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São
Paulo, 12 de junho de 2000
RENATA LO PRETE
 |
O
número 1
De maneira geral, está correta e à altura da notícia a cobertura da
Folha sobre a vitória de Gustavo Kuerten no Aberto da França.
A maioria das observações a seguir tem caráter pontual:
1. Falta no material de Esporte (encarte especial incluído)
uma análise técnica da partida de ontem. O relato do jogo (pág. D
2) está bastante detalhado, mas não preenche a lacuna. Para fazer
um paralelo, não dá para imaginar o jornal cobrindo uma decisão de
futebol do mesmo nível sem um texto desse tipo.
2. Às vezes parece que o jornal não sabe o que fazer com tantos
elementos gráficos na mesma capa. A de Esporte repete, em dois
enunciados de apoio ao título principal, a informação de que, com
o resultado de ontem, Kuerten alcançou o topo do ranking mundial de
tênis.
3. Mais redundância na capa: textos publicados lado a lado
repetem que o brasileiro agora acumula 505 pontos, contra 486 de Magnus
Norman.
4. A legenda da foto da capa do caderno ("O tenista brasileiro
Gustavo Kuerten berra durante a partida de ontem" etc.) é do tipo
que incomoda o leitor, porque:
a) enche linguiça;
b) não diz nada que não se possa constatar sem auxílio do texto.
5. Como o horário jogou a favor do fechamento do jornal, imagino
que era possível ter limpado os textos de coisas como "no quinto game,
o sueco, com dificuldade, ganhou o primeiro game", ou "Martina Hingis,
suposta namorada do sueco, sorria a cada ponto do sueco" (pág. D 2).
Ainda sobre Hingis, dois parágrafos adiante a suposição foi abandonada
e Norman virou seu "namorado", sem ressalva. Na pág. D 4 há uma referência
à "jugular sobressalente" de Larri Passos ao final do jogo, como se
o técnico tivesse uma para ser trocada em caso de necessidade.
6. Enfim a Folha chama Kuerten de Guga ("Gugaaa!", título
da capa do encarte especial), reivindicação de muitos leitores. Como
imagino que seja só hoje, ficarei à espera de novas reclamações.
7. "Nacionalismo leva tenista à Copa Davis e à Olimpíada."
Esse título da pág. 2 do encarte está um tom acima do texto correspondente,
onde se lê que Kuerten "reforça uma inclinação nacionalista pouco
comum no circuito" ao definir esses dois torneios como sua prioridade
para os próximos meses. Mesmo deixando a matéria de lado, o exagero
do enunciado é evidente.
8. Está muito bom o texto de José Geraldo Couto na capa do
encarte. Também funciona a sucessão de caras de Kuerten na pág. 3.
9. Dá para ver também em fotos de outros jornais, mas a da
capa do caderno de esportes do "Globo" destaca, ao lado do troféu,
o logotipo globo.com na manga da camiseta de Kuerten.
10. Um leitor telefona para apontar problema na reportagem
de ontem sobre a vitória de Mary Pierce. O jornal diz que os franceses
comemoraram um título em Roland Garros depois de 33 anos. Em nenhum
momento o texto deixa claro que a afirmação vale apenas para o torneio
feminino, o que induz a uma conclusão equivocada. O leitor lembra
que Yanick Noah venceu em 1983. É caso de "erramos".
A escolha de Ruth
1. "A sra. pretende votar em alguma delas?", perguntou a Folha
à Ruth Cardoso. Resposta: "Vou esperar a campanha delas para ver quem
me convence". Com base nesse diálogo, não sei se é possível afirmar,
como faz o título da pág. A 4, que a primeira-dama "diz estar entre
Marta e Erundina". Talvez seja excesso de cuidado de minha parte,
mas a frase é um tanto gelatinosa, comportando também a hipótese de
que ela não se deixe convencer por nenhuma das duas.
2. É detalhe, mas na abertura do pingue-pongue está escrito
que Ruth "recusou-se a fazer foto com a bandeira brasileira atrás".
Vai ver ela virou a cadeira na hora H. O fato é que a bandeira aparece
atrás dela na imagem.
3. Como a entrevista é relativamente curta, ficou exagerado
o tamanho da seção "Frases" (mais de um quarto do espaço total de
texto).
Só para constar
Cada vez me convenço mais de que essas artes enormes, do tipo "para
entender o caso", são usadas para resolver problemas de fechamento
e servir de álibi em discussões sobre didatismo. Importa menos se
o leitor vai ou não compreender melhor o assunto depois de lê-las.
Um exemplo é o quadro que acompanha a reportagem sobre a prisão de
Lino Oviedo ("Um país à sombra do militarismo", pág. A 13). Quem não
acompanha o que acontece no Paraguai (público-alvo da arte, portanto)
vai do início ao fim sem entender por que Oviedo e seu afilhado político
Raúl Cubas teriam tramado, em 1999, o assassinato do vice-presidente
Luís María Argaña.
Estudar fora
1. Manchete do Folhainvest: "Mande seu filho estudar
fora do Brasil". Essa pauta já foi feita pelo caderno. Até aí, tudo
bem voltar depois de algum tempo. O enunciado no imperativo não é
muito adequado ao assunto, mas também não é o fim do mundo. Agora,
mandar o leitor mandar o filho estudar fora e oferecer, como única
simulação de gastos com curso superior, o da Florida International
University começa a ser sinal de serviço mal feito. Dizer que a escola
foi escolhida "por ser uma das preferidas dos brasileiros" não resolve
o problema.
2. Também parece inadequado, porque excessivamente promocional,
dedicar meia página aos serviços de uma única empresa, a 1º da Classe,
que "negocia descontos de 40% a 60% com colégios". Que colégios? Os
de primeira linha? A reportagem não esclarece.
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