ou casas no meio do caminho para descansar e esperar trocas de fiscalização.

Por cerca de US$ 1.000 a menos, o interessado pode fazer parte do trajeto a pé, mas os riscos, de acordo com o agenciador, são maiores. "A diferença é pequena, e a pessoa tem de andar mais de meia hora por um lugar que é quase um deserto."

Segundo Agnaldo, o interessado parte de Goiânia para a Cidade do México em vôo comercial. De lá, segue para Santillo num vôo fretado, com no máximo dez passageiros. Ao chegar à cidade mexicana perto da fronteira com os EUA, Agnaldo disse que a pessoa que acompanha o grupo desde o Brasil é substituída, e o percurso tem continuidade de carro.

Já quase na fronteira, segundo ele, o grupo é dividido. Dois "coiotes" (pessoas que transportam ilegalmente imigrantes), um argentino e um americano, se revezam para passar pela fronteira, via Texas. Cada um leva duas pessoas por vez, de carro, e passa por uma ponte --provavelmente sobre o Rio Grande, mas ele não disse o nome do rio.

Depois, há um trecho em que, segundo ele, é preciso passar a pé por um rio. "A pessoa só precisa andar uns cinco minutos para atravessar um rio, mas a água não chega nem ao joelho. Tem risco? Tem, mas é pequeno", disse ele.

O destino, a partir daí, é Houston, no sudeste do Texas, já a cerca de 500 km do México.

Para o agenciador, a passagem pelo Texas é "mais garantida". "Perigoso é ir pelo deserto [Arizona]. Eu fazia essa travessia antes, mas é muito arriscada. Aquilo que a gente viu pela TV no começo do ano (...), aquelas pessoas que foram presas e deportadas passaram por lá."

Mesmo que a pessoa seja detida, de acordo com Agnaldo, a deportação é feita automaticamente dentro de poucos dias. O agenciador contou que já foi preso no Arizona, logo que começou a organizar esse tipo de travessia ilegal, e outras duas vezes no Texas.

"A prisão no Texas não é como no Arizona. É um galpão amplo, tem até quadra de tênis. É praticamente um hotel. Tem três refeições, e as pessoas podem andar livremente lá dentro. Só não podem sair", afirmou.

Agnaldo aconselha as mulheres, se forem presas, a dizer que estão grávidas. Segundo ele, os policiais soltam mulheres nessa condição.

A procura é tão grande, segundo Agnaldo, que os grupos são formados com
intervalos médios de apenas dez dias. Uma turma sairia nos próximos dias.

Além da travessia pelo México, o agenciador oferece o passaporte europeu "verdadeiro", que não requer visto, como opção para quem deseja viver nos EUA. Ele afirma conseguir retirar o documento com autoridades espanholas, sem dizer quais, em quatro dias.

Agnaldo também se encarrega da documentação que comprova a ascendência européia, mesmo para quem não tem. A operação custa US$ 8.000, e o embarque para os EUA é feito por Buenos Aires. A passagem para a Argentina não está incluída.

Os EUA não são o único destino dos goianos. Países como Espanha, Portugal, Reino Unido e Bélgica também encabeçam a lista dos preferidos.

"Tem muita gente me procurando para ir para a Europa, principalmente mulheres. Mas, nesse caso, é mais para prostituição", disse Agnaldo.

Como não há necessidade de visto, os gastos são basicamente com a passagem, a indicação de lugares para trabalhar e a orientações para passar pelo Departamento da Imigração.

São necessários, no mínimo, 2.000, além do eventual custo do passaporte europeu.

O agenciador contou ter intermediado a negociação de duas goianas dispostas a se prostituir na Europa com uma agência espanhola. Nesse caso, a agência arca com as despesas, e as mulheres são forçadas a trabalhar para ela, como forma de pagar a dívida.

"Eu nunca tinha feito isso antes, mas, como elas me procuraram, entrei em contato com uma agência na Espanha e arrumei para elas viajarem. As brasileiras são muito procuradas nesses países. Além de mais bonitas que as européias, são mais carinhosas."

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