Mundo
03/07/2006 - 14h59

Iraque vive momento tenso e difícil, diz ministra britânica

Publicidade
DANIELA LORETO
da Folha Online

O Iraque passa por um momento "extremamente difícil" em relação à manutenção da segurança no país, disse nesta segunda-feira à Folha Online a ministra britânica das Relações Exteriores, Margareth Beckett, durante entrevista em São Paulo.

A ministra fez hoje seu primeiro grande discurso como chanceler britânica, cargo que assumiu em maio último, e concedeu entrevista coletiva na Fundação Getúlio Vargas (FGV).

"A situação da segurança [no Iraque] é extremamente tensa e difícil, e é uma das prioridades do novo governo iraquiano, ao lado da energia e da infra-estrutura".

Reuters
Margareth Beckett, ministra britânica das Relações Exteriores
Beckett falou ainda sobre a permanência das tropas britânicas em território iraquiano e comentou a retirada dos soldados japoneses anunciada na semana passada. "O Japão está retirando suas tropas de algumas Províncias do sul do país [onde tropas britânicas também estão localizadas]. "Nós veremos de que locais as tropas [britânicas] poderão ser retiradas e de que maneira a segurança poderá ser entregue ao Iraque", disse, acrescentando que essa decisão cabe "ao Ministério britânico da Defesa".

A ministra também criticou a imprensa internacional, afirmando que ela não reconhece a importância do processo democrático pelo qual passa o Iraque. "Ouvimos muito poucos elogios ao fato de termos um governo estabelecido no Iraque. "Isto é algo fantástico e deve ser acolhido no mundo", disse.

Impopularidade

Questionada se as críticas em torno da participação britânica no conflito no Iraque poderia comprometer o futuro político do premiê britânico, Tony Blair, Beckett rejeitou a idéia, dizendo que o futuro do chefe de governo do Reino Unido "já está traçado".

"Lidamos com a impopularidade explicando à população o que tem sido feito pelo governo e mostrando que o povo iraquiano terá um futuro melhor", afirmou.

No entanto, segundo a ministra, aqueles que se opuseram à Guerra do Iraque desde o início "não mudarão de idéia". "Não há o que fazer, temos que respeitar a opinião uns dos outros".

Oriente Médio

Em relação ao Oriente Médio, a ministra britânica afirmou que a região constitui "uma ameaça à segurança mundial" há bastante tempo, e que a atual crise entre Israel e a ANP (Autoridade Nacional Palestina) é "muito perigosa".

O estopim da crise atual foi o seqüestro do soldado israelense Gilad Shalit, 19, ocorrido há oito dias em um posto militar em Kerem Shalom, perto da fronteira com Gaza. A ação --a primeira bem-sucedida contra soldados de Israel em 12 anos-- foi seguida de um segundo seqüestro. o do colono Eliyahu Pinchas Asheri, 18, que foi encontrado morto na quarta-feira (28).

De acordo com a chanceler, é "trágico" perceber que havia uma possibilidade de negociação entre israelenses e palestinos e que, segundo ela, aqueles que seqüestraram o soldado "tentaram claramente minar esse esforço".

Nesta segunda-feira, os três grupos extremistas palestinos que reivindicaram o seqüestro de Shalit -- Comitês de Resistência Popular, o braço armado do Hamas e o Exército Islâmico-- deram um ultimato a Israel, exigindo a libertação das 94 mulheres e 313 adolescentes palestinos detidos em prisões israelenses.

Israel --que já havia rejeitado anteriormente a exigência-- reiterou que "não aceitará ultimatos".

Na última terça-feira (27), Israel invadiu e atacou a faixa de Gaza inúmeras vezes e prendeu vários membros do governo Hamas, eleito para o governo palestino de forma democrática em janeiro último.

Irã

Em relação à controvérsia em torno do programa nuclear iraniano, Beckett afirmou que a oferta feita pela União Européia (UE) foi uma proposta "muito justa e ampla", que garantiria o acesso do país à energia nuclear civil, e que a demora iraniana em responder a oferta é "preocupante".

"Se eles resistem mesmo sabendo que terão direito à energia nuclear civil, começa-se a questionar qual o verdadeiro objetivo [do programa nuclear]", disse a ministra, acrescentando que espera que o Irã "aproveite essa oportunidade".

Beckett fez ainda críticas ao modelo seguido pelo Conselho de Segurança da ONU, dizendo que, no mundo de hoje, "não faz sentido" manter um conselho que tenha como membro permanente "a França, e não a Alemanha; a China, e não a Índia; a Rússia, e não o Japão; o Reino Unido, e não o Brasil".

Os cinco membros permanentes do conselho [únicos com direito a veto] são EUA, Reino Unido, França, Rússia e China.

Brasil

Durante seu discurso, a ministra britânica disse que, em um mundo globalizado e de "rápidas mudanças", a capacidade de enfrentar desafios como a estabilidade econômica e financeira global, a segurança energética e climática, o comércio global e a miséria extrema é importante "não só para o Brasil como também para o Reino Unido".

Segundo ela, nem o Brasil nem o Reino Unido conseguirão lidar com tais questões sozinhos, "tampouco os EUA", já que elas exigem ações globais.

De acordo com a chanceler, Blair e o presidente brasileiro, Luiz Inácio Lula da Silva, estão "unidos em muitos assuntos".

"Ainda hoje, o presidente Lula e eu discutiremos maneiras de dar prosseguimento à idéia de um encontro de líderes. Todos devemos criar coragem para tomar as decisões corretas para o mundo", disse.

Especial
  • Leia mais sobre o Iraque sob tutela
  • Leia o que já foi publicado sobre o Reino Unido
  •  

    FolhaShop

    Digite produto
    ou marca