São
Paulo, 19 de junho de 2000
RENATA LO PRETE
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Eleição municipal
1. Título principal da pág. A 4: "PT evita racha e escolhe Hélio
Bicudo como vice". A rigor, o enunciado inverte a ordem dos acontecimentos.
2. De acordo com a reportagem , o nome do ex-deputado "pegou
muitos filiados e delegados de surpresa". Não só eles. Salvo engano,
a cobertura que precedeu a convenção não trouxe nenhuma pista de
que a solução poderia ser essa.
3. Segundo a reportagem "Tucanos ratificam candidatura Alckmin"
(pág. A5), "a estratégia é ligar o nome" dele "aos do presidente
Fernando Henrique Cardoso, de Covas e dos ministros tucanos", na
tentativa de "fazer com que a campanha decole". É compreensível
que Serra e Paulo Renato apareçam na matéria dando declarações otimistas
nessa linha, mas não faz sentido o jornal assumir que a associação
aos governos federal e estadual produziria tal efeito.
Jornais e Internet
1. O tom geral da cobertura da Folha e dos concorrentes
sobre os dois eventos da semana passada no Rio está resumido nos
títulos da pág. A 12: "Jornais e Internet se complementam"; "Pesquisa
mostra que TV é o meio mais afetado". Partindo de um congresso de
jornais e de um fórum de editores, são conclusões relativamente
previsíveis, que podem levar o leitor a se perguntar se não há excesso
de otimismo.
2. Na entrevista com Al Neuharth, um dos fundadores do "USA
Today", a Folha deixa passar sem réplica a afirmação de que "em
praticamente todo o mundo a circulação de jornais está estável".
Nos EUA, excetuados alguns intervalos e o desempenho de uma ou outra
publicação, está em queda há anos.
3. O jornal também não questiona o discurso vitorioso de
Neuharth sobre o "USA Today" ("nossos críticos não nos entendiam,
os jornais sérios acabaram imitando nosso estilo" etc.). Era oportuno
lembrar que o "USA Today" passou por séria crise, e que para contorná-la
ele sim caminhou alguns passos em direção ao modelo dos "jornais
cinzentos", ainda que não tenha ficado menos colorido.
Jogado fora
Títulos óbvios, textos gelados, fotos que apenas tapam buraco, assuntos
que não são os do momento ou que já foram tratados pela Folha:
rapidamente, as duas páginas de traduções de jornais estrangeiros
que Dinheiro passou a publicar às segundas-feiras estão se transformando
em calhau.
Calendário
O Folhateen (pág. 3) diz que "Missão Impossível 2" estréia na sexta-feira.
Por causa do feriado, estréia no dia anterior.
Manchetes de domingo
Pelo segundo domingo consecutivo, a manchete do jornal veio
do mundo medicina/saúde pública (demora nos diagnósticos de câncer
na semana passada; aproveitamento insuficiente de órgãos doados
nesta). Também pelo segundo domingo consecutivo, a manchete não
tinha relação com nenhum dos assuntos em maior evidência no momento.
Não é obrigatório que tenha, nem há problema sério em ficar na mesma
área. Mas, somando esses dois fatores ao fato de que as duas reportagens
não chegaram a surpreender, fica a impressão de que o cardápio dos
dois domingos não estava muito forte.
Mais eleição municipal
1. Entendo que, devido à convenção de ontem, era preciso
ter no jornal algo alentado sobre a candidata do PT. O problema
da reportagem "Marta se afasta do 'radicalismo petista'" (pág. A
8) é que ela não diz rigorosamente nada que não se saiba há muito
tempo. Mesmo para material de apresentação, é cozinha em excesso.
2. A reportagem "PPS deve enfrentar batalha judicial" (pág.
A 9) descreve Roberto Mangabeira Unger como "idealista da campanha
presidencial de Ciro Gomes".
Para conferir
Reportagem na pág. A 11 relata que um rapaz fantasiado de Charles
Chaplin entregou flores a José Serra no sábado em Goiânia, onde
o ministro participou da campanha de vacinação. Segundo o jornal,
"o gesto havia sido planejado pelo governo de Goiás". O rapaz me
telefonou para contestar a informação. Sustenta que não teve nenhum
contato com funcionários do governo e que seu gesto foi espontâneo,
espécie de desagravo a Serra pelos ovos recentes.
Vai entender
Segundo a reportagem "Ex-estatais podem perder concessão por ineficiência"
(pág. B 3), "Os responsáveis pela fiscalização apontam dois pontos
para a degeneração do serviço dessas empresas: falta de investimentos
e falha na fiscalização".
Censo 2000
Observações sobre a reportagem "IBGE elimina 'excluídos' do Censo
2000" (pág. C 6):
1. O título parece um tanto impreciso, pois dá a idéia de
que o instituto fará algo diferente do que sempre fez, e não é isso.
Pelo que explica o texto, a base de dados do Censo continuará a
ser domiciliar. O instituto alega que precisaria de metodologia
totalmente diferente para contar as pessoas que vivem na rua.
2. É superficial a matéria "Especialistas criticam exclusão"
(pág. C 7). Pensei que encontraria ali alternativa à visão do IBGE,
mas tudo o que o texto traz são dois pesquisadores dizendo que é
ruim não medir a população de rua. Para saber disso não é preciso
ouvir nenhum sábio.
3. Não parece subestimado o número de 18.096 pessoas vivendo
nas ruas em São Paulo, Rio, Belo Horizonte Brasília, Porto Alegre,
Santos e Campinas (pág. C 6)?
TV Folha
1. A reportagem "Sites e emissoras disputam direitos sobre
os artistas da TV" (pág. 4) relaciona quase todos os endereços citados
a seus respectivos provedores, mas menciona o site Babado sem esclarecer
que ele pertence ao iG.
2. A reportagem "Especial lacrimejante encerra saga de 'O
Quinteto'" (pág. 5) faz aquilo que o leitor odeia: conta o final
do programa.
3. No principal destaque da programação de ontem (pág. 15),
o caderno trouxe horário errado (18h30) da final entre São Paulo
e Santos.
Ainda o ônibus
1. "Fascinada, população acompanha sequestro como se fosse
uma final de campeonato." Além de ser de mau gosto, o olho da capa
da Revista da Folha me parece equivocado: o fato de as pessoas terem
ficado grudadas diante da TV não significa que estivessem experimentando
os mesmos sentimentos despertados por uma partida de futebol.
2. A reportagem tem o mérito de captar o assunto da semana,
mas no que diz respeito a números de audiência sua argumentação
é frágil. Em parte isso resulta da dificuldade de obter os dados,
especialmente os relativos à Internet, mas também há deficiência
na maneira de apresentá-los. O texto diz que "a violência bateu
recordes". No caso da TV, o exemplo dado é o do "Cidade Alerta",
da Record, que registrou cinco pontos acima de sua média habitual.
O jornal não esclarece se isso é recorde do programa. Nem informa
se, devido à cobertura do sequestro, a emissora chegou a bater a
Globo no horário.
3. Diagnósticos de "especialistas" impingidos ao leitor:
"O grande acontecimento não foi o sequestro e sim a transmissão";
"A forma extremamente detalhada de a mídia explorar esses acontecimentos
acaba induzindo as pessoas a adorar a violência".
Leia
críticas anteriores:
16/06/2000
15/06/2000
14/06/2000
13/06/2000
12/06/2000
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